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quinta-feira, 3 de dezembro de 2015

Um trecho marcante de Philip K Dick


“— Este prédio, tirando o meu apartamento, está totalmente bagulhificado. 
— Bagulhificado? — ela não entendeu. 
— Bagulho é todo tipo de coisa inútil, como correspondências sem importância, caixa de fósforos vazia, embalagem de chiclete ou homeojornal de ontem. Quando ninguém está por perto, o bagulho se reproduz. Por exemplo, se você vai dormir e deixa algum bagulho próximo ao seu apartamento, na manhã seguinte, quando acordar, terá o dobro daquilo. E vai sempre acumulando, mais e mais. 
— Entendi. — A garota o observou hesitante, não sabendo direito se acreditava nele. Não estava certa de que ele estivesse falando a sério. 
— Existe a Primeira Lei do Bagulho — disse Isidore. — Bagulho expulsa o não bagulho. Como a lei de Gresham sobre o dinheiro ruim. E nesses apartamentos não tem havido ninguém para combater o bagulho. 
— Então ele tomou conta de tudo completamente — a garota concluiu. E assentiu: — Agora entendo. 
— Esse seu apartamento — ele disse —, este que você escolheu, está bagulhificado demais. A gente pode reduzir o fator bagulhífico; podemos dar uma geral nos outros condaptos, como eu havia sugerido. Mas... — ele parou. 
— Mas o quê? 
— Não dá pra ganhar essa disputa. 
— Por que não? — [...] Pelo menos ela estava prestando atenção. 
— Ninguém pode vencer o bagulho — ele disse —, a não ser temporariamente e talvez em um único lugar, como em meu apartamento, onde eu meio que criei uma estase entre as pressões bagulhíficas e não bagulhíficas, por enquanto. Mas um dia eu vou morrer ou ir embora, e então o bagulho voltará a tomar conta de tudo. É um princípio universal que opera por todo o cosmo; o universo inteiro está se movendo na direção de um estado final de total e absoluta bagulhificação.”




domingo, 29 de novembro de 2015

Um teaser do meu romance 'O arquivo dos sonhos perdidos'


Seguiram pela floresta por muito tempo até que alguma coisa diferente acontecesse. Yan se certificou algumas vezes de que Lavínia realmente soubesse o que estava fazendo, mas quando ela disse que estariam próximos ao rio Ämazon e que em breve avistariam uma entrada subterrânea para uma caverna e sua previsão se concretizou, o general renovou sua dose de paciência e quedou-se quieto.

Um a um, entraram na abertura vertical — onde se era possível descer por saliências encravadas na pedra, usando mãos e pés ao mesmo tempo — e seguiram em fila indiana, a única maneira possível. Yan iluminava com uma lanterna o caminho de Lavínia, que seguia sempre à frente, e Jess iluminava o chão irregular para si e para Farouk, que respirava profundamente e com gosto.

— Esse ser o cheiro da vida — dizia o acádio. — Farouk se sentir quase em casa agora. Em Akkadia não ter essa umidade toda no ar, mas Farouk se contentar assim mesmo.

Passaram por muitas bifurcações, curvas e ascensões e descidas, e Jess estava certo de que veria, a qualquer momento, caveiras de desbravadores medievais que morreram perdidos naquele túnel, mas não viu mais que pedras, escuridão e aranhas pernudas. Andaram por horas naquela trilha, e por mais de uma vez tiveram que parar para restabelecer as forças, com água, comida e pés para cima, no caso de Farouk. Por fim, quando imaginaram que já não teriam forças para enfrentar uma subida — quase uma escalada — que já lhes consumia praticamente uma hora, viram enfim a luz do dia. Mesmo Farouk pareceu grato por poder armar sua barraca e dormir, ainda que na superfície.

Acordaram (inclusive Lavínia) muito tempo depois, mas completamente refeitos. Um torpor parecia agora invadir seus pensamentos quando tentavam se lembrar do caminho feito na trilha subterrânea, e tudo parecia ter ocorrido há muito tempo atrás. Pareciam ter dormido por dias. Farouk observou que a falta das informações mais básicas de seus neuronet reforçava essa impressão, mas acabou por decidir que estava com fome demais para pensar nisso àquela hora da manhã, ou da tarde, tanto fazia.

Após se alimentarem e obedecerem às suas necessidades básicas, retomaram a marcha. Curiosamente, a trilha era bem mais nítida agora, o que de modo algum tornava mais fácil chegar ali. Caminharam por mais umas duas horas, até que a trilha fez uma virada brusca para a direita. Lavínia se certificou que todos iriam exatamente por onde ela dizia, e então solicitou que parassem. À frente dos outros três, a celta afastou a vegetação e ultrapassou-a, sumindo de vista. Antes que Yan se manifestasse, ela chamou-os. Repetiram o que ela fizera, adentraram os arbustos e não acreditaram no que viram.

Do outro lado de um abismo, Manäws, a milenar capital dos celtas tropicais, dividia uma esplendorosa queda d’água em duas com suas torres tão verdes quanto a mata ao seu redor.

*

— É maravilhosa — foi tudo o que Jess conseguiu dizer, extasiado com a visão da gigantesca capital celta.

— Agora entendo por que é praticamente impossível chegar aqui — disse Yan, vendo a simbiose perfeita da cidade com a mata.

Se as torres eram continuações das árvores ou se as árvores é que eram complementos às torres, não era certo precisar. Mesmo os tons dos materiais usados para erigir as construções eram semelhantes às cores da floresta. Se não fora a deusa Lascia da beleza a responsável por erguer aquela cidade, conforme diziam algumas lendas, ela certamente ficara orgulhosa da realização.

Por sobre cada uma das cachoeiras que emergiam à frente da cidade, duas belíssimas pontes em arco ligavam uma imensa torre vertical às outras torres marginais — as torres de vigia, explicou Lavínia. Farouk ficou um tanto cético quanto a ver figuras furtivas (como Yan, mas ele não quis dizê-lo) em meio à mata, mas a celta deu uma risadinha levemente cínica.

— Eles enxergam; não se preocupe — disse.

Jess tentou avaliar a altura do penhasco que os separava da capital, mas seu neuronet ainda nada mostrava. Percebeu o quanto era refém daquela tecnologia; sem ela, julgava ter ali uns duzentos metros de queda livre, mas não apostaria um rim naquilo. Aliás, por falar em retirada de rins, o que os “Dons” da vida não pagariam por um sistema de bloqueio assim… Não; não alguém como o Don; aquele tipo de criatura jamais teria tanto dinheiro. Certamente, nas esferas mais altas qualquer coisa desse tipo já foi bolada… Mas que dava para fazer uma grana, dava.

— Cento e quarenta e quatro metros — disse Lavínia, acompanhando Jess no olhar ao penhasco. — Te conheço, Jess. Aposto que era nisso que estava pensando.

Por um momento, Jess voltou a ver a Lavínia urbana por trás daquela Lavínia céltica que se instalara nela nos últimos dias. Ele riu.

— Aí é que você se engana — disse.

Lavínia apenas sorriu de volta, e chamou-os a prosseguir.

Os quatro acompanharam a trilha que margeava o penhasco, seguindo cada curva do rio que lá embaixo fazia o que os rios fazem de melhor: cavar a pedra por séculos e séculos, abrindo fendas, cânions e vales, até o que os homens os destruam. Logo se aproximaram de outra ponte em arco, que ligava duas extremidades mais próximas do desfiladeiro. Um alto vigia celta se aproximou, e os três homens ficaram admirados com sua indumentária. Usava uma túnica verde-folha que ia até os joelhos; botas longas e escuras e uma proteção sem mangas de couro claro. Tinha ainda um elmo alongado, donde escorria seu cabelo preto (avermelhado?) e liso atrás e preso em duas tranças grossas na frente, e um grosso colar de ouro. Como os celtas abominavam o uso das armas de fogo, carregava uma espada longa numa bainha de couro preto.

— Bore da, Läni — disse ele, abraçando Lavínia polidamente. Saudou os outros com um aceno de cabeça. — Disseram-me que havia voltado; quis ver com meus próprios olhos — acrescentou no idioma comum.

Esse costume celta deveria ser de praxe em todo o resto do mundo “civilizado”, pensou Farouk, que já lera sobre a tradição de jamais esconder o assunto de quem estivesse ouvindo.

— Bore da, Mënon — disse Lavínia. — Voltei, mas por pouco tempo. Preciso ver Juno.

— Depois que você ligou, ele não saiu mais — riu Mënon. — Precisa ver a alegria quando me disse. Mas vamos, são todos convidados hoje. Gaia bendithia ei ddyfodiad!*



* Em céltico manawar, Gaia abençoa sua chegada.

sábado, 28 de novembro de 2015

Mistborn - Nascidos das brumas vol. 1: O Império Final, de Brandon Sanderson


Pra começar logo com os dois pés no peito: de todas as muitas fantasias que eu li, Mistborn agora só perde para O senhor dos anéis e As crônicas de gelo e fogo. Pronto. Leia o restante do post ciente de que você vai encontrar uma rasgação de seda só.


Tudo nesse livro é foda. Os personagens do grupo, a trama com suas viradas, o sistema de magia, o mundo, o vilão, os coadjuvantes, o tom do livro, tudo mesmo. Não consegui encontrar uma falha, uma inconsistência, um algo que poderia ser melhorado. Li, inclusive, esse livraço de 600 e tantas páginas mais rápido do que eu li muitos de 200 ou menos. Com certeza Brandon Sanderson é tão foda quanto o Thiago e a Melanie do podcast Agentes do LIVRO tentam nos fazer acreditar. Embora não haja um "estilo de escrita" que o diferencie tanto — como é com Saramago, Gaiman, Victor Hugo —, Sanderson é um mestre da narrativa. Ele escreve de maneira muito fluida, e conseguiu, pelo menos nessa obra, construir uma história em que há coisas sempre acontecendo, num ritmo gostoso, sem atropelos e sem "barriga".

A trama de Mistborn - Nascidos da bruma vol. 1: O Império Final é até simples. (Antes, que nome grande hein Leya? Não podia deixar só o Mistborn vol. 1: O Império Final não, tinha que traduzir? Ou até mesmo deixar só o Nascidos das brumas...? Enfim.)  Ao contrário do que geralmente acontece nas histórias de fantasia, onde o herói da profecia vence o mal, aqui temos o contrário. O herói perdeu, e o mal tomou conta do mundo. E isso já há 1.000 anos. Em decorrência disso, surgiu uma sociedade extremamente dividida, entre os ricos nobres e os pobres skaa — e é desse segundo grupo que vem a revolta, claro. Alguns deles — a incrível Vin, o cativante Kelsier, o correto Yeden, o singular Brisa, o poderoso Hammond e o taciturno Trevo — se unem em um plano incrivelmente estúpido para mudar o sistema.

Apesar de ser o primeiro livro de uma trilogia, é, de certa forma, uma história fechada. Se o leitor quiser, nem precisa procurar o resto; o final é altamente satisfatório. Contudo, duvido que qualquer um que leia O Império Final pare por aí mesmo — o negócio é muito bom!

Só não ganhou 6 estrelas no Skoob porque só vai até 5 :)

Vin e Kelsier, por Shilesque

quinta-feira, 19 de novembro de 2015

Um trecho marcante de Lúcio Manfredi


“— Me admira muito um crânio que nem você não saber quem é Chuang-Tzu. Até eu sei quem é Chuang-Tzu. 
E como o momento requer uma pausa dramática e essa é uma concessão que ele não se importa de fazer pelo bem da cena, é só no final do parágrafo que Max arremata: 
— Só não sei muito bem quem sou eu. 
No ato se arrepende, primeiro porque já disse isso e a repetição arruína a punch line, e segundo porque um fiadaputa oportunista tenta lhe roubar a cena, se aproveita da pausa para provocar um ruído no andar de cima e se tem uma coisa que Max não precisa nesta casa estranha é um ruído no andar de cima, inda mais um ruído que soa como um índio sussurrando acanga tatá. Max garra na arma e vai investigar, sem parar para refletir que a estranheza maior do ruído é que, sentado na cozinha do andar de baixo, ele tenha conseguido ouvir uma palavra sussurrada no andar de cima.”
Lúcio Manfredi - Encruzilhada



domingo, 25 de outubro de 2015

Sandman: Os caçadores de sonhos, de Neil Gaiman & Yoshitaka Amano


É engraçado o que a leitura de Gaiman faz comigo. É daquelas leituras que te deixam sentado, em silêncio, olhando para o nada, sem pensar, apenas sentindo. Posso afirmar, sem medo, que ele é o meu escritor favorito — e essa obra, Sandman: Os caçadores de sonhos, é uma realização — em toda a profundidade que essa palavra traz — dele em parceira com o meu desenhista favorito: Yoshitaka Amano.

Para quem não o conhece, ele é o ilustrador oficial da série Final fantasy — que também é a minha franquia preferida de videogames. Quando descobri essa obra na livraria, comprei-a sem pensar duas vezes. Para melhorar ainda mais, era barata.

Eu só não imaginava que a história me emocionaria tanto.


O texto de Gaiman é aquele negócio, né. Ele não exagera, não se demora, não enrola, não floreia — mas também não é cru. Usa as palavras necessárias para passar exatamente o que ele quer passar, e todas elas, na medida perfeita — e os desenhos de Amano são exatamente assim, também; têm o nível de detalhes na medida exata que precisam ter; podem ser uma profusão de traços e detalhes minúsculos ou um mar de cores e minimalismo que incomoda e deleita. A união de ambos — texto e traços — é imprescindível para a perfeição dessa obra.

E ela é perfeita. Não preciso explicá-la mais do que dizer que ela é uma ode ao amor. Alguns podem dizer que é apenas um conto, ou uma fábula, mas, na minha concepção, ela vai muito além disso. Ela é verdadeiramente um recorte dos sonhos. Gaiman e Amano trabalham com o está além — com o que está acima — do mundo real. Talvez eles trabalhem com o verdadeiro mundo real...

Mas o que sei é que eles trabalham com o que mais se aproxima do que eu realmente sou.

"Mas o que fizeram um pelo outro há de ser lembrado, e pode-se conjecturar que, neste momento, eles fizeram amor. Ou sonharam ter feito.

Quem sabe.

Quando encerraram as despedidas, o Rei dos Sonhos juntou-se a eles novamente.

— Agora tudo será como devia ser — ele disse, e o monge viu-se observando a raposa de dentro do espelho.

— Eu teria dado a minha vida por você — ela sussurrou, triste.

— Viva — disse o monge."


domingo, 11 de outubro de 2015

Alif, o invisível, de G Willow Wilson


Ler Alif, o invisível foi experienciar uma completa reversão de preconceitos. Não sei bem por quê, mas desde que foi lançado, o vi nas prateleiras das livrarias e não me motivei muito a comprá-lo (ajudou o preço em que os livros estão hoje em dia, nunca fugindo do intervalo R$ 30-50 para romances de tamanho tradicional). Encontrá-lo novo num sebo a R$ 19,90 ajudou a quebrar o bloqueio. Outra coisa que ajudou (e é uma coisa completamente besta, eu sei) foi a fonte em que o livro foi composto pela Rocco — a Centaur, a fonte em que escrevo e a que mais gosto. Bendita Centaur, hehe, porque li um dos livros que mais gostei esse ano.

Como não gosto de "resenha release", vou enumerar aspectos do livro que gostei — a sinopse o leitor pode achar no link para o Skoob lá em cima. Primeiramente, os personagens.

Alif, o personagem principal, é um produto criado pelo seu ambiente (o Oriente Médio) — ainda que subvertendo-o. Um hacker revolucionista, mas pode-se dizer que uma pessoa comum, mediana. Preconceituoso como boa parte de seus conterrâneos, apesar de sua inteligência. Como se percebe numa parte do livro, alguém que anseia pelas mudanças, mas, quando elas vêm, percebe que até preferia continuar na mesmice, meramente pelo medo do novo. Um carinha irritante, mas muito bem construído. Dina, sua amiga, é praticamente o oposto dele — apesar de ser extremamente religiosa (optando por um caminho tradicional demais até mesmo para os seguidores normais do Islam), é mais mente aberta para muitas coisas do que Alif. Vikram é um cara engraçadíssimo, também muito bem construído, e, não sei por quê, imaginei ele com a cara do Johnny Depp o tempo todo. O xeque Bilah é o exemplo do que um líder religioso deveria ser: segue sua religião interpretando-a e adaptando-a aos tempos modernos, e não com um cabresto. Suas reflexões são incríveis. O outro hacker, NewQuarter, vive os conflitos entre sua condição social e suas aspirações — e aparece na hora certa, hehe. A convertida, que só é chamada assim, nos apresenta as dificuldades em se adaptar e se incluir em uma cultura tão diferente da sua (seria um reflexo do que a própria autora enfrentou?). Agora, sem dúvida, a personagem que mais dá raiva na gente é a talzinha da Intisar; ô menina escrota! Suas motivações, contudo, são perfeitamente compreensíveis... infelizmente. Os outros personagens que ajudam no decorrer da história são mais planos, mas nem por isso mal construídos, e isso não chega a incomodar.

Gwendolyn Willow Wilson escreve muito bem — e confesso que, em muitos momentos, me lembrei da escrita de Neil Gaiman, e isso só pode o maior dos elogios. Como dito no episódio 83 d'O Drone Saltitante, a obra tem um quê de Deuses americanos — que muito me agradou. A narrativa é fluida e mescla com perfeição momentos mais light com pesadas críticas, tanto à política, às divisões sociais, ao preconceito e ao extremismo religioso. Wilson apresenta os aspectos culturais dos árabes com maestria, e conseguimos até mesmo compreender atitudes religiosas que antes poderíamos simplesmente rechaçar, simplesmente por sua completa diferença em relação ao que consideramos cotidiano e "normal" por aqui. A trama pode até ser considerada simples — mas você só percebe isso ao final do livro. No começo, é difícil saber o que está realmente acontecendo — e isso é excelente, porque nos transporta perfeitamente para o papel de Alif, que vê sua vida se torcer e quebrar de formas verdadeiramente nauseantes, ao perceber que, por trás do véu da realidade, existem muitas coisas a mais do que podemos ver... ou do que queremos ver? Confesso que, como não gosto de ler nem resenhas nem sinopses antes de ler os livros, até mesmo o gênero da história tive dificuldade em precisar, no começo. Mais um ponto para a autora por isso — e são tantos pontos positivos que só lendo mesmo para apreendê-los todos.

Alif, o invisível é uma fantasia urbana respeitável, aventuresca e com toques de ficção científica. Provavelmente vai ser a minha escolha de "surpresa do ano" na retrospectiva de 2015; vai ser difícil achar outro livro, ainda esse ano, que destrua meus preconceitos de forma tão devastadora quanto esse o fez. Todo tipo de preconceitos. Você, leitor, também devia rever os seus.

Você só vai entender por quê essa imagem está aqui quando ler o livro :)


• Livro: ALIF, O INVISÍVEL •
• Autor: G WILLOW WILSON •
• Editora: Fantástica / Rocco •

Personagens: ★★★★☆
Trama: ★★★★☆
Escrita: ★★★★★
Ambientação: ★★★★★
Revisão: ★★★★☆
Capa: ★★★★☆

quinta-feira, 8 de outubro de 2015

Um trecho marcante de G Willow Wilson


“A convertida ergueu uma sobrancelha, cética.
— Já esteve nos Estados Unidos?
— Em que sentido?
— Existe mais de um?
— Naturalmente.
— Meu Deus, você é ridículo. — Segurando a saia comprida, a convertida passou à frente de Vikram, andando pela rua com um passo decidido. Vikram riu.
— Eu não pretendia ofender sua vaidade, minha cara — garantiu ele. — Ande mais devagar. Conheço tão poucos ocidentais que esqueci com suas consciências são melindrosas.
— Sabe quantas palavras eu conheço para 'estrangeira'? — perguntou a convertida. Ela não se virou para falar; sua voz parecia flutuar de trás da cabeça envolta em seda. — Muitas. Ajnabi. Ferenghi. Khawagga. Gori. Pardesi. Já fui chamada de todas elas. Não são palavras gentis, independentemente do que seu povo alegue.
— Espere um minuto, quem é esse seu povo? — disse Alif.
— Orientais. Não ocidentais. Como quiserem chamar a si mesmos. Não importa as concessões que façamos... Se nos vestimos respeitosamente, aprendemos a língua, seguimos todas as regras insanas sobre quando falar, como e com quem. Eu até adotei sua religião... Adotei por livre e espontânea vontade, pensando que fazia algo nobre e correto. Mas não é o bastante. Vocês sempre criticam cada pensamento e opinião que sai de minha boca, mesmo quando falo da merda do meu país. Sempre serei uma estrangeira.”

G Willow Wilson - Alif: O invisível

G Willow Wilson; foto de Amber French.