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domingo, 24 de agosto de 2014

Flash forward, de Robert J Sawyer


Flash forward é um dos livros mais legais que li, em se tratando de ficção científica. Não gosto de ficar repetindo a sinopse dos livros na postagem, ainda mais quando deixo o link para o Skoob, mas, vá lá; ele conta a história de um acidente onde a consciência das pessoas é deslocada 21 anos para o futuro, por 2 minutos e alguma coisa — evento a que dão o nome do título do livro. Acontece que, enquanto isso tem curso, as pessoas ficam inconscientes, e muitas delas — muitas! — estão em atividades arriscadas, como descendo de escadas e viajando de avião... E o que muitas delas também veem nesses anos futuros não é exatamente o que elas desejavam ter visto, e é em torno dessas pessoas que gira a trama do livro.

Gostei bastante como a trama foi desenvolvida, assim como os personagens, e o autor não teve receio de tomar as atitudes que julgava necessárias para o andamento realista da trama, e isso é um puta ponto a favor. Odeio soluções forçadas, adocicadas, para que tudo dê certo no fim. A vida simplesmente não é assim, nem tudo têm de dar certo. Os personagens não são os mais legais, em termos de "pessoa" mesmo, mas isso também confere certa veracidade ao livro.

Agora uma coisa legal de se ver/ler, são as "previsões do futuro" que o autor acaba fazendo, como a descoberta do bóson de Higgs, o presidente norte-americano negro (o livro foi escrito em 1999, mas se passa em 2009) e outras coisinhas que eu não me lembro agora; ele erra também, claro, em outras coisas, como o destaque que ele dá aos videocassetes, já praticamente aposentados por essa época, mas demos  a ele também o desconto necessário, né? (Pelo menos não são aquelas fitas perfuradas do Asimov, hehe.)

Achei, enfim, uma obra muito divertida de ler, hard sci-fi mesmo, com toda aquela reflexão que o evento central deve causar nesse estilo de literatura, e bem escrito como muito poucos que chegam aqui no Brasil — inclusive, uma coisa a se notar é que esse autor é bastante prolífico, e por causa da insuficiente chegada desses títulos aqui em nossa terra, eu tenho que dizer que o desconhecia totalmente.

Claro que o panorama está melhorando de uns anos para cá, com casas editoriais trazendo cada vez mais títulos interessantes, mas tô vendo que vou é ter que abrir minha própria editora, para traduzir essas pérolas da fantasia, terror e ficção científica — como as obras Ancillary justice de Ann Leckie; La corte de los espejos de Concepción Perea; The snow queen de Joan D. Vinge; e as Paprika e Hell de Yasutaka Tsutsui; como muitas outras mais antigas e para nós desconhecidas — que dificilmente chegam/chegarão por aqui...

Enfim; ««««/5


quinta-feira, 21 de agosto de 2014

Um trecho marcante de Érico Veríssimo


“Ana Terra sacudiu a cabeça lentamente, mas sem compreender. Para que tanto campo? Para que tanta guerra? Os homens se matavam e os campos ficavam desertos. Os meninos cresciam, faziam-se homens e iam para outras guerras. Os estancieiros aumentavam suas estâncias. As mulheres continuavam esperando. Os soldados morriam ou ficavam aleijados. Voltou a cabeça na direção dos Sete Povos, e seu olhar perdeu-se vago, sobre as coxilhas.”


domingo, 3 de agosto de 2014

A morte da luz, de George R R Martin


A morte da luz é, para mim, a melancolia retratada com palavras. Creio ser mesmo essa a palavra que melhor o define, e o título é, de fato, o resumo perfeito de Worlorn, o mundo onde se passa a trama. Um mundo que se afasta cada vez mais de seu sol — ou sóis, no caso —, com habitantes que se afastam cada vez mais de seus sonhos.

Dirk t'Larien é o protagonista assombrado por seu passado, que se torna seu presente e o assombra ainda mais quando joga em sua cara sua falta de futuro. Por mais diferente que seja, esse livro me lembrou o A estrada — em sua melancolia e falta de esperança. São tramas onde o que se têm está exposto à sua frente, e pouco ou nada se pode esperar de novo; assim, têm-se que viver um novo dia sem qualquer expectativa — ou mesmo sem qualquer alegria.

George Martin mostra, já nesse seu primeiro livro, que a qualidade de sua narrativa não cairia no mar da mediocridade. Para quem consegue imergir no mundo que ele apresenta, o que acaba encontrando é uma paisagem idílica; vazia, sim, mas cheia de poesia, e um reflexo do que vai à alma dos personagens principais.

Não há um antagonista, não há romance, não há clichês. Não há um protagonista heroico, e não há uma mocinha em perigo. O que há é um background extremamente bem construído, para os personagens e para os ambientes, para a história e para as justificativas, e há também aquele tradicional jogo que o autor faz com nossos sentimentos, em que num dado momento você se pega sofrendo pelo "antagonista" e desejando dar um tiro na cabeça do "par romântico" do "herói".

Dizendo assim, pode até parecer ter sido uma leitura ruim, mas muito pelo contrário: foi uma das melhores que fiz no ano. É errôneo imaginar que existe prazer apenas na beleza e na alegria; a melancolia é um dos sentimentos que mais nos coloca em contato com nosso verdadeiro "eu", e um dos mais profundos que podemos experimentar. Ainda que o final não seja uma unanimidade entre os que leram o livro, para mim foi perfeito: não há o que detalhar. Não importa, simplesmente. A morte da luz é apenas o retrato do fim — do fim de algumas histórias, do fim de algumas vidas.


««««/5

terça-feira, 15 de julho de 2014

Mundos opostos, de Juan Solanas


Assisti, pela segunda vez, o filme Mundos opostos (Upside down), de 2012, em DVD, e, após essa mais atenta avaliação, creio ter alguns comentários a fazer.


Esse foi um filme que, pelo menos aqui no Brasil, chegou sem propaganda. Eu, particularmente, nunca tinha ouvido falar, e olha que eu acompanho, senão os filmes, ao menos as notícias cinematográficas com certa assiduidade. Ele se trata de... uma ficção científica ou uma fantasia?... sobre dois jovens que se apaixonam e que são — literalmente — de mundos opostos; um planeta que coexiste com um outro, gêmeo, irmanado de alguma forma, próximos, mas próximos mesmo, um do outro, coisa de uns 500 metros de distância. Pelas leis naturais desse sistema, a gravidade de um não influi no outro, e qualquer objeto de um mundo não é afetado pela gravidade do outro. Além disso, se um corpo qualquer de um mundo ficar em contato com um corpo qualquer do outro, depois de um certo tempo, cerca de 1 hora, eles entram em combustão. Tudo bem; suspensão da descrença; isso é fácil de fazer após se acostumar com a ideia, e acaba funcionando bem se você imerge naquele(s) mundo(s), e isso é um puta ponto a favor da história — super original, criativa e inventiva.

Outro ponto ainda que posso parabenizar é a estrutura narrativa do filme. Ainda que dê, de fato, a impressão que foi adaptado de uma história maior, um livro talvez (confesso que procurei depois na internet pensando tê-lo sido, mas não foi), pode-se perceber a fuga da fórmula narrativa hollywoodiana atual; tudo transcorre quase como uma fábula. O final, inclusive, reforça essa impressão, e se o diretor Juan Solanas realmente desejou que assim fosse, parabéns para ele. As atuações de Jim Sturgess e Kirsten Dunst são ótimas para os personagens protagonistas, também.

A questão é... Mesmo para os padrões da física proposta nessa história, algumas coisas parecem meio fora de lugar. Não entendam isso como algo que realmente atrapalhe a apreciação da obra, mas, para autores como eu, que têm que se preocupar com os mínimos detalhes para que um mundo seja verossímil, isso incomoda um pouco. Como, por exemplo, nos momentos em que o personagem Adam está "no outro mundo". Por mais que ele esteja sendo preso lá pelos pesos, ele ainda está de cabeça para baixo; assim, imaginem o desconforto que ele estaria sentindo...? Comer qualquer coisa então... Me pareceria praticamente impossível.

É claro que se abre mão de certas coisas por causa da tal "licença poética" — e de poesia esse filme entende, porque ô fotografia bonita! —, mas ainda acho que um pouquinho mais de cuidado com o produto final nunca fez mal a ninguém.

«««/5

sábado, 12 de julho de 2014

Memórias de minhas putas tristes, de Gabriel García Márquez


Acabei de ler Memórias de minhas putas tristes, do Márquez — uma leitura rápida e prazerosa; um livro curtinho e tranquilo, e que, contrariando minhas expectativas, se revelou muito, muito divertido!

Não vou falar sobre o autor; sua qualidade é indiscutível, e pouco ou nada eu poderia acrescentar sobre ele. Só posso dizer que já me conquistou pela primeira obra que li dele. Olho agora com melhores olhos para o Cem anos de solidão que está parado na minha estante há tempos. O que é realmente interessante comentar é a história, onde um homem de noventa anos — que, a exemplo d'O oceano no fim do caminho, que só percebi o protagonista não ter nome após acabar de ler a obra — resolve ter, para comemorar, uma noite de amor com uma adolescente virgem. Claro que eu não vou revelar o desenrolar da trama, mas é — curiosamente — de uma pureza e simplicidade tão tocante que chega a ser encantadora. É um daqueles livros que você lê com um sorriso no rosto, e, quando terminar, pensa: "que legal!".

Não sei se dá para julgar o escritor já por essa obra, mas, de qualquer forma, me encantei com a forma como ele escolhe para dizer o que tem para dizer; e nada mais, e nada menos.


««««/5

sexta-feira, 11 de julho de 2014

Um trecho marcante de Victor Hugo #4


“O homem é o paciente dos acontecimentos. A vida é um perpétuo sucesso, imposto ao homem. O homem não sabe de que lado virá a brusca descida do acaso. As catástrofes e as felicidades entram e saem como personagens inesperadas. Têm a sua fé, a sua órbita, a sua gravitação fora do homem. A virtude não traz a felicidade, o crime não traz a desgraça; a consciência tem uma lógica, a sorte tem outra; nenhuma coincidência. Nada pode ser previsto. Vivemos de atropelo. A consciência é a linha reta, a vida é o turbilhão. O turbilhão atira à cabeça do homem caos negros e céus azuis. A sorte não tem a arte das transições. Às vezes a vida anda tão depressa que o homem mal distingue o intervalo de uma peripécia a outra e o laço de ontem a hoje.”

quarta-feira, 9 de julho de 2014

Os trabalhadores do mar, de Victor Hugo


Ler Victor Hugo não pode ser considerado um ato de entretenimento, eu acho; é, antes, uma experiência. Para mim, é perfeitamente clara a diferença entre ele, enquanto escritor, e outros autores, enquanto contadores de histórias. É o tipo de escritor que consegue construir uma obra relevante e interessante sobre qualquer coisa, ou sobre o nada. E sim, consegue, no presente, porque é imortal. Ler Victor Hugo é como ouvi-lo nos falar, dissertar sobre a natureza das coisas, e perceber não ter qualquer argumento para rebatê-lo.

Os trabalhadores do mar é aquela que alguns dizem ser sua obra-prima. Outros defendem ser, naturalmente, Os miseráveis, a mais midiática talvez, e outros ainda Nossa Senhora de Paris, mais conhecida como O corcunda de Notre-Dame, mas eu, particularmente, duvido que ele tenha alguma obra menos melhor que a outra. Ainda não li as outras — pecado que pretendo reparar em breve —, mas essa que acabei de ler é, sem dúvida, uma das melhores ficções não fantásticas (no sentido da FC&F) que li em minha vida.

Não bastasse ser um excelente filósofo, por assim dizer; um excelente observador da vida e de igual perícia em descrevê-la com palavras; ele é, ainda, um ótimo narrador da ação, quando ela toma espaço na história. Tem perfeito domínio do que quer causar em seu leitor, seja admiração, espanto, desilusão ou nervosismo — como na cena com a pieuvre; quem leu há de saber. Sem dúvida, era algo que eu não esperava, e causou uma tensão terrível e magistralmente construída.

Do meio para o final do livro, da forma em que a história se desenvolve, eu já imaginava que o final não poderia ser exatamente feliz, mas de forma alguma previa a virada do rumo das coisas daquela maneira. Não que tenha sido triste, ou errado; apenas foi um final real — que é exatamente o que mais gosto nas histórias, seja lá de qual forma ela forem contadas. A escrita de Victor Hugo parece ser a vida real em sua essência, com os seus melhores e piores aspectos, como se, por uma mágica, ela fosse transportada para o papel.

E, afinal, talvez seja mesmo isso o que ele fez — o que ele faz: mágica. Ele apenas nos engana ao escrever; o que em verdade faz é criar um portal temporal que nos leva diretamente àquela realidade, filtrada por seus olhos para que pareça ainda mais real, bela e admirável.


««««/5