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terça-feira, 29 de janeiro de 2019

Justiça Ancilar, de Ann Leckie


Estou sumido aqui do blog, eu sei, mas vida de editor tem suas responsabilidades, hehe. (Entenda lendo a postagem anterior a essa.)

No entanto, senti vontade de voltar aqui para falar do livro Justiça ancilar, da Ann Leckie, que acabei de ler — e senti essa vontade tanto pelos acertos quanto pelos erros, do livro e da editora Aleph.


Primeiro tenho que confessar minha dificuldade em acompanhar a narração da personagem principal. A história, caso não saibam, é narrada por uma inteligência artificial (isso não é spoiler) de uma nave. Disso, advém, ao menos inicialmente, uma narrativa seca, dura e impessoal. Ok, compreensível. A maluquice é que ela controla dezenas de "cascas" de pessoas e as usa como extensões táteis e interativas de si mesma; assim, ela tem inúmeras "eus" vagando por aí. Isso, ainda que tenha me confundido, foi interessantíssimo, porque gerava momentos bizarríssimos como "enquanto eu conversava com X, eu andei pela beira do lago e me vi conversando com Y. Y disse tal coisa, e eu respondi a X tal coisa no mesmo momento, enquanto observava Z a dois quilômetros dali". Louco :P

Nesse momento da trama eu ainda não estava conseguindo me conectar. Tudo estava parecendo (ainda que cool) um technobabble que poderia ter sido desenvolvido em 50% do espaço (e tempo) que a autora gastou para fazê-lo. Como li a versão e-book e ela apresenta muitos erros de revisão, confesso que estava avançando na leitura por insistência... e aí o livro quase me perdeu quando decidiu mudar, do nada, um termo que estava sendo usado, e que gerou alguma controvérsia na tradução do título.

O título original é Ancillary justice. Ancillary pode ser traduzido tanto para ancilar, como o foi, como para auxiliar. Eu, pessoalmente, prefiro o título Justiça ancilar do que Justiça auxiliar, mais pela estética mesmo, pelo estranhamento que causa ao usar uma palavra incomum. E provavelmente a editora teve, também, essa questão como ponto principal, e isso refletiu-se naquele erro que mencionei no parágrafo anterior. A tradução começa chamando as "pessoas extensões" da nave de auxiliares, e lá pela metade simplesmente começa a referir-se a elas como ancilares. Ocorrem ainda algumas instâncias de auxiliares, mas o novo termo segue até o fim do livro. Isso é um erro básico de revisão, desculpem ser tão chato, mas é. Está claro que não é erro do tradutor, mas da editora em si, que certamente mudou de ideia sobre o termo no meio do caminho e não teve o cuidado de fazer um simples "localizar e substituir" no arquivo de texto. Lembremos: li o e-book, e não sei se isso ocorre na versão física. Se não ocorrer, foi pouco caso com o e-book mesmo. (Isso não seria novidade — e não estou me referindo a essa editora apenas.)

Enfim; a história. Depois da metade a coisa engrena. Faz sentido o uso da impessoalidade da protagonista no começo, e o que isso se transforma tendo em vista a própria transformação da protagonista. Há toda uma questão também de gênero, onde não sabemos o gênero de umas 95% das personagens, mas isso não faz a menor diferença. (Fico curioso numa eventual adaptação cinematográfica; teriam que usar personagens altamente andróginos para atingir o mesmo fim...) No texto é usado sempre o gênero feminino (como se dissessem que aquela pessoa é uma engenheira, ou está preocupada), e isso também causa um estranhamento divertido ao ler que um personagem claramente masculino está chateada. Dá um nó legal nos neurônios. O trecho final do livro é excelente, e me deixou no hype de ler a continuação, e assim, apesar dos pesares, dei para o livro 4,5 de 5 estrelinhas no Skoob. Tirei essa 0,5 estrelinha mais pela lentidão do começo — que eu ainda acho que poderia ter sido menos chatinho — do que pelos erros da editora. Cada um no seu quadrado, e por isso eu preferi puxar a orelha por aqui, ao invés de avaliar mal a obra.

Acho que é só. Mas se quiser comentar algo aqui na postagem e conversar, será muito bem-vindo :)

sexta-feira, 14 de setembro de 2018

Editora Nocaute e a valorização da dedicação pela literatura


Vou começar este post tão importante com uma constatação simples:

Viver de literatura, hoje, no Brasil, é praticamente impossível — no entanto, trabalhar pela literatura não é.

Dedicar-se à cena requer, única e exclusivamente, vontade de ajudar. Mostrar a cara. Trabalhar de graça ou por permuta. Trabalhar pelo amor aos livros, às histórias escritas e aos mundos construídos com papel e tinta, orgânicos ou eletrônicos. Ajudar a fazer crescer um cenário restrito, de nicho, com — como ouvi num podcast uma vez — meia-dúzia de gatos pingados que vivem se encontrando por aí e acabam trabalhando juntos frequentemente.

Não está implícito em nada do que eu disse, vejam vocês, que deve haver a figura de uma grande editora ou muito investimento envolvido para fazer essa cena crescer. Só é necessário fazer um trabalho legal — como, por exemplo, eu tenho feito através de revisões freelance ou a edição/revisão dos contos que chegam no Leitor Cabuloso. Através desse trabalho legal veio, por exemplo, o convite para revisar a primeira coletânea do site Mitografias, que ganhou até prêmio. E esse tipo de coisa vale o investimento de tempo e esforço.

O amor pela literatura me fez, inicialmente, ler pra cacete, e a maturidade literária que isso me trouxe me transformaram de um mero leitor para um analista do que lia — e daí para um crítico do que eu lia, e então, revisor, e então... Perceberam? O tesão pela coisa não acabou, e sempre tem me levado ao próximo passo :)

E aí chegamos à editora Nocaute e ao título deste post.

Porque, através do reconhecimento do meu trabalho, fui convidado a me tornar co-editor da editora, junto ao Maik Bárbara.


Sim, é uma grande notícia — e uma puta responsabilidade. O catálogo da editora já está iniciado com quatro bons livros, deve dobrar no ano que vem e é um projeto diferente e com um enorme potencial. Tem tudo para se destacar cada vez mais no mercado, porque o mote da editora é apostar em narrativas não-convencionais e interessantes, que talvez não encontrassem espaço em grandes casas editoriais... e tenho certeza que todo mundo adora uma dose de novidade em meio a um mar de narrativas muito parecidas umas com as outras.

Sinto que é uma grande chance, essa que eu tenho, de fazer ainda mais pela literatura nacional, pelo cenário mesmo. Dar um ar de frescor pra coisa toda; dar uma renovada nas narrativas e fortalecer ainda mais esse pequeno nicho do entretenimento que amamos tanto.

Porque é disso que eu tenho falado desde o começo: ajudar.

Eu estou fazendo a minha parte — e vou fazer ainda mais com essa oportunidade de fazê-lo agora profissionalmente.

E você, tem feito a sua?

segunda-feira, 10 de setembro de 2018

Um trecho marcante de Edson Aran


“6 — Os monarquistas e o comando verde-rosa 
As críticas às cidades-cubo diminuíram muito depois da crise de 2033. A máfia queniana entrou em choque com o Cartel de Comandatuba pela distribuição da droga MTA (metanfetamina transmorfa ativa) em São Paulo. Mil oitocentas e dezessete pessoas morreram no primeiro dia de combate. E mais três mil no dia seguinte. 
A polícia tentou intervir atacando um reduto queniano na zona norte. Os quenianos reagiram. Castraram 32 policiais e degolaram 57 delegados. A polícia, acuada, entrou em greve por melhores salários. Foi o caos. 
A cidade não podia contar com o governo federal. Na época, o presidente Frota enfrentava os separatistas monarquistas liderados por Dom Pedrinho de Orleans e Bragança, o autonomeado Dom Pedro III, Imperador do Brasil. 
A situação piorou mais ainda quando a corrente católica marxista teocrática rompeu definitivamente com o Vaticano e adotou a luta armada como meio legítimo para “implantar o paraíso socialista no reino do satanás capitalista". O país explodiu em guerra civil. Narcotraficantes matavam monarquistas que matavam teomarxistas que matavam qualquer um. 
As shopping cities se tornaram a única salvação para o consumidor médio e de bem com a vida."


A única diferença dessa capa para a do livro que tenho é que no meu está escrito "um romance em 4 tempos"

quinta-feira, 5 de julho de 2018

Leituras de junho


Junho não foi um mês de muita leitura, porque minha vida está atarefadíssima — e, felizmente, vai ficar ainda mais —, mas li dois romances que encheram meu coraçãozinho peludo com um tanto de felicidade. Vamos a eles :)



Fazia tempo que eu não lia nada de fantasia clássica — e não esperava que O gigante enterrado, do japonês Kazuo Ishiguro, fosse uma obra assim. Isso me causou um estranhamento, no início (eu não leio sinopse nem nada sobre o livro quando posso evitar; via de regra, eu compro livros por indicações...), e não sei se o estranhamento foi por descobrir ser uma fantasia pós-arturiana feita por um japonês, ou se foi por o ser por um ganhador do Nobel. De qualquer forma, passado o estranhamento, fui entrando no clima e gostando cada vez mais da história e de acompanhar o adorável casal de velhinhos Axel e Beatrice em sua jornada. Descobrir junto a eles o que causa a névoa que cobre o reino e traz o esquecimento a todos, encontrar o guerreiro, o menino e o cavaleiro, entender o problema do gigante enterrado... Tudo isso foi emocionante e recompensador. O amor dos protagonistas é tocante ao ponto de nos fazer querer conhecê-los, nem que seja somente para vê-los de longe, juntos, interagindo, se amparando. Seguramente, posso dizer que esse é um romance sobre sentimentos, e são livros assim que me fazem entender por que a fantasia é um gênero tão marcante. Inclusive, apesar de Ishiguro não ter um estilo de escrita tão ágil quanto os escritores atuais, definitivamente me fez ter vontade de ler mais coisas suas. O próximo, então, deve ser o Não me abandone jamais. Ah: e como li em e-book, esse eu quero ter em versão física, porque a capa texturizada dele, áspera, com detalhezinhos dourados, é simplesmente linda.

*


Star Wars: Estrelas perdidas foi o primeiro romance original que li da saga, e comecei bem. Realmente já tinha ouvido falar bem dele, e esse foi um dos motivos que me levaram a escolhê-lo como o primeiro da jornada literária pela galáxia distante de muito tempo atrás. O outro motivo foi que eu estava curiosíssimo para descobrir como a autora, Claudia Gray, conduziria uma história de amor por esse cenário — e, ainda por cima, passando por todos os pontos principais da trama da trilogia clássica. A verdade é que ela conduziu essa história de forma incrivelmente deliciosa! Estrelas perdidas tem, sim, uma trama simples, de encontros e desencontros, como toda boa história de relacionamentos, mas é muitíssimo bem escrita, e subverte alguns elementos do gênero de forma interessante — como a forma como o casal protagonista reage aos elementos externos, nunca duvidando um do outro, sem sucumbir às intrigas que sempre ocorrem nessas tramas, e o final, que (claro que não vou dar spoiler), é interessantíssimo. Sem dúvida o livro foi um adendo à saga que aprofunda demais certas personagens e certas motivações por trás de seus atos, e uma excelente porta de entrada para os próximos livros. Em tempo: li esse livro em papel mesmo, e é um dos que eu vou guardar, ao lado do Star Wars: Episódios IV, V e VI da Darkside :)

quinta-feira, 7 de junho de 2018

Leituras de maio


Indo direto ao assunto, vamos às minhas obras comentadas do mês de maio de 2018, esse ano tão esquisito para o Brasil, com greve nacional dos caminhoneiros, Copa do Mundo e sabe-se lá o que mais vem por aí...:


ROMANCES:




Já começo com os dois pés na porta: eu não estava psicologicamente preparado para o turbilhão de emoções que é o final — especialmente depois dos 80% — de Mistborn vol. 2: O Poço da Ascensão. Que livro, senhoras e senhores, que livro esse tal desse Brandon Sanderson escreveu...! Aliás, acho que já posso dizer: que série! (Se ainda não sabe do que estou falando, leia este post sobre o primeiro volume.) É meio que ponto pacífico que o segundo volume de qualquer trilogia é, literalmente, intermediário — vai retomar pontas soltas do primeiro, assentar as bases da conclusão, desenvolver melhor personagens que brilharão no terceiro volume e, eventualmente, matar queridinhos dos fãs. No entanto, apesar do Sanderson fazer realmente tudo isso, ele apresenta (ao menos nas duas obras que eu li) aventuras bem fechadinhas, com arcos próprios, que não deixa a impressão de serem os volumes 2 e 3, na verdade, um único livro cortado no meio. O Poço da Ascensão tem personagens próprios e dilemas próprios, e é deliciosamente agoniante. A evolução de Vin, de Straff Venture e de OreSeur é enorme, mas quem brilha mesmo são os ótimos Elend e Sazed. Mal posso esperar pelo terceiro livro dessa "primeira era" de Mistborn, intitulada O Herói das Eras :D



Até o dia em que o cão morreu é o primeiro romance que leio do Daniel Galera, e me surpreendeu positivamente. Por coisas que li sobre o autor em alguns cantos da internet, imaginei que ele fosse daqueles autores "cabeçudos", que privilegiam a forma acima do conteúdo, com longas digressões e fluxos de consciência, parágrafos longos e pontuação incomum — ou seja, tudo o que eu não costumo curtir muito. No entanto, Galera apresenta justamente o oposto disso: texto simples, frases bem construídas, trama que faz sentido (hehe) e interessante... A única pena é que é um livro curto — mas, talvez, exatamente por causa disso, é redondinho e muito agradável. Agora, sim, estou animado e confiante para partir para o seu famosíssimo Barba ensopada de sangue.


* * *

COLETÂNEAS:


Para conhecer o James Joyce, antes de me arriscar no Ulysses, resolvi me aventurar pelos contos de Dublinenses. Realmente percebe-se que o experimentalismo ficou todo por lá. Os contos dessa coletânea são contidos, cotidianos, simples até. Apresentam facetas da vida na capital irlandesa no início do século XX, em cenas que privilegiam o que escapa aos olhos de uma visão desatenta. Que os leitores não esperem tramas rocambolescas e plot twists aqui; o que vão encontrar são detalhes íntimos dos personagens, relações interpessoais, dramas privados e recortes do dia a dia. É o meu tipo preferido de leitura? Não. Mas não nego que ler Dublinenses me fez repensar um tanto o modo como eu vejo a literatura — e, principalmente, o que é um conto. Ah, recomendo fortemente o último conto; é, disparado, o melhor.



Fico muito chateado quando me decepciono com algo que, ao meu ver, prometia tanto. Space Opera: Odisseias fantásticas além da fronteira final, organizado por Hugo Vera & Larissa Caruso foi assim: uma decepção. Não tinha como dar errado; adoro contos e adoro space opera, esse divertido sub-gênero da ficção científica. No entanto... honestamente, não encontrei nessa coletânea um único conto que merecesse mais de 3 estrelas. Aliás, deve ter um ou dois que eu cheguei a ter vontade de ler inteiro. Não há nenhum mal-escrito; contudo, todos apresentam tramas batidas, personagens e ambientações repetitivas (para não dizer quase idênticas), e praticamente nada de realmente novo ou inesperado. Não sei se sou eu quem esperava demais, mas não creio que possa ser culpado por não gostar de nada dali. Aliás, "nada" não — a capa é bem bonita.

* * *

CONTO:



Feliz natal é um conto interessante da escritora Patrícia Melo. Foi publicado na Amazon gratuitamente para chamar atenção para o volume completo da coletânea de contos da autora, intitulado Escrevendo no escuro. Na trama, temos uma faxineira limpando um laboratório de um cientista, que trabalha com cobaias, e os desdobramentos das relações rotineiras entre todos esses elementos. Tem um final com uma revelação incômoda, mas honestamente acho que podia ter mais... emoção? no desenvolvimento. Por ser bem curto, vale a leitura.

terça-feira, 22 de maio de 2018

Há um tubarão na piscina, de José Figueiredo




Há um tubarão na piscina é o romance de estreia do José Figueiredo, também conhecido como Jefferson Figueiredo, membro do podcast 30:MIN… e é um romance estranho. Não que isso seja uma crítica; acho que ele tinha toda a intenção de ser. Ele não tem a ambição de explicar tudo, nem de fazer o leitor se sentir confortável na leitura, nem em esclarecer detalhes dos personagens e eventos misteriosos e/ou sobrenaturais. Porque cabe uma explicação: esse livro é uma obra, pode–se dizer, de realismo mágico, e me lembrou muito das histórias de José J. Veiga (e, agora percebo, até mesmo na escrita). Mas vamos à trama.

Três amigos — Ângelo, Cândido e Regina — decidem viajar para Porto Alegre para encontrarem um rock star desaparecido, o tal do John Smith. A metódica Regina programa todo o plano de ação, mas é claro que as coisas saem totalmente do controle. Sim, tem um quê (um quêzão, um quêzíssimo) de Bolaño aqui, mesmo porque as referências não estão nem um pouco escondidas. (Aliás, cabe aqui um tópico: esse livro é um mosaico de referências, de filmes de faroeste a Murakami, e confesso que não devo ter pegado a maioria delas.) Outra coisa que eu confesso é que passei a gostar mesmo do livro a partir da inserção dos dois elementos fantásticos principais — uma personagem que é quase uma deusa (ou é uma deusa, sei lá) e um personagem que acorda de sonhos intranquilos metamorfoseado em… melhor ler para saber.

Não é o melhor livro do ano, mas tem seus encantos. Peca, contudo, em dois pontos: a capa, que não gostei e que parece rótulo de Tubaína, e do serviço de revisão da editora que beira o amador, com o tanto de erros que deixou passar. No entanto, isso não desabona a história, ainda que incomode.

Quem gosta de realismo mágico deve ler o Há um tubarão na piscina — e ler todas as notas de rodapé, porque são uma divertida atração a mais.


sexta-feira, 16 de março de 2018

Um trecho marcante de Eça de Queirós


“E deleitava–se nas recordações do colégio! Que bom tempo! 
— Lembras–te quando estivemos de mal? 
Luísa não se lembrava… 
— Por tu teres dado um beijo na Teresa, que era o meu sentimento — disse Leopoldina. 
Puseram–se a falar dos sentimentos. Leopoldina tivera quatro; a mais bonita era a Joaninha, a Freitas. Que olhos! E que benfeita! Tinha–lhe feito a corte um mês!… 
— Tolices! — disse Luísa corando um pouco. 
— Tolices! Por quê? 
Ai! era sempre com saudade que falava dos sentimentos. Tinham sido as primeiras sensações, as mais intensas. Que agonia de ciúmes! Que delírio de reconciliações! E os beijos furtados! E os olhares! E os bilhetinhos, e todas as palpitações do coração, as primeiras da vida! 
— Nunca — exclamou — nunca, depois de mulher, senti por um homem o que senti pela Joaninha!… Pois pode crer…”

Eça de Queirós – O primo Basílio (1878!)

sexta-feira, 2 de março de 2018

Primeiros contos da “Some of the best from tor.com 2016 edition”


Comecei há algum tempo a ler os contos da antologia de contos de 2016 lançados separadamente pela tor.com, mas como leio devagar as antologias e coletâneas — gosto de digerir os contos antes de partir para o próximo —, vou falar aqui dos primeiros da coletânea.

Mas, antes, uma constatação: eu ADORO essas capas dos contos da Tor :D


Começamos pelo conto Clover, da Charlie Jane Anders. Esse conto é muito interessante: conta a história do casal Anwar e Joe através dos olhos de Berkley, um gato que é dado aos dois um dia depois de se casarem, com a promessa de que teriam nove anos de sorte desde então. Após esse período, Berkley vê o casamento dos donos entrar em colapso e, para piorar tudo, a chamada de uma nova moradora, a gatinha do título, Clover, para disputar o seu espaço. No entanto, Clover alega já ter sido uma humana. É um conto muito bem escrito — para os padrões de quem está começando a ler em inglês e pode avaliar pouco isso — e muito bem ritmado em sua trama.

* * *


The art of space travel, da Nina Allan: Um conto mais longo e excelente. Narra, em primeira pessoa, a história de Emily. Ela trabalha em um hotel que está para receber, como hóspedes, dois astronautas que estão indo para Marte, em uma viagem só de ida. É a segunda tentativa de fazer isso, porque a nave espacial da primeira sofreu um acidente e não chegou ao destino. Além disso, a mãe de Emily sofre de Alzheimer, e guarda o mistério de quem é o seu pai — e tudo está interligado, de uma forma ou de outra.

* * * 


The destroyer, da Tara Isabella Burton: Aqui conhecemos a história de uma menina nascida por geração espontânea através das artes de uma cientista meio maga, que passa a trabalhar para o César de uma Roma retrofuturista (pelo que entendi, hehe). Essa cientista transforma a filha, clone dela mesma, cada vez mais em uma androide, substituindo aos poucos suas partes orgânicas, e, refletindo o modo como trata a filha — nada nunca está bom o suficiente — ela passa a ambicionar cada vez mais com suas invenções, ao ponto de mudar o mundo. Pelo jeito essa coletânea só vai ter contos ótimos.

* * *


Traumphysik, da Monica Byrne: A personagem principal é uma cientista militar que é mandada para um atol, durante a Segunda Guerra Mundial. Lá, ela começa a desenvolver um estudo das leis da física dentro do mundo dos sonhos — por isso traumphysik, em alemão (o marido dela é alemão) ou dream physics: física dos sonhos. É um conto maluco, como deve ser para falar de sonhos, e o final é inesperado. Muito bom também.

* * *


The high lonesome frontier, da Rebecca Campbell: Para onde a água corre? Esse é o título da, digamos, música–tema do conto, inspirada por descobertas da ciência, e esse conto é a história de sua composição, perdida no tempo, passando por todas as suas regravações e as impressões e/ou modificações que a música trouxe aos ouvintes ao longo do tempo, de 1902 até 2068. É uma narrativa fragmentada e muito interessante. Embora não seja unanimidade entre os leitores, eu curti bastante esse conto.

* * *


Lullaby for a lost world, da Aliette de Bodard: Esse foi o conto que eu menos gostei até agora. Escrito em segunda pessoa, ele mostra a história de uma menina que foi morta por um feiticeiro, dono de uma mansão, e enterrada nos fundos da propriedade. Isso parece fazer parte do ritual que lhe traz seus poderes, inclusive, e a menina não é sua única vítima. Apesar de não ser um conto ruim, de forma alguma, seu azar é vir após os anteriores; é muito simples se comparado a eles.

* * *

Bom, é isso aí — esse foi o primeiro dos posts falando dos contos dessa antologia. Se você consegue ler em inglês, recomendo que compre esse e–book, especialmente porque ele está de graça na Amazon. A editora Tor faz a antologia dos contos publicados desde 2013, e esse ano, 2016, é o único que não está sendo cobrado, então aproveite enquanto pode.

quinta-feira, 1 de março de 2018

Leituras de Fevereiro


Esse mês foi um mês prolífico, haha! É que eu estava de férias, e como não viajei, aproveitei para ler o máximo que podia :) — e, na verdade, tem bastante coisa porque li alguns contos soltos também, e, como não falo deles nas retrospectivas anuais, vou aproveitar para divulgá–los por aqui.


Vamos às leituras do mês, então.


LIVROS:


E, finalmente, li esse clássico! Do autor, já tinha lido A revolução dos bichos, então sabia da qualidade da prosa do autor, mas, por qualquer motivo, estava postergando a leitura desse 1984. Honestamente, eu não sei o que esperava desse romance, mas acho que não esperava algo tão atual assim… Pode ser que em outros países o livro funcione mais como um aviso, mas, aqui no Brasil, é como se fosse uma mera extrapolação do que já está acontecendo… O emburrecimento das massas para a tomada do controle… A vigilância quanto às práticas — se não por parte do governo, por parte de seus “minions”… A instauração de um grande líder como salvador do povo… A lavagem cerebral como medida mais eficiente para que não se questione o sistema, e sim o veja como a única solução possível. Acabou sendo um livro que me deixou mais triste do que eu esperava. Uma coisa que eu não esperava era que houvesse romance no livro, e ele foi tão bem conduzido e realista que acaba me fazendo admirar ainda mais o Orwell enquanto escritor do que antes. A capa dessa edição é meio estranha, mas sei que isso é uma opinião que envolve gosto — logo, subjetiva.

* * *


Primeiramente, preciso falar: que capa LINDA esse livro tem! Sério, demais mesmo! E sabem o que é melhor? A qualidade dos três contos que o compõem acompanha a qualidade da capa :D

O desejo de ser como um rio, que dá título ao livro, é um conto profundo e melancólico, e descobrir o que significa o título é um deleite a mais. A escrita da autora é muito precisa, e passa muito bem tanto as cenas quanto os sentimentos que quer causar no leitor. Foi um conto que mexeu muito comigo, justamente por causa do tema — a morte. Quem me conhece sabe que a finitude da vida é um tema que me incomoda muito. O segundo conto, Amigas infláveis, é muito divertido, e com um toque de ironia que é delicioso. Mais uma vez, a escrita é precisa e gostosa, e as situações apresentadas na trama seriam “apenas” muito divertidas, se não trouxessem uma reflexão tocante sobre o envelhecimento e a solidão. Agora, no último, A mulher na bacia de água e sal, eu confesso que fiquei perdido. A mensagem do conto não é difícil de ser apreendida, mas acho que precisa de mais uma leitura para sua “trama” ser apreendida melhor…

De qualquer forma, ficou muito forte a vontade de ler o livro de novo para absorver melhor os detalhes dos três contos, porque mesmo no mais simples deles, as “pequenas coisas” são inúmeras. A escrita da Claudia Dugim me parece tão rica que, quanto mais for relida, mais forte fica.

* * *


Confesso que já fazia um bom tempo que um livro de ficção científica não me deixava “boiando” na explicação da ciência nele usada — ou seja: já fazia um bom tempo que eu não lia um livro de FC realmente inovador, então. Não que o tema desse aqui o seja: é um tema repetido à exaustão (e quais não são?). O que é diferente é todo o resto — a ambientação; o modo como o “problema” é apresentado; a imaginação em relação às… inovações biológicas, vamos dizer assim, relacionadas ao problema dos três corpos; a tecnologia usada pelo “vilão”… São bastantes coisas que me surpreenderam positivamente nesse livro, e só não posso dar mais detalhes para não revelar os segredos da trama — e descobri–los é um dos maiores atrativos da leitura desse romance do chinês Cixin Liu. Que bom que as editoras estão traduzindo mais obras de FC contemporâneas, e espero que isso não pare nunca mais. (E também espero que a editora publique a última das duas continuações, que o autor menciona no posfácio — a primeira delas já foi publicada, chamada A floresta sombria —, porque a história já me conquistou.)

* * *


Autoridade é o segundo livro da trilogia Comando Sul e continuação direta de Aniquilação, do autor Jeff VanderMeer. O primeiro livro, como vocês podem ver aqui, foi escolhido como o melhor livro internacional que li em 2016. Autoridade, no entanto, muda bastante o foco da narrativa. Se em Aniquilação o foco é na 12.ª expedição à Área X, aqui acompanhamos o personagem de codinome “Controle”, o novo diretor do Comando Sul — a agência paragovernamental que tenta entender a Área X. O problema é que ele meio que “cai de paraquedas” na história toda, e, além de ter que desvendar o mistério da área anômala, tem que prosseguir com a investigação iniciada pela antiga diretora — não vou dizer o porquê para não dar spoiler —, conhecer os funcionários do Comando Sul, interrogar uma das sobreviventes da 12.ª expedição… e reportar suas atividades e o que descobriu — o que, praticamente, nem ele consegue resumir.

É um livro bem mais lento do que o anterior, mas o desenvolvimento da trama é essencial para absorver o nível de terror dos momentos finais do romance. Absorver, não entender — porque o terror em Autoridade acontece num nível tão absoluto que deixa a conclusão da história tão difícil de especular que, para mim, literalmente qualquer coisa será possível a partir de agora. É com o nível de expectativa no máximo que vou iniciar a leitura de Aceitação, o terceiro volume — e vou fazer isso imediatamente, aproveitando que tenho os três lindos volumes físicos que compõem a história.

* * *


A máquina de contar histórias é a primeira coisa que li do autor Maurício Gomyde. Provavelmente não vou ler nada mais. Não que o livro seja ruim: é bom. É só que não é para mim. Claro que chorei no final, porque sou uma moleza de uma manteiga derretida, mas achei a história clichêzenta até falar chegar, a escrita brega, o personagem principal que parece o tiozão do pavê (o que não quer dizer que ele seja mal construído, ou qualquer das outras personagens), a história cheia de lições de moral… Enfim, não é mesmo para mim.

* * *


E esses dois e–books estão juntos porque foram os abandonos do mês — e, ambos, embora de gêneros diferentes, pelo mesmo motivo: por causa dos clichês. Até alguém se machucar é uma novela de romance erótico, e com ela aconteceu a mesma coisa de todas as vezes em que eu tentei dar uma chance para esse gênero: tudo é pretexto para as pessoas transarem. Olharam um pro outro? Sexo. Trombaram na rua? Sexo. Duelaram até a morte num pântano mortal? Sexo. Ainda se tivesse trama… Agora a outra novela, Os cavaleiros do inverno, até que estava indo bem: a autora escreve bem (as duas escrevem), a história parecia promissora, começando com um mistério… mas, quando vi que a protagonista relutante adolescente ia descobrir ser, na verdade, uma bruxa herdeira de um trono em um reino mágico, cuja verdade lhe fora ocultada possivelmente para que fosse protegida… ah, já deu pra entender, né? Desculpem, mas ambas as histórias não são pra mim.

* * *

CONTOS:





Banquete para fantasmas, do M. M. Schweitzer: Já tinha esse e–book há um tempo no meu Kindle, ainda na época que eu tinha só o aplicativo, e, apesar de ter achado a premissa interessante, não tinha me animado a ler ainda. Acontece que, lida, a história — e o mundo onde ela se passa — é muito mais interessante do que parecia! No mundo criado — Morserus — não existem humanos; os animais é que são antropomorfizados. Eles tem uma civilização essencialmente semelhante à nossa, mas a magia tem espaço nela. Nessa história, um (ao que parece) investigador sobrenatural é convocado para resolver o mistério de uma ricaça, onde fantasmas se reúnem à noite para banquetearem na sala de refeições. O que eu mais gostei, contudo, foi o clima sério, decadentista — poderia dizer noir — do conto, e, ainda que o e–book apresente erros de revisão, o tom do mundo me motivou a procurar mais histórias nele passadas. A parte boa é que todos os contos estão de graça na Amazon. O próximo que vou ler chama–se O mercador de sonhos.

La gran nevada, do Holden Centeno: Esse conto (em espanhol) sobre o Natal me agradou bastante. O protagonista conta uma história de um Natal ocorrido há muitos anos, no ano da tal grande nevasca. É um conto intimista, bastante emocional e bem escrito o suficiente para que nos importemos com os personagens. Na trama, o protagonista vai passar o feriado com os tios, em sua cabana afastada, e descobre o porquê de ela ser toda cercada por salgueiros–chorões — a árvore que está na capa, que, aliás, representa muito bem os elementos da história criada pelo autor. Essas árvores, com o desenrolar da trama, levam a um desfecho emocionalmente devastador, muito tocante mesmo, daqueles que dão um nó na garganta, mas eu não posso revelar mais do que isso sem estragar a experiência de quem vai ler. (E, se você souber só um pouquinho de espanhol, acho que já dá pra ler de boa; se agarra nas semelhanças com o português, pega o sentido geral da frase e toca pra frente :P) Quando eu o comprei na Amazon estava de graça; se ainda estiver, corre lá que vale muito a pena.

A moldura vazia, do Bruno Martins Soares: é um conto sobre o buraco que a morte de uma pessoa deixa na vida dos que o cercam. É um conto melancólico e por vezes brutal, alegórico mas realista, que evoca aquela sensação que às vezes temos de estarmos vendo nossa vida com um olhar de fora da cena, de parecer que perdemos o controle dos nossos passos… É um conto que retrata bem um sentimento que é familiar a todos que perderam alguém — o de ter um quadro chamativo, que ocupa um grande lugar na parede, mas que não retrata mais nada.

If at first…, do Peter F. Hamilton: uma história muito boa sobre viagem no tempo. Um cara é preso por ter invadido o laboratório de uma empresa de pesquisas de um milionário do ramo — só que as coisas não são tão simples: ele diz estar atrás dos planos de uma máquina do tempo que esse milionário estaria desenvolvendo. A princípio, os policiais que o estão interrogando não acreditam em nada do que ele diz, obviamente, mas ele acaba conseguindo uma única chance de provar que diz a verdade… e é aí que as coisas dão errado. É um conto curto, e vale muito a pena — principalmente porque está de graça na Amazon. Se você consegue ler em inglês, não perca tempo. (O e–book tem também um trecho de um romance do autor, que eu não li.)

Metastasis, do Jacques Barcia: Apesar de ser de um autor brasileiro, é um conto escrito em inglês. É uma história de fantasia, embora não seja — é como se fosse uma metáfora. A trama é simples: uma quimera descobre que tem câncer, e decide percorrer o mundo em busca da cura. No entanto, entre lutas e perdas, ela descobre que o mundo não é um lugar fácil, e que nele você acaba confrontado com verdades difíceis de aceitar. Se você for ler, pode ser que ache o conto confuso no começo, mas prometo que no final as coisas se amarram. Muito bom mesmo; senti um toque de Gaiman na narrativa, e isso só pode ser bom.

* * *

sexta-feira, 16 de fevereiro de 2018

Meu Mapa de Influências comentado


Como uma ideia que surgiu no Facebook — e, logo, que todo mundo repetiu —, eu também não podia ficar de fora: criei meu próprio mapa de influências enquanto escritor.

No entanto, gostaria de comentar mais sobre cada um dos autores mencionados e como eles me influenciaram.


Quando — para quem é escritor — chegamos àquele famoso momento, “quero escrever assim”, é, via de regra, porque nos deparamos com obras que nos tocam profundamente. Podemos dividir, ainda, essas obras em dois grupos: a dos escritores que nos encantam, e a dos mundos que nos encantam. Ou dizemos “quero escrever assim” ou “quero criar um mundo assim”. É, precisamente, nesses dois grupos que estão as quatro pessoas que ocupam os maiores quadros nessa montagem: Neil Gaiman, Stephen King, Hironobu Sakaguchi e J. R. R. Tolkien.

Primeiramente, Neil Gaiman. A obra dele condensa ambos os encantamentos — me encanta enquanto escritor, por dizer tanto com tão pouco, por criar climas e trazer à tona tantos sentimentos com frases simples, fugindo do rebuscamento, precisas e diretas, e ainda assim poéticas; e me encanta enquanto criador de mundos, porque o que ele fez em Deuses americanos, Os filhos de Anansi e O oceano no fim do caminho — suas obras que se passam em seu mundo de deuses — inspiraram boa parte da minha produção. Um conto meu que é totalmente inspirado na obra de Gaiman é o Nil.

Stephen King me ensinou a construir personagens. Pode–se falar o que for de suas obras (o que, na maioria das vezes, eu não concordo), mas não se pode falar que ele não é genial na construção de seus personagens. Com ele, eu percebi que todos os personagens têm uma opinião formada em relação a absolutamente cada aspecto de suas vidas, e isso afeta sua maneira de ser. Que os aspectos da vida de cada um forma o que eles são. Na obra de Stephen King, é facílimo perceber que, se os personagens envolvidos em suas tramas fossem outros, essas mesmas tramas iriam por caminhos muitíssimo diferentes. São os personagens que criam as tramas, e não o oposto. Foi por causa dele que fiz o que fiz em O arquivo dos sonhos perdidos, e que é criticado por algumas pessoas: pus personagens “comuns” numa trama épica, e o modo como eles são — ou não são — altera totalmente o que poderia se esperar da história.

Hironobu Sakaguchi entra no outro campo — o dos construtores de mundos. Para quem não conhece, ele é o criador da série Final fantasy, e essa série é a maior responsável por eu misturar magia e tecnologia em minhas obras — especialmente o que ele fez em seus “episódios” VII e XII. Sakaguchi, ao criar esses mundos, mostrou como magia e tecnologia podiam coexistir e se completar, e isso abriu minha mente para novas possibilidades. Isso, combinado com o que J. R. R. Tolkien fez em O senhor dos anéis, e que dispensa totalmente apresentações e exaltações, me fez perceber que sim, eu podia criar um mundo que juntasse tudo o que eu gosto, desde que, para isso, ele tivesse coerência — o que, no meu modo de ver, foi onde esses dois mestres mais brilharam: dar coerência para mundos totalmente fantásticos. (Nesse aspecto, mas em menor monta, coloco também o Shigeru Miyamoto, e especialmente pelo que ele fez em The legend of Zelda. Boa parte da estrutura de O arquivo é inspirada em Zelda, que me marcou muito graças à maestria de Miyamoto em criar aventuras e sub–aventuras que acabam se ligando em uma trama maior. É uma influência muito mais quanto ao “clima” da aventura, baseada em sensações, do que em elementos de trama em si — mas que não podia ser negligenciada.)

Os outros, com as fotos menores, podem ser divididos entre os que tiveram influência no início da minha escrita — ou para que eu a iniciasse, por assim dizer —, e os que estão me influenciando por agora. Dos primeiros, que me motivaram a escrever e criar histórias, estão Jules Verne e Leonel Caldela. Minha adolescência e início da vida adulta foram lendo as obras de Verne, e, mais uma vez, aquele tom de aventura e descoberta de seus livros me encantavam enormemente, e isso se refletiu n'O arquivo. Já o Caldela foi diretamente responsável por esse livro de fato existir. Através de seu romance O inimigo do mundo eu percebi que, sim, um mundo fantástico poderia ser transformado em uma história “realista” e brutal, e, durante a escrita, eu fraquejei, como o fazem muitos autores iniciantes. No finado Orkut, então, eu perguntei a ele como ele conseguiu realmente levar a cabo aquela tarefa ingrata de escrever um romance longo, e, ao contrário da minha expectativa, ele respondeu — e ainda me deu um puta incentivo para continuar. Imagino que, se ele não o tivesse feito, talvez eu não fosse um escritor hoje em dia…

Os que faltaram são os que estão me influenciando atualmente. De forma parecida com o King, o Ray Bradbury também me influencia a voltar meus olhos durante a escrita para os personagens — e ele, também como Gaiman, me mostra que pode haver poesia no modo de escrever. No entanto, enquanto o Gaiman me pauta a forma de criar fantasia e o King a de criar histórias realistas ou de suspense, o Bradbury é meu maior exemplo no campo da ficção científica. Ele me mostra que esse gênero deve ir muito além dos tecnicismos e focar no que realmente importa: as pessoas. Um conto curto em que eu aplico isso é o A distância e a espera. Já o Douglas Adams foi quem me ensinou a colocar ironia, cinismo e sarcasmo de maneira inteligente em meus textos, e que esse tipo de humor é muito melhor do que a comédia escrachada, que não vai bem na literatura — e que rir de si mesmo é a melhor maneira de rir da humanidade. Além, é claro, de usar o nonsense para compôr o humor causado pelo estranhamento — e que fiz no conto Aquecimento global (Em fogo alto). O Haruki Murakami foi o penúltimo a ter adentrado esse rol de escritores, e é um dos meus preferidos da atualidade. Existem outros preferidos que não entraram na lista de influências, e por quê? Porque Murakami me ensinou algo que nenhum dos outros pôde: a ter calma para contar minhas histórias. A dar atenção a pequenos detalhes do cotidiano, a sentimentos, a impressões, a eventos banais e que acabam influenciando um personagem muito mais do que parece. E, também, além disso, a incluir eventos esdrúxulos em minhas histórias fazendo–os parecer perfeitamente banais e corriqueiros, hehe. Talvez o meu conto que mais reflita isso seja o Into blue. E, por último, o cineasta David Lynch, que merece um parágrafo próprio.

Existem modos e modos de se contar histórias. Existem jornadas do heróis, existem narrativas epistolares, existem outros tipos de storytelling… e existem as colchas de retalhos de Lynch. Assistir a um filme dele não é fácil, mas é recompensador. Bom, talvez não seja recompensador na primeira assistida, haha, mas se você persistir e revê–lo, talvez mais de uma vez, as coisas começam a fazer sentido… ou não! Mas a intenção de Lynch nunca foi a tradicional de passar uma mensagem clara; pelo contrário, ele espera que o expectador construa sua própria versão dos fatos, e entenda a história de sua própria maneira. Tudo bem que eu acho que ele passa um tanto da conta às vezes, hehe, mas o que ele me ensinou é que existem outras maneiras de contar as histórias, e, especialmente, maneiras que exijam atenção, reflexão e o raciocínio daquele que está consumindo sua história! Fiz isso em minha última obra publicada, o conto Sob a sua árvore, e estou fazendo no romance que estou escrevendo, totalmente diferente de qualquer outra coisa que eu já publiquei. Nessas duas obras, se o leitor não prestar atenção e raciocinar sobre o que está lendo, pode ter certeza de que chegará ao final com um gosto estranho na boca. E, arrisco dizer, que esse modo de contar histórias irá pautar boa parte da minha produção de agora em diante…

terça-feira, 6 de fevereiro de 2018

Leituras de Janeiro


Vou tentar fazer uma coisa nova: postagens mensais, falando dos livros que eu li durante o mês. Tenho sentido necessidade de falar de mais livros do que acabo falando nas retrospectivas anuais, tanto bem quanto mal, haha, e então vou ver se isso dá certo :P

Vamos então às minhas leituras de janeiro de 2018!


Bom, do Estação Perdido eu acabei de falar nessa postagem. É, simplesmente, um dos melhores livros de fantasia — ou new weird, como se considera — que li em minha vida. Li em e–book, mas esse eu vou querer ter na estante, ao lado de A cidade & A cidade, também do China Miéville, que eu já tenho. Compensa cada centavo que se pagar nele (sorte que eu paguei menos de R$ 10, numa promoção na Amazon :P)

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Eu estava esperando muito desse A misteriosa morte de Miguela de Alcazar, do Lourenço Cazarré, mas a decepção foi total. Minha expectativa era em parte porque gosto bastante de livros policiais, e em parte por causa do tanto de elogios que li sobre a obra. O que acontece é o seguinte: um jornalista é enviado para um hotel em Brasília para cobrir um evento que reunirá os maiores autores de literatura policial do mundo — só que um deles é assassinado, e cabe ao protagonista ajudar nas investigações. O problema é que o livro é mais um livro de comédia do que policial — e, a meu ver, numa versão pobre do que Jô Soares faz em suas obras. Os autores famosos da trama são versões debochadas de autores reais — como a Águeda Christine, o Georges Sim Et Non e o chinês Foo Lee Shi Man (que trocadilho horrível) —, e a única coisa que me fez rir foi o fato de cada um deles ter aprendido a falar em português, mas cada um com um sotaque diferente — mineirês, nordestino, gauchesco… De resto, as situações e piadas me deram vergonha alheia, e abandonei o livro na metade. Li na versão física, e me arrependo dos R$ 10 que paguei nele. A única coisa legal é a capa, texturizada e criativa.

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O fim do mundo é um conto satírico sobre, bem, o fim do mundo — dessa vez por causa de um cometa. Claro que não é para ser “levado a sério”, mesmo porque ele é mais uma sátira à sociedade da época do que, propriamente, uma história de fantasia ou ficção científica. A graça dele é exatamente usar esse tema, tendo em vista ter sido publicado em 1857. Sim, você leu certo — mil OITOCENTOS e cinquenta e sete. E, se você ainda não reparou, é uma história de Joaquim Manuel de Macedo, aquele mesmo, que escreveu A moreninha. Essa versão que li é em e–book, da editora EX!, e traz uns extras bem legais, além dessa ótima capa. Vale conferir.

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O Haruki Murakami já é um dos meus autores preferidos, e O incolor Tsukuru Tazaki e seus anos de peregrinação só prova que tudo o que ele escreve merece ser lido. Li esse em e–book, mas dá uma vontade imensa (quando eu tiver espaço) de comprar todas essas edições primorosas da editora Alfaguara para tê–las ali, lado a lado, ostentação pura :) Os personagens são cativantes, a trama é boa como qualquer outra do japonês, o ritmo e o clima da narrativa são imersivos e transportam você para o local — mas isso já era totalmente esperado, sendo uma obra do mestre Murakami. Vai ser difícil, após ler todas as obras dele, montar um top 5… A capa, apesar de simples, representa bem a história, apesar de isso não ser nada claro antes de o livro ser lido :)

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E, por fim, a edição 16 da revista Trasgo, editada e organizada e encabeçada pelo Rodrigo van Kampen. Dessa vez, eu destaco os contos O estranho caso dos professores que assobiavam, do Leonardo Maran Neiva, o Revoluções, da Vimala Ananda Jay (que eu conheci pessoalmente, junto ao Rodrigo, no lançamento do livro Trasgo: Ano 1), e o Mylène, da Anna Fagundes Martino (A forma da água, é você…? Olha o Del Toro se inspirando na Anna; melhor checar isso aí :P) Os outros contos, a meu ver, não trouxeram nada de novo, sendo até meio chatinhos. A capa é linda, do sempre ótimo ilustrador Jean Milezzi, mas, quanto aos 3 outros contos não mencionados, acho difícil — ou fico preocupado em — imaginar que tenham sido os melhores dentre as dezenas de contos que os editores recebem a cada edição…

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Enfim; é isso aí — essas são as minhas leituras do mês de Janeiro. Espero conseguir fazer mensalmente esses posts, porque realmente é muito bom falar algo, mesmo que pouco, de cada um dos livros que li :)

domingo, 4 de fevereiro de 2018

Estação Perdido, de China Miéville


Já acho complicado falar sobre coisas de modo não–ficcional; sempre acho que deixo passar coisas importantes em detrimento de aspectos menos relevantes, mas que me chamaram a atenção… Como falar sobre, então, um livro que já — com facilidade — entrou, de cara, no meu Top 10 de livros da vida…? Pois é: Estação Perdido é bom a esse nível.


Estação Perdido me agrada em diversos níveis, a exemplo do que acontece com minhas outras obras preferidas. Vou tomar como exemplo O senhor dos anéis: Ao mesmo tempo em que a escrita contemplativa e épica de Tolkien me acalma, gosto da construção (simples) dos personagens; do cenário, rico e com tons de sonho; da amizade construída entre eles; da grandiosidade da história e ao mesmo tempo da pequenez do personagem principal e da mensagem que isso passa ao final. Outro exemplo: Deuses americanos. Gosto do mundo; gosto do personagem principal, ainda que o critiquem, mas gosto justamente por sua passividade — por sua “deboice", tão semelhante à minha —; gosto da estrutura de “road movie”; gosto dos contos intercalados; gosto da pausa no meio, para apresentar a vida e o mistério daquela cidadezinha pacata… Assim como em A estrada: Gosto da escrita do Cormac McCarthy; gosto dos personagens; gosto do mundo, cru, seco, cruel… E aqui, nessa história de China Miéville, gosto do mundo, dos personagens, da trama, das surpresas, da mescla de gêneros literários… Resumidamente: gosto de tudo.

Começando pelos personagens: são ricos em construção de personalidade como em poucas obras por aí. Todos seguem a lógica real da humanidade (mesmo que não sejam humanos na acepção estrita da palavra): têm vontades e seus esforços são em prol de realizá–las. O protagonista, Isaac Dan der Grimnebulin, é um humano de meia–idade, gordo e negro, cientista e que vive à margem do sistema, que vive um romance proibido com uma mulher de outra espécie, Lin, uma khepri — praticamente uma humana com cabeça de besouro —, que é uma artista excluída de seus iguais. Por aí já podemos ver que não acompanharemos heróis, reis ou nobres, como seria esperado em uma história “padrão” de fantasia.

Aliás, deslocado é uma boa palavra para falar dos personagens de Estação Perdido. Todos os são, em diversos níveis. Além da dupla principal, temos o garuda Yagharek, que foi condenado pelos seus e fugiu, procurando Isaac para ajudá–lo a reverter os danos dessa condenação; e ainda Derkhan, uma amiga humana deles, que participa de um grupo revolucionário contra o governo. Até mesmo os antagonistas da trama — o monstruoso “contratante” de Lin e as cinco mariposas — são deslocados e sozinhos, procurando seu lugar no mundo. Essa parece ser a tônica da cidade de Nova Crobuzon, onde se passa a trama — um aglomerado de pessoas deslocadas, sozinhas, literalmente perdidas em uma rotina sem sentido.

A trama é outro aspecto que vai por caminhos inesperados. Apesar de começarmos acreditando que é no trato de Isaac e Yagharek que o livro vai prosseguir, é no desdobramento inesperado que isso ocasiona que o livro realmente tem seu prosseguimento — e acreditem em mim: não “sobra” nada em suas 608 páginas; tudo ali está bem colocado, tem sua função narrativa ou para dar mais verossimilhança ao mundo de Bas–Lag. Claro que algumas pessoas irão encontrar — imagino — “excesso de informação”, mas não foi o meu caso. Tudo o que me foi ali descrito por Miéville foi delicioso de ler — e, coisa que pouco me acontece hoje em dia, deixa, até agora, mais de um mês depois da leitura, uma espécie de saudade ou vontade de retornar àquele universo. É por isso que pus o Estação Perdido no meu “top da vida”: ele deixou marcas, em meio a tantas obras mais ou menos semelhantes que existem por aí e que são lidas e esquecidas logo em seguida.

Que venham logo para o Brasil as outras obras que se passam no mesmo mundo de Bas–Lag, chamadas The scar e The iron council, ainda sem tradução mas já confirmadas pela editora Boitempo.

E que venham também todas as outras obras do autor!

Nova Crobuzon, na visão do artista Thomas Chamberlain
Homens–cactos, outra raça das várias de Nova Crobuzon, pelo artista JP Cokes
Yagharek e Lin (não encontrei o nome do artista)
Isaac Dan der Grimnebulin, pelo artista Lipatov
E, por fim, esse incrível figurino de Isaac e Lin — ao que me parece, de um trabalho de conclusão de curso para uma escola de teatro, executado pela artista Anastasia Prokonova

Meu plano sombrio


Quem leu O arquivo dos sonhos perdidos pode ter percebido que, em certo momento, o grupo dos protagonistas se separa… e não vemos o que acontece com os que permaneceram no grupo principal, na Itália.

E é justamente o que acontece nesse momento que é relatado no conto My shadow plan, publicado pela editora Draco ainda antes da publicação do romance.


My shadow plan é um conto de fantasia urbana, mas também é um conto de investigação. Na cidade amaldiçoada de Agliana, onde não para de chover há muito tempo, a filha do Regente está desaparecida, e há indícios que um membro da Câmara esteja envolvido. Como não puderam passar direto pela cidade, cujas estradas estavam interditadas por uma espécie de “ninguém entra ninguém sai" decretado pelo Regente, desesperado, os membros do grupo — os protagonistas de O arquivo dos sonhos perdidos — fazem um trato com o militar responsável pela segurança da cidade: ajudar, como puderem, na solução do mistério, e, após isso, serem liberados para prosseguir com a viagem.

Obviamente, as coisas não se resolvem tão facilmente; o clima na cidade é denso, pesado — e não estou me referindo somente às condições climáticas... ainda que seja de se esperar que, numa cidade em que não se vê o Sol, as emoções se concentrem na porção negativa do espectro. Além disso, o protagonismo dessa vez não é centrado em Jess Laguna, o “ponto de vista central" de OAdSP; acompanhamos a narrativa da investigação mais sob os olhos e ações de Roy MacNamara, o enorme maori, e seu novo aliado, o decurião Maurillion.

Mas, Rahmati, eu preciso ter lido O arquivo dos sonhos perdidos para ler My shadow plan? Não :D

Aliás, esse conto é uma excelente porta de entrada para o mundo de Acqua, que é onde se passam ambas as aventuras, e serve como uma boa avaliação, tanto do meu estilo de escrita quanto do universo da trama — e por uma fração do preço e do tempo de leitura que você gastaria no romance :)


terça-feira, 30 de janeiro de 2018

Um trecho marcante de George Orwell


“O Partido dizia que a Oceânia jamais fora aliada da Eurásia. Ele, Winston Smith, sabia que a Oceânia fora aliada da Eurásia não mais de quatro anos antes. Mas em que local existia esse conhecimento? Apenas em sua própria consciência que, de todo modo, em breve seria aniquilada. E se todos os outros aceitassem a mentira imposta pelo Partido — se todos os registros contassem a mesma história —, a mentira tornava–se história e virava verdade. “Quem controla o passado controla o futuro; quem controla o presente controla o passado", rezava o lema do Partido. E com tudo isso o passado, mesmo com sua natureza alterável, jamais fora alterado. Tudo o que fosse verdade agora fora verdade desde sempre, a vida toda. Muito simples. O indivíduo só precisava obter uma série interminável de vitórias sobre a própria memória. “Controle da realidade", era a designação adotada. Em Novafala: “duplipensamento"."

George Orwell – 1984


segunda-feira, 15 de janeiro de 2018

Realidades Cabulosas: Ano 1


Que alegria ver a primeira coletânea que editei — com o meu amigo Lucas — virar realidade, após um ano de preparação e de cuidados...! Quando fui convidado pelo pessoal do Leitor Cabuloso via Lucas para ajudar com os contos, e dei a ideia de que aquelas histórias pudessem integrar uma coletânea, até, sinceramente, achei que a coisa não fosse virar. Que algo fosse, no meio do caminho, empacar. Já comecei muitos projetos legais que, por dependerem de outras pessoas, acabaram parando; no entanto, é muito bom ver esse dar certo em tantos níveis que é até difícil pôr em palavras o quanto ele me alegra.


Primeiro ponto que me traz satisfação: eu sinto que realmente estou fazendo algo pela literatura nacional. Revisando, ajudando a publicar contos com mais cuidado do que geralmente se vê por aí. Descobrindo bons autores e/ou boas histórias… Ajudando a abrir um espaço para os novos autores serem publicados, através da ajuda de um site maior, mais conhecido, de uma forma melhor do que eu poderia fazer sozinho.

Segundo: estou valorizando os contos — formato que eu amo. Histórias marcantes contadas de uma vez; porradas na cara; as melhores deixando um resíduo que dura, na mente e no coração. Entendo que certas histórias precisam de tempo para serem desenvolvidas, por isso precisam de mais palavras, mas com os contos pode-se realizar coisas novas, diferentes, mais malucas, mais rápidas, ou menos tradicionais, ou… bem, vocês entenderam.

Terceiro: O pontapé inicial no selo Cabuloso Livros, que, espero, vá ajudar a valorizar ainda mais a literatura nacional — com um destaque todo especial para o formato de histórias curtas.

Quarta alegria: Ter contado com a participação de dois autores convidados fantásticos, a Priscilla Matsumoto, autora do excelente Ball jointed Alice, e o Fábio Fernandes, grande autor de FC e de 3 livros que eu li só no ano passado — a nova versão de Os dias da peste, o ótimo livro de contos Interface com o vampiro, e o necessário De A a Z: Dicas para escritores. Além disso, ter tido escritores já de nome, como o J. M. Beraldo e o português Bruno Martins Soares, enviando contos para o site e consequentemente participando da coletânea.

Dentre outras alegrias, menores e inúmeras, ao longo do ano… Algumas decepções também ocorreram — como a de um autor que não autorizou que o conto entrasse na coletânea, e a capista que pulou fora aos 45 do segundo tempo —, mas o saldo com certeza foi muito mais que positivo!

Introdução (longa…) feita, vamos falar sobre cada um dos contos!


1. Memento mori com Fernet, de Michel Peres

Uma das melhores surpresas de contos recebidos, e possivelmente o melhor conto de ficção científica que li em 2017. Conta a história de Mariana, uma especialista em “cultivar tecidos" — uma tecnologia nova —, e de quando ela conhece Charlotte, uma artista vinda de outro país para mexer com sua vida. Além da escrita ótima, fluida, sem firulas ou vontade de se mostrar por parte do autor, a trama é inovadora, segue caminhos inesperados e apresenta um futuro criativo e visionário. Destaque também para o divertido androide André, o Andréoide.

2. Onironauta, de J. M. Beraldo

Um conto de fantasia do premiado autor de Império de Diamante e sua continuação, Último Refúgio, que saíram pela editora Draco e, no caso do primeiro, ganhou o prêmio Argos. Esse conto se passa no mesmo universo de ambos os romances, e apresenta a personagem Vema, uma onironauta — alguém que viaja pelos sonhos — que tem um trabalho a fazer. Ótimo conto, curto e direto. Deixou a vontade de entrar em seu universo dos Reinos Eternos (e o farei em breve).

3. Eva & Morte, de Joe de Lima

Esse conto de fantasia apresenta uma trama que leva a um plot twist ótimo, e falamos disso — eu, o Lucas e o Matheus Salfir — em um episódio do podcast SobrEscrever. Tem um ritmo bom, foge dos clichês do personagem Morte e, o que percebo só agora, podem rir, é que é o terceiro seguido com uma protagonista do sexo feminino seguido. (O próximo também, haha, que editor de merda eu sou :P)

4. Ziggy Stardust, de Magdiel Araújo

Pensem num conto divertido! Aqui, somos apresentados à “zumbí" Ziggy Stardust, a primeira (de acordo com o seu conhecimento) a ter consciência, saber falar, ler e escrever! E é isso o que ela faz: escreve um diário contando suas desventuras e descobertas. Excelente conto! Vão ler!

5. Defenestrada, de Sonia R. R. Rodrigues

O primeiro conto policial da coletânea. E um dos maiores, justificadamente, para desenvolver a trama. Contudo, não é maçante em momento nenhum, e o ritmo da investigação e das descobertas por parte do detetive Bernardo é muito bem montado, resultando assim num conto inteligente e bastante atual.

6. Nas nuvens, de Fábio Fernandes

Eis o primeiro conto de autor convidado — uma FC também atualíssima, que trata do extremismo conservador para o qual nosso país parece estar se encaminhando. Um bom conto, que usa um elemento que adoro: referências musicais. Aconselho, inclusive, a buscarem as músicas apresentadas no conto, porque valem a pena.

7. Houston, de Bruno Martins Soares

Outro conto divertido e de FC. Não há, nele, uma trama propriamente dita, mas uma extrapolação surrealista sobre um incidente matematicamente possível (ou impossível?). Também há referências para quem as souber encontrar. A escrita do autor é ótima, como se pode também conferir em seus contos na Amazon, em e–book.

8. Ninho do Corvo, de Luis Henrique da Cunha

Um conto de ficção histórica, que pode ser de fantasia ou não, dependendo da interpretação do leitor. O final desse também é interessantíssimo, e o que parece clichê com certeza não é. Muito bem executado.

9. Pat Coelha contra o Porco, de Evelyn E. Postali

Um conto de fantasia divertidíssimo! Eu, ao menos, achei. Apresenta um mundo interessantíssimo, cheio de vida, com background, personagens interessantes, num espaço de tempo curtíssimo, ágil e com personalidade. Ótimo conto.

10. Os presbíteros de São Luís e o santo suicida, de Luís H. Beber

Esse é um conto nonsense, que sei que dividirá opiniões, mas eu, particularmente, considero–o um dos melhores da coletânea. Cheio de referências, de becos sem saída, de informações aleatórias, e ainda assim que constrói trama, dá passado aos personagens, tem humor refinado, críticas ácidas e confunde explicando. Tão bom quanto lê–lo é relê–lo.

11. Cor viva, de Adriana Rodrigues

Outro conto de literatura realista, mas dessa vez mais intimista. Apresenta uma personagem que tem que achar um sentido em continuar após a perda de alguém importante. Muito bem escrito, com um tom até opressor. Bem bom e bem forte.

12. Filosofia trágica, de Matheus Salfir

Mais um conto policial, mas dessa vez constituído inteiramente por diálogos. Quando recebemos o conto, demos uma ideia ao autor: já que não há nenhum tipo de narração ou mesmo verbo dicendi, por que não remover as pontuações de diálogo...? Ele removeu, gostou e assim ficou. Além disso, traz interessantes reflexões filosóficas, e um personagem em alta nos dias de hoje: aquele que se aproveita da credulidade dos outros.

13. A filha do Sol e da Lua, de João Paulo Effting

Um conto interessante de fantasia, de temática indígena, de certa forma até pouco comum na produção nacional, mas que tem tido mais representação ultimamente. Mostra a história da personagem Inca–Mair, desde criança diferente dentre os da sua tribo.

14. A verdade é apenas uma, de Priscilla Matsumoto

Este é um conto curioso. Intimista, e digo que é curioso porque me parece que pode encarado tanto como ficção realista quanto ficção científica, com realidades alternativas que podem ser físicas ou simplesmente sonhadas, imaginadas, esperadas. Um conto muito bom, mas que, a meu ver, exige mais de uma leitura para ser absorvido em totalidade (e não que isso seja ruim, claro).

15. Um café e o fim do mundo, por favor, de Rafael Peregrino

Um conto de terror, o primeiro a dar as caras na coletânea, mas um terror psicológico, de inspiração lovecraftiana e meio nojento, haha — mas ainda assim muito divertido. Na verdade, o título é o desejo antigo de muita gente :P Além disso, o conto tem um ritmo muito gostoso de ler.

16. Quantos, de Daniel dos Santos Soares

Outro conto realista e intimista. Confesso de me fez lacrimejar, haha. Muito bonito, e tem uma estrutura muito interessante, intercalando pontos de vista de forma ágil até que tudo faz sentido e se junta no final. Hoje, relendo, eu não me emociono tanto, mas talvez no dia da primeira leitura eu estivesse no mood certo para ser tão atingido.

17. Saco de vermes, de Priscilla Rúbia

O segundo conto de terror da coletânea, e que traz de volta uma lenda urbana bem brasileira, e que, ao meu ver, estava meio esquecido dentre todas as figuras do nosso rico folclore, seja urbano ou rural. Traz uma sociedade distópica — mas não impossível em seu aspecto político, dado o rumo das coisas —, e um casal terrível, daqueles que, como se diz por aqui, é melhor perder do que achar.

18. Um jeito de arrumar as coisas, de Lucas Rafael Ferraz

E finalmente os contos dos organizadores — porque, depois de tanto trampo, nós merecemos, né? O conto do Lucas é facilmente encaixável em qualquer temporada de Black mirror, e parece muito próximo de nossa própria realidade. Traz uma reflexão também validíssima em nossa sociedade, a respeito das relações interpessoais e das “bolhas" em que vivemos.

19. Enquanto vagueio pelas cinzas do mundo, de eu mesmo :)

E, para encerrar, o meu conto. É uma ficção fantástica, e me surgiu no formato de um questionamento: e se uma pessoa fosse sumindo aos poucos? Tipo, primeiro perdendo objetos, depois momentos, depois todo o resto...? Então, escolhi a pobre protagonista Nicole para encenar essa tragédia. Ela deve estar por aí, ainda; você é que não lembra dela. Ah, e, como curiosidade, pesquise o título no Google; vale a pena ;)


Enfim; creio que foi um trabalho bem–feito, publicado com honestidade — nenhum valor foi cobrado, de ninguém, e a versão em e–book é de download gratuito, aqui, e a versão física, que pode ser comprada aqui, custou só o que o Clube de Autores cobrou, como pode ser visto nesse print screen da tela de direitos autorais:


O negócio, agora, é começar a trabalhar no Ano 2 das realidades cabulosas, primeiro no Leitor Cabuloso, depois na coletânea, e partir para voos maiores — aguardem mais novidades sobre o Cabuloso Livros, que não perdem por esperar!