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sábado, 11 de outubro de 2014

Ensaio sobre a cegueira, de José Saramago


Qualquer livro de Saramago é uma experiência gratificante. Não foi diferente com O Evangelho segundo Jesus Cristo, não foi diferente com Ensaio sobre a cegueira. Grandes histórias, grandes desenvolvimentos, grandes personagens, de um grande escritor. Uma grande trama, simples a início, mas que logo mostra a incrível capacidade do autor de trazer à tona os aspectos mais corriqueiros do dia-a-dia e dar-lhes um novo e profundo significado, uma nova abordagem, uma nova intensidade. Saramago é, para mim, um mestre em dizer o que os outros não conseguem, em escrever o que os outros acham que não precisa ser escrito e, com isso, nos fazer pensar: por que os outros não escrevem assim? Ler um livro dele é perceber a que níveis a escrita pode chegar; nos leva a entender o quê realmente é a literatura, o quê realmente um escritor deve fazer com o seu monte de páginas em branco.

Embora nenhum dos seus personagens — desse livro — tenha nome, cada um deles é notável e marcante; cada um com suas peculiaridades, suas motivações, suas imperfeições, sim, porque pode-se dizer até que são pessoas mais reais que muitas que nós conhecemos. O médico, o primeiro cego, a mulher do primeiro cego, o cão das lágrimas (adorei ele!), o velho da venda, a menina dos óculos escuros — ou a rapariga dos óculos escuros, como ele escreve no português europeu. Essa foi um decisão muito acertada da Companhia das Letras: manter o estilo e a grafia no original, sem adaptações, porque assim podemos perceber exatamente o que passou por sua mente ao escrever — e isso fica, acreditem, perfeitamente nítido através da clareza de sua escrita.

Dizem que essa obra se enquadra no estilo "realismo mágico", ou seja, uma estória realista com um ou poucos elementos irreais ou fantasiosos; talvez isso acabe — em se tratando de Saramago — diminuindo-a. Eu diria, antes, que o que Saramago passa através de seus dedos (em caneta ou teclas) não se limita à realidade, transcende-a, ignora-a em prol do que precisa ser levado aos leitores. A dita realidade é o que menos importa em termos de Saramago; quando ele escreve, o mundo se dobra a ele, em todas as suas particularidades, belezas, feiuras, sutilezas e crueldades — e nenhuma delas, garanto, falta em Ensaio sobre a cegueira.


«««««/5

terça-feira, 7 de outubro de 2014

As tartarugas ninja, de Jonathan Liebesman


Quase não fiz esse post; muita coisa já foi dita sobre esse filme pela internet... Contudo, o blog é meu e eu dou a minha opinião e pronto =)

O filme já saiu dos cinemas, mas tenho ouvido tantos comentários nonsense que não consegui ficar calado. O filme é bestinha, sim, mas, gente, pelo amor de Deus, é um filme baseado num desenho animado que foi baseado em quadrinhos que falam de tartarugas humanoides gigantes lutadoras de ninjutsu! E com nomes de pintores renascentistas! Treinadas por um rato de esgoto! Que comem pizza! E ainda querem um filme sério???

Poderiam dizer: o roteiro ficou mal feito. Tem furos, eu concordo, mas, gente, é cinema pipoca! Para crianças e adolescentes, em sua maior concepção. O vilão quer ficar milionário, soltando um gás que vai deixar todos da cidade doentes e depois vender o medicamento, e, para que ninguém saiba que foi ele, faz isso numa antena gigante em cima de seu próprio prédio. Não faz nenhum sentido, mas o desenho também é assim. Tem até mais idiotices no desenho que no filme, diga-se de passagem. O Clã do Pé — atentem para o nome! — é muito mais legal no filme; disso parecem esquecer.

E os efeitos especiais? Como ouvi num podcast, os humanos (reais, vale lembrar) parecem mal feitos perto das tartarugas, hehe. O novo design delas me agradou bastante, o tamanho delas também, e a April O'Neil... Ai ai. Melhor nem falar. (Minha esposa fala "ai ai" pro Khal Drogo, então não pode reclamar!) E a cena do elevador é simplesmente incrível.

Enfim, o filme foi bastante satisfatório para mim. Saí do cinema sorrindo, leve e entretido. Exatamente, creio eu, o que o diretor quis.


«««/5

domingo, 5 de outubro de 2014

Dá pra acreditar na Urna Eletrônica?


Ainda não fui votar nessas tristes eleições de 2014 para presidente... A motivação está bem oculta, difícil de ser encontrada, quando paira no ar tamanha dúvida sobre o sistema que o Brasil usa para a votação.

Será que podemos acreditar mesmo na urna eletrônica...? Sabemos todas as coisas de que a informática hoje é capaz; seria tão difícil assim instalar um programa que solte um relatório inicial com todos os candidatos com 0 votos, e depois, na hora das apurações, um relatório final que cuspa um resultado já pré-programado?

Sempre tive esses questionamentos, mas agora, com um aplicativo chamado Boca de Urna, para Android e iOS, que, até esse momento, tem mais de 35 mil intenções de voto cadastradas, e que mostra uma discrepância tão grande entre as pesquisas "oficiais", do IBOPE e DataFolha... Nesses dois "grandes", a Dilma Rousseff tem mais de 40% das intenções, quando no aplicativo ela tem apenas 10%... Sei que existem as questões dos chamados currais eleitorais, mas, mesmo assim, não deviam esses institutos também fugir deles...? Segundo o Boca de Urna, teríamos 2.º Turno, mas entre Aécio Neves, em primeiro, com 40 e tantos por cento, e Marina Silva, em segundo com 20 e poucos. Outra discrepância é em relação às pesquisas para a candidata Luciana Genro, com 6% no aplicativo, muito além dos 1% que a mídia televisiva lhe dá... Na minha interpretação, esse 1% fajuto vem a calhar quando a intenção é minimizar a força que a candidata tem com um tempo de propaganda muito menor que o dos principais candidatos... E, assim, atrapalhá-la em eleições futuras...

Longe de mim estar dizendo que o voto em cédulas de papel é mais seguro; de forma alguma — é tão "roubável" quanto o eletrônico. Tudo o que eu gostaria é de ter certeza que a escolha do povo seria a mesma televisionada à noite...

E, assim, fazer valer a gasolina que eu vou gastar para me deslocar até a escola onde voto.

Seria assim a verdade...?

sábado, 4 de outubro de 2014

Um trecho marcante de José Saramago


“Então aconteceu o que tinha que acontecer. Ouviram-se tiros na rua. Vêm-nos matar, gritou alguém, Calma, disse o médico, devemos ser lógicos, se quisessem matar-nos era cá de dentro que viriam disparar, não lá fora. Tinha razão o médico, foi o sargento quem deu a ordem de disparar para o ar, não foi um soldado que de repente tivesse cegado quando estava com o dedo no gatilho, compreende-se que não houvesse outra maneira de enquadrar e manter em respeito os cegos que saíam aos tropeções dos autocarros, o ministério da Saúde tinha avisado o ministério do Exército, Vamos despachar quatro camionetas deles, E isso dá quantos, Uns duzentos, Onde é que se vai meter toda essa gente, as camaratas destinadas aos cegos são as três da ala direita, segundo informação que temos, a lotação total é de cento e vinte, e já lá estão sessenta ou setenta, menos uma dúzia que tivemos que matar, O caso tem remédio, ocupam-se as camaratas todas, Sendo assim os contaminados vão ficar em contacto directo com cegos, O mais provável é que, mais tarde ou mais cedo, esses venham a cegar também, aliás, tal como a situação está, suponho que contaminados já estaremos todos, de certeza não há uma só pessoa que não tenha estado à vista de um cego, Se um cego não vê, pergunto eu, como poderá transmitir o mal pela vista, Meu general, esta deve ser a doença mais lógica do mundo, o olho que está cego transmite a cegueira ao olho que vê, já se viu coisa mais simples, Temos aqui um coronel que acha que a solução era ir matando os cegos à medida que fossem aparecendo, Mortos em vez de cegos não alteraria muito o quadro, Estar cego não é estar morto, Sim, mas estar morto é estar cego, Bom, então vão ser uns duzentos, Sim, E que fazemos aos condutores dos autocarros, Metam-nos também lá dentro. Nesse mesmo dia, ao fim da tarde, o ministério do Exército chamou o ministério da Saúde, Quer saber a novidade, aquele coronel de quem lhe falei cegou, A ver agora que pensará ele da ideia que tinha, Já pensou, deu um tiro na cabeça, Coerente atitude, sim senhor, O exército está sempre pronto a dar o exemplo.”
José Saramago - Ensaio sobre a cegueira, 1995

quarta-feira, 17 de setembro de 2014

Tropas estelares, de Robert A. Heinlein


Quando acabei de ler o Tropas estelares — bem, na verdade, quando estava lá pelo meio dele — pensei: Engraçado, parece que não condiz muito com o que lembro do filme... E, pelo que li, eu estava certo.

Enquanto o livro traz uma narrativa mais política, militar e filosófica sobre aquela realidade, o filme traz — naturalmente — mais a ação. Contudo, me parece (preciso rever o filme) que foram bem fiéis à ideia original do que foi escrito pelo sr. Heinlein — e bem escrito, por sinal. Li muitas críticas sobre o caráter "fascista" das ideias ali defendidas, mas acho que exageram um pouco nisso... Aliás, essa atual moda de "politicamente correto" já me deu no saco... Por que aquela realidade escrita por Heinlein não poderia ser, de fato, fascista? É uma criação dele, não é?

Enfim. Gostei muito mesmo do livro. Não tem tanta ação — apesar de que, no final, tem uma cena muito interessante da incursão de Johnny Rico num planeta insetoide. Aliás, nesse ponto, os detalhes do livro são bem superiores aos do filme. No livro, as armaduras dos soldados são trajes impressionantes, inteligentes e resistentes; no filme, são trajes ainda mais simples que os de nossos soldados reais. Os alienígenas, os insetoides, no livro, são inteligentes, usam armas, têm veículos, cidades e naves espaciais; no filme, são bestas, ao que me lembro, irracionais. Contudo, voltando ao que dizia, apesar de não ter tanta ação, acho que a obra valeu, e muito, a pena por conta de seus momentos filosóficos, ainda que muito direcionados (ou será que não?) àquela sociedade.

Recomendo fortemente a leitura dessa obra, e acho que bem que poderia ter uma nova edição...


****/5

Edição em 13/09/15: Saiu uma nova edição, pela Aleph!

segunda-feira, 1 de setembro de 2014

Um trecho marcante de Robert A Heinlein


“Fiz uma descoberta muito importante no Acampamento Currie. A felicidade consiste em dormir o suficiente. Só isso, nada mais. Todas as pessoas ricas e infelizes que você já conheceu tomam pílulas para dormir; soldados da Infantaria Móvel não precisam delas. Deem a um soldado um lugar onde deitar e tempo para se enfiar nele e ele ficará tão feliz quanto um bicho dentro de uma maçã — dormindo.”

Robert A. Heinlein - Tropas estelares

domingo, 24 de agosto de 2014

Like a selfie


E então, com uma medida provisória votada em tempo recorde, conseguiram acabar com a civilização ocidental estabelecida. Nenhuma guerra foi declarada; nenhum acordo foi revogado; nenhuma sanção comercial restritiva viu a luz do dia; nada disso aconteceu. O que o congresso votou e o presidente assinou — num Universo paralelo ao nosso — foi a imediata proibição das selfies, conhecidas outrora e numa outra dimensão como autorretratos (e, nessa dimensão, curiosamente, ainda existiam os hifens).

O colapso foi crescente: as camadas da sociedade foram ruindo num impressionante efeito dominó. Claro que, nesse Universo paralelo, distante do nosso, alguns efeitos parecem ser ampliados; certas ações parecem produzir reações desproporcionais — ou pelo menos é o que dizem os estudiosos. Dessa forma, uma mera proibição que à primeira vista poderia parecer desimportante, acabou por atacar as bases de todo um ecossistema, como ferrugem numa secular ponte de ferro. Também é necessário pontuar que, inicialmente, o governo não ligou os pontos correta e imediatamente. Nenhum estudioso, é óbvio!, poderia fazê-lo; e somente depois de muito tempo puderam chegar ao verdadeiro marco inicial.

O fato é que os suicídios começaram instantaneamente. O sistema público de saúde chegou a fazer uma vultuosa contratação emergencial de psicólogos, mas muitos deles acabaram também por se matar em seguida. Já não havia motivo para existirem, e nem era a falta de pacientes: era porque já não podiam se autoafirmar; provar sua existência, beleza e importância da única forma que sabiam! Qual seria a razão de conquistar um diploma, se não para se fotografar vestido em seu novo uniforme? E depois em seu consultório, e depois ao lado de seus clientes? Ou em casa — e isso valia para os psicólogos e para os pacientes —, qual a razão de cozinhar um belo prato, feito com base numa receita de um grande chef francês, se não podiam se fotografar ao lado dele? E ir à academia, ao médico, ao supermercado, ao hipermercado e ao minimercado? Qual a graça de ir a Paris ou Foz do Iguaçu se não podia “postar uma selfie” lá? E depois, logo em seguida, em Puerto Iguazu, porque atravessou a ponte, claro, e precisava provar que estivera ali? Já não parecia haver um motivo para viver; já não haviam mais likes. Muitos quebraram seus espelhos, porque a existência desses objetos já não fazia sentido, privados do clímax de seus dias que era o auxílio na realização das selfies. Nesse Universo paralelo, praticamente distante do nosso, noventa por cento da população era refém dos selfies — e dos likes —, e a reabilitação de tal dependência não era possível… Não era, de fato, sequer cogitável. O vício não dava tréguas: os atropelados postavam selfies nas macas; os amantes postavam selfies nus ainda nas camas; as modeletes postavam selfies com todos os looks do dia… Nesse Universo paralelo, quase distante do nosso, até os cachorros e gatos domésticos já estavam postando selfies! Donde se pode, assim, avaliar o avançado estado de degeneração a que essa sociedade chegara.

Outro fato curioso pertinente a esse Universo paralelo (acho que diverso do nosso…) é que tal autoextermínio em massa — se é que essa expressão existe — levou às cabeças das mídias um grupo de darwinistas que defendia a tese de aquilo ser, na verdade, apenas mais uma faceta da seleção natural. Parece-nos, claro, que tal hipótese deve ser brutalmente rechaçada, uma vez que tais indivíduos foram nada menos que destruídos, devastados por tal ato tão imprudente dos políticos, que ainda tinham a audácia de se defender dizendo que “tudo o que haviam feito era para recolocar a sociedade novamente nos eixos da sanidade”. Realmente… Como acreditar em tal discurso, já que os próprios políticos perdiam mais tempo postando selfies nos plenários e congressos do que efetivamente trabalhando? (Ou ainda, numa análise mais racionalista: como acreditar em políticos que se preocupavam com o bem da sociedade?) Nesse universo, talvez outro que não o nosso, os engenheiros erguiam prédios pelos likes; os atletas batiam recordes pelos likes; os sucessos das conquistas amorosas — ou não — eram medidos pelos likes… E a selfie era, para todos, o meio quase que divino de levar ao mundo o conhecimento de tais realizações.

Nesse Universo, que a esta altura eu já nem sei se é ou não o nosso, as aparências valem mais do que a realidade, e talvez tenha sido realmente necessário um evento de extinção em massa para recolocá-lo nos eixos. O problema é que, mesmo com a internet paralisada, corre por aí um boato… Bem, um boato de que o fim da era de suicídios foi marcado por uma selfie em grupo — daquelas, imitadas à exaustão, dos atores na cerimônia do Oscar — com os revolucionários que explodiram o Congresso Nacional, cheio de políticos, e esse mesmo prédio, em escombros e chamas, ao fundo…