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terça-feira, 22 de maio de 2018

Há um tubarão na piscina, de José Figueiredo




Há um tubarão na piscina é o romance de estreia do José Figueiredo, também conhecido como Jefferson Figueiredo, membro do podcast 30:MIN… e é um romance estranho. Não que isso seja uma crítica; acho que ele tinha toda a intenção de ser. Ele não tem a ambição de explicar tudo, nem de fazer o leitor se sentir confortável na leitura, nem em esclarecer detalhes dos personagens e eventos misteriosos e/ou sobrenaturais. Porque cabe uma explicação: esse livro é uma obra, pode–se dizer, de realismo mágico, e me lembrou muito das histórias de José J. Veiga (e, agora percebo, até mesmo na escrita). Mas vamos à trama.

Três amigos — Ângelo, Cândido e Regina — decidem viajar para Porto Alegre para encontrarem um rock star desaparecido, o tal do John Smith. A metódica Regina programa todo o plano de ação, mas é claro que as coisas saem totalmente do controle. Sim, tem um quê (um quêzão, um quêzíssimo) de Bolaño aqui, mesmo porque as referências não estão nem um pouco escondidas. (Aliás, cabe aqui um tópico: esse livro é um mosaico de referências, de filmes de faroeste a Murakami, e confesso que não devo ter pegado a maioria delas.) Outra coisa que eu confesso é que passei a gostar mesmo do livro a partir da inserção dos dois elementos fantásticos principais — uma personagem que é quase uma deusa (ou é uma deusa, sei lá) e um personagem que acorda de sonhos intranquilos metamorfoseado em… melhor ler para saber.

Não é o melhor livro do ano, mas tem seus encantos. Peca, contudo, em dois pontos: a capa, que não gostei e que parece rótulo de Tubaína, e do serviço de revisão da editora que beira o amador, com o tanto de erros que deixou passar. No entanto, isso não desabona a história, ainda que incomode.

Quem gosta de realismo mágico deve ler o Há um tubarão na piscina — e ler todas as notas de rodapé, porque são uma divertida atração a mais.


sexta-feira, 4 de maio de 2018

Leituras de Abril


Primeiramente, fora Temer. Segundamente, peço desculpas aos leitores do bróg por estar postando apenas esses posts de leituras do mês, e tão menos os posts, digamos, temáticos, ou monotemáticos, sei lá — mas vocês entenderam a ideia. É que está faltando tempo mesmo. Paciência. Mas, justamente por isso, esses posts “condensadões" são úteis; falo sobre todos os livros que quero falar e não deixo o blog morrer.

Esse mês de abril foi cheio de emoções, e nem todas elas boas. Li uns livros muito bons, descobri uma doença degenerativa na minha coluna, passei um final de semana num pesqueiro, terminamos — finalmente! —, eu e o Luís Beber, de escrever nosso livro em parceria (para lançamento em breve)… Enfim, vocês perceberam que realmente foi um mês de altos e baixos. E espero que os altos se proliferem e os baixos fiquem contornáveis :)

Mas vamos às obras do mês!


ROMANCES:



Que eu sempre gostei do Stephen King não é segredo, mas, mais uma vez, ele conseguiu me surpreender com Joyland. Dizem que não se deve julgar um livro pela capa, mas confesso que o que mais me atraiu nessa foi a ruiva que eu vim a descobrir ser a personagem Erin Cook. Essa ilustração, além de ser linda, muitíssimo bem executada, reflete perfeitamente a alma do livro — não que ela represente uma cena, exatamente, do romance, mas todos os elementos — e o clima — da ilustração são fidedignos ao que se encontra na história. Então, e a história? Vou contar a vocês que nunca imaginei que Stephen King pudesse ser tão… murakamesco. Quê?! Murakami e King na mesma frase? Sim! Olha que fantástico! Devin Jones, o protagonista de Joyland, poderia muito bem ser um personagem escrito pelo japonês — é melancólico, é uma boa pessoa, adora caminhar para aproveitar seus momentos de introspecção, é altamente mediano (mas com eventuais arroubos de protagonismo)… mas, apesar disso tudo, é um personagem cativante. Os coadjuvantes, como em qualquer obra do King, são adoráveis; bem-construídos e realistas — tanto que, lá pela metade do livro, eu me pego pensando: “que merda… esse é um livro do Stephen King… logo, logo, alguém vai se foder grandão… alguém ou todo mundo… vai vendo…" — mas, incrivelmente, não! Não estou dando spoiler; estou só dizendo que esta não é uma história típica do Stephen King! Arrisco mais uma vez dizer que é uma história que Haruki Murakami escreveria se fosse obrigado a escrever um thriller. Então, acreditem no que eu digo: o mestre King sempre surpreende. Leiam sem receio.



Mais uma vez, outro que deixei passar o hype para ler o Guerra do velho, e posso dizer com toda a tranquilidade: QUE LIVRO FODA. A começar pela capa, que vende exatamente o que a história é. Passando pela escrita do John Scalzi, que é leve, fluida e sem grandes pretensões. Continuando pelos personagens, que são cativantes e bem construídos (só acho que o protagonista é sortudo até demais…). E culminando na história, que, basicamente — e o autor não esconde isso de ninguém — pegou a ideia apresentada em Tropas estelares e a ampliou para um universo interessante, variado e coeso, com adendos de incrível criatividade. Guerra do velho pega o que foi consolidado com as grandes space operas do passado e entrega uma história moderna e deliciosa. 'Bora pro próximo livro, o As Brigadas Fantasma :)



E, enfim, a trilogia Comando Sul do escritor Jeff VanderMeer termina, com o romance Aceitação… e eu tenho algumas considerações tanto do romance quanto da trilogia em geral — e, inclusive, do filme Aniquilação. Mas, Rahmati, do filme também? Sim, porque o filme é um resumão da trilogia toda. Mas, antes, ao que interessa: esse terceiro volume é tão bom quanto o primeiro, ou mesmo tão razoável quanto o segundo? A resposta é simples: não. E talvez o culpado disso seja o filme. Vejam bem, não estou dizendo que os livros são ruins. A história toda é uma das coisas mais estranhas que eu já li — aliás, essa seria uma boa definição das duas mídias, livros e filme: é uma grande história de estranhamento com momentos de terror. Só que, enquanto o primeiro volume te introduz num mundo original para caramba, o segundo monta as bases e o terceiro dá os toques finais — porque não dá explicações, coisa que o filme faz. O problema é que os livros, falando do Autoridade e do Aceitação, enrolam demais. Dava, com folga, para ter feito um único livro, lá com suas 450 páginas, mas que fosse mais direto ao ponto, assim como o filme fez. Então o filme é uma boa adaptação? É! Porque tudo o que tem no livro está lá de alguma forma (e aqui vão os spoilers de ambos): o bicho que grita, que foi transposto para o urso decomposto; o duplo do faroleiro, que virou o duplo do marido da bióloga; o rastejador, que se transformou no alien do final… Só não gostei do filme ter entregado a origem da Área X na primeira cena, mostrando o meteoro. Mas… e o personagem John Rodriguez, o Controle? Sério: o que ele fez no livro? Serviu para quê? Não fez falta nenhuma. Em resumo: eu explico a Área X para mim mesmo como uma espécie de câncer do planeta. No filme, é aquele câncer que mata rapidamente; no livro, é o que mata aos poucos.



Comentários nesse post :)


* * *


CONTO:


Mais um ótimo texto do Leonel Caldela, esse conto O cão é bem-escrito, denso, dramático e impactante. É uma história de fantasia que dialoga com outras obras do autor, como O código élfico e O caçador de apóstolos, mas não creio que se passe realmente no universo de alguma delas. É mais como uma “realidade alternativa", acho (coisa que gosto de fazer nas minhas obras também; todas têm elementos umas das outras). Para não variar, Leonel é brutal com seus personagens — e, aqui, isso se reflete principalmente no final, porque, apesar de eu imaginar que havia alguma coisa ali, eu jamais poderia esperar aquilo. Mais um ponto para o Caldela, e espero ansiosamente sua próxima obra que não for da série Ruff Ghanor.

quarta-feira, 10 de agosto de 2016

Sombras de reis barbudos, de José J Veiga


Curioso que José J Veiga não se considere um autor do gênero realismo mágico... porque a obra da qual eu mais me lembrei ao ler o Sombras de reis barbudos foi justamente Cem anos de solidão. Tudo que há numa, há noutra: a cidade pequena, encerrada em si mesmo, alheia do mundo externo; a interferência desse mesmo mundo externo como algo mal visto; os elementos fantásticos acontecendo como algo corriqueiro; os personagens que pouco reagem frente a esses eventos misteriosos, como se os eventos familiares fossem muito mais importantes que eles...

O Sombras é de fato um livro muito bom, bem mais curto do que o Cem anos, mas igualmente marcante. Existe alguma coisa mesmo que marca a narrativa desses autores sul-americanos, não sei o quê, alguma poética, alguma característica narrativa que torna o mundano algo meio etéreo... Nos causa um interesse no corriqueiro, uma atração que supera trama, plot twists, ação... Sinceramente, não consigo entender o que é. Talvez seja somente o talento mesmo.

Só sei que estou motivado a procurar outras obras do autor :)



sábado, 1 de agosto de 2015

Mas é realismo mágico ou fantasia?

(Originalmente publicado no Papo de Cafeteria, republicado no Monomaníacos, discutido no CabulosoCast #122 - A (polêmica) literatura fantástica nacional, e gerou minha participação no CabulosoCast #149 - Realismo mágico)

Cena do filme A estrada, baseado no livro de Cormac McCarthy.

Existe muita confusão sobre o tal do gênero conhecido como realismo mágico. Como se pode ser realista quando se fala de alguma coisa mágica? Seria esse um gênero mainstream disfarçado de fantasia para vender mais, ou um jeito que a fantasia deu de se enfiar no meio mainstream? No que ele difere da ficção fantástica tradicional?

É aceito que o realismo mágico tenha surgido na América Latina com escritores como Jorge Luis Borges, Gabriel García Márquez, Julio Cortázar e outros — mas isso se considerarmos estritamente o gênero de prosa produzida por esses senhores. Contudo, existem muitos outros escritores — inclusive fora da América Latina — que fazem obras que, nitidamente, bebem das mesmas fontes desses pioneiros; seriam, então, assim, excluídos do “gênero” por não estarem na mesma sombra geográfica? Mas, espere (você pode se perguntar); se não for assim, como sempre me foi dito, como eu vou identificar o que é realismo mágico e o que é ficção fantástica, ou fantasia? Bom, para começar a polêmica, já começo defendendo de que tudo é ficção fantástica. Daí podemos subdividir em fantasia, ficção científica, realismo mágico, terror, new weird… E então chegamos ao cerne: qual a diferença entre realismo mágico e fantasia, e como identificá-los?

Comecemos pelo mais fácil — a fantasia. O que é uma obra de fantasia? Parece óbvio dizer que O senhor dos anéis do Tolkien é fantasia, assim como As crônicas de gelo e fogo do George Martin. Temos dragões, magia e mortos-vivos em ambos. A Torre Negra do Stephen King também; temos portais dimensionais, ora! Em Deuses americanos do Neil Gaiman temos, bem, deuses!, assim como em O inimigo do mundo do Leonel Caldela. Até aqui tudo bem. Se não houvesse esses elementos, esses mundos se desfigurariam completamente. Não há Terra Média sem magia, sem magos e sem orcs; não há Arton sem elfos, deuses e kobolds. A América de Deuses americanos é moldada pelo “mundo atrás do palco”, e o mundo d’O pistoleiro é uma versão do nosso. Retirando-se o Um Anel, Gandalf ou Sauron, ainda sobram inúmeros elementos fantásticos em O senhor dos anéis, pois essa obra é feita disso. Do mesmo modo, o mundo d’A Torre Negra seguiu adiante, com ou sem Roland Deschain. E Arton sem a Tormenta continua sendo Arton. Agora… poderíamos dizer que o mesmo acontece em obras como A estrada do Cormac McCarthy, Kafka à beira-mar do Haruki Murakami, A metamorfose do Franz Kafka, Memórias póstumas de Brás Cubas do Machado de Assis, A menina que roubava livros do Markus Zusak…? (Perceberam que não mencionei nenhum dos autores latinos supracitados, não é?)

É nítido e evidente que os elementos fantásticos estão presentes nessas obras. A estrada fala sobre um mundo pós-apocalíptico; em Kafka à beira-mar temos um senhor que fala com gatos (e eles se entendem mutuamente, fique claro) e outras coisinhas mais; o protagonista de A metamorfose vira um inseto gigante; e em Memórias póstumas de Brás Cubas e A menina que roubava livros, quem narra as estórias são, respectivamente, um morto e a Morte. Contudo, eu também pergunto: Sem esses elementos fantásticos, as histórias perdem suas importâncias? Vamos lá, a resposta é fácil: não. A estrada não é sobre o mundo apocalíptico; é sobre o amor de um pai pelo filho na adversidade extrema. Em qualquer outro cenário semelhante aquilo funcionaria tão bem quanto. Perdidos no deserto de Gobbi ou no Atacama, em Marte ou no Ártico. Memórias póstumas… e A menina… têm somente narradores incomuns, o que torna suas estórias únicas, mas elas são perfeitamente possíveis em nosso mundo real. A metamorfose é sobre a melancolia, sobre o sofrimento de um ser humano que não vê sua utilidade no mundo, e Kafka à beira-mar tem em seus elementos fantásticos apenas adornos de um algo maior. E assim também é com A revolução dos bichos do George Orwell, Ensaio sobre a cegueira do José Saramago, Horizonte perdido do James Hilton, Incidente em Antares do Érico Veríssimo…

Então, essa definição é a final? Claro que não. Muitos estudiosos — ou chatos, como preferirem — não admitem que o realismo mágico seja mais do que aquela literatura de nicho feita na América Latina. Isso, contudo, a meu ver, seria semelhante a dizer que não há fantasia fora da Europa ou ficção científica fora da literatura escrita em inglês.

É quase como dizer que Star wars é fantasia e não ficção científica, mesmo tendo uma explicação para a Força e alienígenas serem aceitos na ficção científica de O fim da infância do Arthur C. Clarke e não em… Bom, mas acho que esse assunto terá que ficar para um próximo artigo.

Ilustração para o livro A Torre Negra vol. 1: O pistoleiro.

quinta-feira, 15 de janeiro de 2015

Ele está de volta, de Timur Vermes


Meu livro mais recentemente terminado foi o Ele está de volta, do autor alemão Timur Vermes, e já vou dizendo logo de cara:

««««/5

O que quer dizer: muito bom!

Nesse livro, o autor propõe uma situação: e se Hitler acordasse no ano de 2011, vivo e bem? E o resultado é deliciosamente cômico. Confundido com um imitador, ele tenta, esperneia e grita (confesso que imaginei o autor Bruno Ganz, do filme A queda, o tempo todo, hehe) tentando fazer as pessoas acreditarem que ele é quem é e que ele realmente está querendo dizer o que está dizendo, mas ele não contava com o espírito troll do terceiro milênio...

Contudo, há um "problema"... O humor do autor é muito sutil; sua percepção depende da capacidade do leitor de captar ironias, e isso, infelizmente, está muito além das capacidades de grande parte dos leitores brasileiros... Pode-se perceber isso por algumas resenhas do Skoob. É uma pena.

Entretanto... eu posso dizer que esperava mais apenas do final. Esperava qualquer coisa bombástica, incrível, mindblowing... Mas não; o fim é um fim sem fim. O que até me leva a imaginar se terá uma continuação... E bem que merece.

Ele está de volta é de fato um livro muito bom. Não sou um profundo (nem sequer mediano) conhecedor do Führer, mas me pareceu ter sido muito realista quanto à questão do que ele pensaria nesse século XXI, e nos leva a entender muito da cabeça daquela pessoa, levando-se em consideração ter o autor sido fiel aos seus princípios — e me parece, realmente, que foi.

Como uma personagem mesmo diz no livro, é dizendo os absurdos que Hitler diz e pensa que nos forçamos a entender como evitar tudo aquilo de novo, e como o líder alemão é — ou era —, de fato, perigosamente carismático e magnético.



sábado, 11 de outubro de 2014

Ensaio sobre a cegueira, de José Saramago


Qualquer livro de Saramago é uma experiência gratificante. Não foi diferente com O Evangelho segundo Jesus Cristo, não foi diferente com Ensaio sobre a cegueira. Grandes histórias, grandes desenvolvimentos, grandes personagens, de um grande escritor. Uma grande trama, simples a início, mas que logo mostra a incrível capacidade do autor de trazer à tona os aspectos mais corriqueiros do dia-a-dia e dar-lhes um novo e profundo significado, uma nova abordagem, uma nova intensidade. Saramago é, para mim, um mestre em dizer o que os outros não conseguem, em escrever o que os outros acham que não precisa ser escrito e, com isso, nos fazer pensar: por que os outros não escrevem assim? Ler um livro dele é perceber a que níveis a escrita pode chegar; nos leva a entender o quê realmente é a literatura, o quê realmente um escritor deve fazer com o seu monte de páginas em branco.

Embora nenhum dos seus personagens  desse livro  tenha nome, cada um deles é notável e marcante; cada um com suas peculiaridades, suas motivações, suas imperfeições, sim, porque pode-se dizer até que são pessoas mais reais que muitas que nós conhecemos. O médico, o primeiro cego, a mulher do primeiro cego, o cão das lágrimas (adorei ele!), o velho da venda, a menina dos óculos escuros  ou a rapariga dos óculos escuros, como ele escreve no português europeu. Essa foi um decisão muito acertada da Companhia das Letras: manter o estilo e a grafia no original, sem adaptações, porque assim podemos perceber exatamente o que passou por sua mente ao escrever  e isso fica, acreditem, perfeitamente nítido através da clareza de sua escrita.

Dizem que essa obra se enquadra no estilo "realismo mágico", ou seja, uma estória realista com um ou poucos elementos irreais ou fantasiosos; talvez isso acabe  em se tratando de Saramago  diminuindo-a. Eu diria, antes, que o que Saramago passa através de seus dedos (em caneta ou teclas) não se limita à realidade, transcende-a, ignora-a em prol do que precisa ser levado aos leitores. A dita realidade é o que menos importa em termos de Saramago; quando ele escreve, o mundo se dobra a ele, em todas as suas particularidades, belezas, feiuras, sutilezas e crueldades  e nenhuma delas, garanto, falta em Ensaio sobre a cegueira.


«««««/5