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sexta-feira, 11 de julho de 2014

Um trecho marcante de Victor Hugo #4


“O homem é o paciente dos acontecimentos. A vida é um perpétuo sucesso, imposto ao homem. O homem não sabe de que lado virá a brusca descida do acaso. As catástrofes e as felicidades entram e saem como personagens inesperadas. Têm a sua fé, a sua órbita, a sua gravitação fora do homem. A virtude não traz a felicidade, o crime não traz a desgraça; a consciência tem uma lógica, a sorte tem outra; nenhuma coincidência. Nada pode ser previsto. Vivemos de atropelo. A consciência é a linha reta, a vida é o turbilhão. O turbilhão atira à cabeça do homem caos negros e céus azuis. A sorte não tem a arte das transições. Às vezes a vida anda tão depressa que o homem mal distingue o intervalo de uma peripécia a outra e o laço de ontem a hoje.”

quarta-feira, 9 de julho de 2014

Os trabalhadores do mar, de Victor Hugo


Ler Victor Hugo não pode ser considerado um ato de entretenimento, eu acho; é, antes, uma experiência. Para mim, é perfeitamente clara a diferença entre ele, enquanto escritor, e outros autores, enquanto contadores de histórias. É o tipo de escritor que consegue construir uma obra relevante e interessante sobre qualquer coisa, ou sobre o nada. E sim, consegue, no presente, porque é imortal. Ler Victor Hugo é como ouvi-lo nos falar, dissertar sobre a natureza das coisas, e perceber não ter qualquer argumento para rebatê-lo.

Os trabalhadores do mar é aquela que alguns dizem ser sua obra-prima. Outros defendem ser, naturalmente, Os miseráveis, a mais midiática talvez, e outros ainda Nossa Senhora de Paris, mais conhecida como O corcunda de Notre-Dame, mas eu, particularmente, duvido que ele tenha alguma obra menos melhor que a outra. Ainda não li as outras — pecado que pretendo reparar em breve —, mas essa que acabei de ler é, sem dúvida, uma das melhores ficções não fantásticas (no sentido da FC&F) que li em minha vida.

Não bastasse ser um excelente filósofo, por assim dizer; um excelente observador da vida e de igual perícia em descrevê-la com palavras; ele é, ainda, um ótimo narrador da ação, quando ela toma espaço na história. Tem perfeito domínio do que quer causar em seu leitor, seja admiração, espanto, desilusão ou nervosismo — como na cena com a pieuvre; quem leu há de saber. Sem dúvida, era algo que eu não esperava, e causou uma tensão terrível e magistralmente construída.

Do meio para o final do livro, da forma em que a história se desenvolve, eu já imaginava que o final não poderia ser exatamente feliz, mas de forma alguma previa a virada do rumo das coisas daquela maneira. Não que tenha sido triste, ou errado; apenas foi um final real — que é exatamente o que mais gosto nas histórias, seja lá de qual forma ela forem contadas. A escrita de Victor Hugo parece ser a vida real em sua essência, com os seus melhores e piores aspectos, como se, por uma mágica, ela fosse transportada para o papel.

E, afinal, talvez seja mesmo isso o que ele fez — o que ele faz: mágica. Ele apenas nos engana ao escrever; o que em verdade faz é criar um portal temporal que nos leva diretamente àquela realidade, filtrada por seus olhos para que pareça ainda mais real, bela e admirável.


««««/5

Um trecho marcante de Victor Hugo #3


“De ordinário, o mar oculta os seus lances. Conserva-se voluntariamente obscuro. A incomensurável sombra guarda tudo para ele. É raro que o mistério renuncie ao segredo. Há um quê de monstro na catástrofe, mas em quantidade ignota. O mar é patente e secreto; esconde-se, não quer divulgar as suas ações. Produz um naufrágio e abafa-o; engolir é o seu pudor. A vaga é hipócrita; mata, rouba, sonega, ignora e sorri. Ruge, depois abranda-se.”

domingo, 6 de julho de 2014

Um trecho marcante de Victor Hugo #2


“Ante os mais graves dogmas, ostentava–se quase sem reservas a irreligião de Lethierry. Deu-se o acaso de ser levado a ouvir um sermão acerca do inferno, pregado pelo Reverendo Jaquemin Herodes, sermão magnífico, empachado de textos sagrados, que provavam as penas eternas, os suplícios, os tormentos, as condenações, os castigos inexoráveis, os fogaréus sem fim, as maldições inextinguíveis, as cóleras do Onipotente, os furores celestes, as vinganças divinas, coisas incontestáveis; Lethierry ouviu o sermão e, ao sair com um dos fiéis, disse–lhe baixinho: “Ora, quer ver? Eu cá tenho uma ideia ratona. Suponho que Deus é bom.”
Adquiriu esse germe de ateísmo quando residiu na França.”
Victor Hugo - Os trabalhadores do mar 

O humor de Victor Hugo é um negócio genial, não é mesmo?

E qualquer coisa —até mesmo a primorosa narrativa dele e a igualmente primorosa tradução do Machado de Assis— fica exponencialmente melhor com o humor =)


quinta-feira, 3 de julho de 2014

Por que abandonar um livro?


É claro que sei que cada um tem seus motivos para abandonar um livro, e que alguns também relutam em fazê-lo, mas isso é coisa que aprendi a fazer sem remorsos. Li, com acerto, que nosso tempo, para ler tudo o que queremos, é curto; assim, não se deve hesitar em abandonar uma leitura que não te dá prazer.

Para mim, é por isso que abandono um livro: quando ele não me dá prazer. Não estou falando da história ser fraca ou a escrita ser pobre; estou falando, simplesmente, de não se deliciar com a leitura, com a literatura. Isso às vezes se dá por um ou outro desses motivos citados, mas às vezes por outros diversos. Abandonei Novelas exemplares do Cervantes não por causa do estilo, mas por não gostar das histórias relatadas; abandonei Linha do tempo do Crichton porque não gostei do estilo apesar de a trama ser legal, mas a obra mais recente da qual desisti... Infelizmente dá até desgosto, e estou falando dos Fios de prata do Raphael Draccon.

Por que "infelizmente"? Porque, sinceramente — e não sei isso aconteceu se por causa da fama e do prestígio do autor —, foi uma obra que — até onde eu li, devo admitir —, em minha opinião, careceu de revisão. Parece-me que faltou alguém que dissesse: isso está mal escrito; isso não faz sentido; esse efeito foi repetido muitas vezes em páginas seguidas; a pontuação dessa frase está errada/malfeita/esdrúxula. Não é porque o cara é famoso que não pode ouvir esse tipo de coisa, e, nessa obra em questão, parece que foi isso o que aconteceu. A ideia, como já foi exaustivamente discutido na internet, é boa, é interessante, mas a execução, me parece, necessitou de um desenvolvimento e de uma revisão mais cuidadosos. Muito mais cuidadosos. Isso é o tipo de coisa que — creio — acaba por atrapalhar o status a que a literatura fantástica ascendeu; quando um autor que já publicou, com boas vendas, quatro livros, três de uma saga da qual já li o primeiro e gostei muito e um outro que também li e gostei, com algumas ressalvas, quando esse autor publica um quinto livro — ao que me parece — apenas com a força de seu nome... Pode ser que eu esteja sendo injusto, mas não creio que esse texto teria passado pelo crivo das editoras se tivesse um outro nome, sem tipologia própria, em sua capa, ali, perto do título.

É só o que eu acho, e por ser isso mesmo, o que eu acho, que eu abandonei essa leitura. Acredito que a trama possa mesmo ser boa, mas não acredito que mereça — por causa de tantos erros — ter meu tempo em detrimento de outros escritores muito mais cuidadosos, nacionais inclusive, que aguardam em minha estante. E, mais uma vez, vale lembrar, abandonei Michael Crichton pelo mesmíssimo motivo — e ainda bem que minha opinião não vale de nada para o autor, que tem uma base já bem estabelecida de fãs, assim como o estadunidense.


sexta-feira, 27 de junho de 2014

Geração subzero, organizado por Felipe Pena


Uma das coletâneas que eu mais queira ler era a Geração subzero: 20 autores congelados pela crítica, mas adorados pelos leitores, organizada pelo jornalista, escritor e professor Felipe Pena e publicada pela editora Record. Outras que certamente estarão em minha estante são a Solarpunk, as Imaginários, as Space opera e a Fantasias urbanas, além das que eu já tenho Year's Best SF8, que não foi lançada aqui no Brasil, tratando-se de uma pesca dos melhores contos de FC publicados nos EUA no ano de... sei lá, no passado, e a Wild Cards, compilada pelo serial killer George Martin.


Felipe Pena organizou esse livro com base em outro, onde foi-se definida a "geração 00" da literatura, os "melhores" escritores surgidos no Brasil depois da virada do milênio, num esforço elitista ridículo. Ele, então, criou o trocadilho da geração subzero, dos autores congelados pela crítica especializada. Ele mesmo, ainda, garante que não é uma antologia, não é uma seleção de "melhores" ou qualquer babaquice dessas, mas apenas uma seleção de contos dos autores que estão sendo falados pelas internets da vida. Assim, temos um conto de praticamente cada gênero possível, tão variados em suas estruturas quanto em suas qualidades.

Assim sendo, vou deixar meus breves comentários — atenção ao itálico — sobre o que achei ou senti sobre cada um dos contos.


1. O cão, de Juva Batella. Um conto humorístico, light, bom pra começar de forma despretensiosa, como o organizador se propõe. Bem escrito. Não conhecia o autor antes, mas agora estou aberto e lê-lo novamente. 3/5.

2. Cristais de prata, de Pedro Drummond. Esse eu achei muito bom, de verdade. Gostei da revelação do final, um conto mais longo bem construído, exemplar mesmo. 4/5.

3. A canção de Maria, de André Vianco. Nunca gostei do estilo de escrita do Vianco, e não foi dessa vez que mudei de opinião. Sequer acabei de lê-lo. Compreendo a importância do autor, foi ele quem abriu as portas da literatura fantástica no Brasil, mas não é pra mim. 1/5.

4. Na maternidade, de Thalita Rebouças. Apesar de nunca tê-la lido, já sabia da qualidade da autora. Um conto curtinho, realista e simples, e demonstra a habilidade da autora em se colocar na pele de um homem. 4/5.

5. Fogo e trevas, de Eduardo Spohr. Outro que não é pra mim. Acho a escrita dele muito empolada, muito cheia de clichês, e esse conto não apresentou nenhuma emoção pra mim. Também é um autor essencial na crescida da fantasia no país, mas... Enfim. 2/5.

6. O índio no abismo sou eu, de Luiz Bras. Esse autor eu já tinha lido sobre, e que ele era foda. Só não imaginava que era tão foda assim. Sinceramente, o melhor conto do livro. Até adquiri um livro do Bras, o Paraíso Líquido, uma coletânea de contos dele, depois de ler essa obra-prima da ficção científica. 5/5.

7. A filha do diabo, de Luis Eduardo Matta. Já conhecia o autor pelo podcast Ghost Writter, mas nunca tinha lido nada dele — assim sendo, fui surpreendido positivamente. É um conto muito divertido, meio terror, meio suspense, e com um final interessantíssimo. 4/5.

8. Dê-me abrigo, de Sérgio Pereira Couto. Um conto interessante. Sem muitas emoções, pelo menos pra mim, mas valeu a leitura. 3/5.

9. Ao cortar os cordões, de Estevão Ribeiro. Esse é curioso. Instigante, meio maluco, e acho que foi por isso que gostei. 4/5.

10. O primeiro dragão, de Raphael Draccon. O estilo do autor é bem próprio dele, e devo admitir que não consigo me acostumar 100%, parece que não consigo imergir completamente na história. O estilo chama mais a atenção do que a trama, e acho que isso não é exatamente positivo... De qualquer forma, é um conto que se passa no meu amado mundo de Arton, do cenário brasileiro Tormenta, e acaba sendo, no final das contas, um conto muito bom. 4/5.

11. O preço de uma escolha, de Ana Cristina Rodrigues. Um conto policial num futuro típico de ficção científica. A ambientação é interessante, mas a trama não me trouxe muitas emoções, além de ter sido meio clichê. 2/5.

12. Polaco, de Julio Rocha. Esse conto é muito divertido! Curtinho e eficiente. Parabéns pro autor. 4/5.

13. Para sempre em um dia, de Helena Gomes. Gostei muito desse também, tem uma aura de A lenda do cavaleiro sem cabeça muito gostosa de se imergir. É bem possível que eu procure algo mais da autora. 4/5.

14. Outra vez na escuridão, de Carolina Munhóz. Confesso que comecei a ler cheio de preconceitos, mas me impressionei. A escritora é realmente muito boa, e suas fadas não parecem nada com o que se pode imaginar desses seres. Parecem seres saídos dum conto de Lovecraft, quase. E a revelação de sobre o quê se trata o conto é muito legal! Eu descobri — ou pelos menos supus — já pelo meio do conto, mas o finalzinho é perfeito. 4/5.

15. A sabedoria de Clementina, de Vera Carvalho Assumpção. Um conto interessante, mas temo não poder dizer que o achei muito mais do que isso. Poderia dizer que é bom até; sua trama é interessante. 3/5.

16. Entrevista com o Saci, de Martha Argel. Gostei muito desse; criativo, inventivo, reinventivo — e se essa palavra não existe acabo de inventá-la — e bem escrito. Quase uma fábula, ou uma fábula sem o quase. Só não dou uma nota maior porque tenho que pôr o conto do Luiz Bras acima dos outros. 4/5.

17. Outras onomatopeias, de Janda Montenegro. Confesso que não entendi bem esse, e se entendi, não curti muito. 2/5.

18. O escritório de design probabilístico, de Delfin. Esse é muito inventivo! Aliás, com um nome desse, a probabilidade de ser um conto legal era muito alta, e se confirmou! Instigante, e o final é excelente. Queria a continuação dele em um romance, hehe. E procurarei mais coisas do autor. 4/5.

19. Um chá com Alice, de Eric Novello. O romance Neon Azul do autor já está na minha lista de "quero ler" somente pelos bons comentários sobre ele, e, definitivamente, continuará lá. É um conto tão maluco e interessante quanto a obra original de onde a personagem foi retirada. 4/5.

20. A Lua é uma flor sem pétalas, de Cirilo S. Lemos. Outra boa surpresa, ótimo para finalizar o livro. Um futuro distópico, uma ficção científica crua e bruta, e, infelizmente, bastante realista. O mais longo do livro, e mereceu seu posto de encerrador dessa coletânea. 4/5.


Como média, a nota final foi 3,45 num total de 5, mas o resultado final, residual, me parece tão positivo, no sentido de elencar todos esses autores bons e relevantes, que vou arredondar a nota para cima. Vale, sem dúvida, cada centavo e cada minuto gastos na coletânea — e, claro, suas avaliações podem ser (e provavelmente serão) bem diversas das minhas.

Então, sr. Felipe Pena e editora Record, fico aguardando o Geração subzero 2, ok?


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quinta-feira, 26 de junho de 2014

O alienista, de Machado de Assis


Finalmente consegui ler um livro que eu estava interessado há muito tempo, desde que descobri o melhor escritor brasileiro de todos os tempos, o Machadão, e ainda numa edição bonitinha da Saraiva de Bolso.

O alienista faz jus a tudo a obra de Machado de Assis é: inteligente, sarcástica, crítica, humorística, descompromissada... e moderna demais para a sua época. Tirando algumas poucas palavras que caíram em desuso (ouviu, dona moça que quer simplificar o texto do Machadão?), ela parece quase contemporânea, e se tivesse sido escrita em inglês e eu não conhecesse o autor, poderia dizer que estava lendo um Douglas Adams mais pé no chão.

Agora, o que mais me deu alegria foi descobrir que, mesmo após um século e apesar de tudo o que já foi dito sobre a obra e eu achar já saber de tudo o que aconteceria, eu não levei spoiler do final! E que é muito bom, por sinal. Encerra o... romance? conto? novela? de forma magistral e, por que não?, justa.

Apesar de eu achar que Simão Bacamarte estava, em sua segunda teoria, é mais do que certo mesmo, hehe.


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