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terça-feira, 7 de março de 2017

Desafio literário Clube de Autores


Todos que me acompanham sabem que publiquei meu primeiro romance, O arquivo dos sonhos perdidos, pelo Clube de Autores — uma plataforma de autopublicação semelhante à Amazon, mas o que essa última faz com e–books, a primeira faz com livros impressos.

Acontece que, por não haver nessas plataformas o crivo de um editor, muita tranqueira é publicada. Talvez 90% de tudo o que é nelas publicado — ou até mais —, na verdade. Só que acontece, também, de acharmos pérolas no meio de tanta caca…

E é nesse sentido que lanço a mim mesmo o desafio Clube de Autores, para esse ano de 2017 :D

Vou, através desse desafio, comprar e avaliar, ao longo do ano, aqui no blog, 7 obras que me parecem promissoras, de diversos gêneros literários. Vou dedicar meu escasso tempo de leitura e meu precioso espaço na lista de leituras para essas obras, e depois dizer se atingiram ou não minhas expectativas.

São essas as obras (a ordem é meramente ilustrativa e não reflete, necessariamente, a ordem de compra ou leitura):


1. Teorema de Mabel, de Matheus Ferraz


Sinopse: Para Mabel, a chance de trabalhar como datilógrafa para o maior nome da literatura brasileira era inacreditável — justo ela, que sempre sonhara em ser uma grande escritora! Mas Milton Dantas agora não era mais do que uma criatura moribunda e incapaz de escrever uma linha sequer. Mabel decide seguir em frente e escrever o livro, mesmo que isso signifique perder sua sanidade. Mas por que teria sido ela escolhida para o trabalho? A resposta está na sua aparentemente inofensiva máquina de escrever, que esconde um segredo terrível.

Expectativa: Imagino ser uma obra mais voltada para o young adult, com toques do realismo mágico de Carlos Ruiz Zafón e sua trilogia O Cemitério dos Livros Esquecidos.

*

2. A eleição, de Rodrigues dos Santos


Sinopse: Ávido por poder, o prefeito carioca Fernando Leta entra em mais um ano eleitoral sedento por vitória. O desafio dessa vez é eleger um aliado para o governo do Estado, de forma a expandir sua influência para fora da cidade que governa, de olho em voos mais altos rumo a Brasília.

O que Fernando não sabia antes desse ano eleitoral é que seu sucesso político cobraria um preço muito alto da sua família. Comprometido com acordos políticos, alianças improváveis e cercado por pessoas que não pode confiar, Fernando precisa enfrentar seus adversários enquanto elege qual é sua verdadeira prioridade.

Expectativa: Me parece ser um drama interessante, se tiver sido bem escrito, já que parece ter a intenção de tratar dos nossos tempos. Talvez possa descambar para um thriller.

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3. A última tribo, de Guilherme Pimenta


Sinopse: Em uma tribo isolada do mundo, Yxyry — perto de se tornar pai — vê sua família definhar com pouca comida e água escassa. Temendo por todos, ele começa uma jornada para desafiar seus deuses, cruzando uma fronteira proibida para seu povo: a Fenda do Mundo.

Nessa história emocionante, siga a jornada de um ser humano enfrentando o desconhecido para salvar seus entes queridos — e como este confronto pode mudar uma pessoa para sempre.

Expectativa: Não costumo me atrair muito para estórias tribais, indígenas, e coisas desse tipo… mas algo nessa sinopse me faz imaginar ter um “algo mais” aí. Espero uma aventura–pipoca de fantasia.

*

4. Vós sois máquinas, de Goulart Gomes



Sinopse: No futuro, um androide estabelece contato com uma inteligência de outra dimensão, provocando grandes transformações na sociedade.

Expectativa: Essa sinopse é a mais curta e a que mais me agradou — tanto que este foi o livro que descobri há mais tempo, antes mesmo de saber o que era o Clube de Autores. Além de ser ficção científica, meu gênero preferido.

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5. Universo desconstruído: Ficção científica feminista vol. II, organizada por Lady Sybylla e Aline Valek


Sinopse: Segunda coletânea de ficção científica feminista brasileira. Oito autores e autores brasileiros, oito universos diferentes, desconstruindo mundos.

Expectativa: Já comprei e li a primeira coletânea da Sybylla e da Aline, e adorei. Muitos contos bons, alguns incríveis, então a expectativa para o segundo volume é alta.

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6. Unicelular, de Tarsis Magellan


Sinopse: Rosa Villar, agente da ABIN, é chamada às pressas para investigar o envenenamento do filho de uma influente jornalista americana que estava de férias, numa das belas praia do Brasil. O que Rosa não imaginava é que o bem–estar da criança estaria ligado intimamente a membros do alto escalão da embaixada dos Estados Unidos. E, caso a cura não seja encontrada a tempo, problemas diplomáticos surgirão entre os dois países.

A agente tem fortes indícios de que a Biotech, uma grande empresa farmacêutica chinesa, está envolvida no incidente e comanda uma empreitada gigantesca no país. Isso a levará ao centro de controle da Biotech, na Ilha de Trindade.

Lá, Rosa será apresentada à Iniciativa Unicelular, um projeto que ela somente imaginou existir em histórias fantásticas. No entanto, ela sente que algo mais está à espreita, capaz de colocar não só a sua vida, mas a de todos em risco.

Envolta em uma teia de mentiras, conspirações, segredos corporativos e inúmeras mortes, Rosa deve descobrir os mistérios escondidos em um lugar onde não só o homem, mas também a natureza, serão seus piores inimigos.

Expectativa: Parece–me um thriller de ficção científica com toques de horror, bem no estilo dos jogos Resident evil e Parasite Eve… Já havia começado a ler o primeiro capítulo da obra no Wattpad, e a escrita do autor me agradou.

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7. Zé Calabros na Terra dos Cornos, de Tiago Moreira


Sinopse: Entre a caatinga e o mar, a Cornália é uma terra hostil, governada por coronéis, ameaçada por cangaceiros e habitada por feras lendárias.

É uma época de terror. O Rei do Cangaço se ergue no leste, isolando a região e espalhando violência em sua cruzada sangrenta.

Porém, quando o errante Zé Calabros, cabra–macho do sertão, salva a vida de um náufrago misterioso, inicia–se uma travessia perigosa por essa terra fantástica.

No caminho, nossos heróis insólitos — e também você, leitor — encontrarão engenhos terríveis, feiticeiros poderosos, monstros selvagens e bandidos cruéis.

Esta é a jornada de Zé Calabros na Terra dos Cornos.

Expectativa: Essa é a obra mais recente dessa lista, em publicação e em descoberta — e é de longe, para mim, a mais curiosa. Fantasia numa versão do Sertão Nordestino, com uma capa muito divertida e um título muito engraçado? Podem ter certeza que as expectativas para esse livro estão altas :)

*

É isso aí! Está lançado o meu desafio a mim mesmo, hehe, e, caso vocês se interessem por alguma(s) dessas obras, o link para elas está no próprio nome, é só clicar e comprar :)

Sigamos prestigiando a literatura nacional, estando ela em editoras ou não ;)

* * *

Atualização em 10/04/17: Foi feita a substituição de uma das obras do desafio original, como relatado nessa postagem.

quinta-feira, 2 de março de 2017

#OPodcastÉDelas — Arita Souza

~Texto da escritora convidada Arita Souza, booktuber do canal Dobradinha Literária e podcaster do SpheraGeek, em apoio à campanha #OPodcastÉDelas, integrada por diversos produtores de conteúdo para a internet — como podcasters, bloggers e vloggers — nesse mês de março de 2017.~




“Mesmo onde existam muito ouro e pedras preciosas, os lábios que comunicam são mais valiosos que uma joia rara”


Vamos menina! Levante desse sofá, e mostre o seu valor!

Olá amigos, meu nome é Arita Souza, sou uma booktuber e me arrisco em algumas participações no podcast do SpheraGeek, com a equipe direcionada pelo amigo Thiago Simão.

Já digo com antecedência que falar sobre mulheres não é uma tarefa fácil, mesmo sendo eu, uma bela donzela de 37 aninhos (desculpe–me por usar o termo donzela. Sei que é um tanto antiquado visto que a nova moda é “bela, recatada e do lar”). 

Adoro ironias… kkk

Vou lhes contar uma historinha bem representativa:

“Um arqueólogo escavava uma ruína quando topou com uma velha lâmpada. Ao esfregá–la para tirar a poeira, apareceu um gênio. Você libertou–me!, disse o gênio. Vou lhe conceder um desejo. O arqueólogo pensou por um momento e respondeu: Quero uma ponte com uma autopista ligando a Inglaterra à França! O gênio revirou os olhos e resmungou: Eu acabo de sair da lâmpada, estou muito cansado. Faz ideia da distância que existe entre a França e a Inglaterra? É uma engenharia impossível! Faça outro pedido! O homem refletiu por um momento e pediu: Eu gostaria de poder me comunicar com as mulheres. O gênio empalideceu e perguntou: Serve uma ou duas pistas?” (PESASE, 2003:147)

Não quero chegar já metendo os “dois pés no peito” dizendo blá…blá…blá sobre o complexo mundo feminino, mesmo porque eu não acredito nisso, nessa história sobre empoderamento ou complexidade porque isso só faz com que a voz feminina deixe de ser ouvida por aí. Seríamos iguais a tantas coisas negativas que se falou sobre comunicação em geral ou mesmo sobre a comunicação entre homens e mulheres.

Acredito em ações, acredito em uma mulherada que está arrasando em participações nas multi–mídias por aí, inclusive nos casts dos meninos (diz aí, Galera do Rau, quando sai o meu convite? kkk)

Por falar nisso, você conhece o podcast? 

Lembra–se aquele bom e velho programa de rádio? 

Podcast é isso, um programa organizado que pode ser transmitido em áudio ou vídeo pela internet. Uma mídia bem simples, que te permite começar a trabalhar com um bom tema e um bom gravador. 

Nós chegamos lá e conquistamos esse espaço.

Mas será que a comunicação entre homens e mulheres flui bem? E se tratando de podcast ? A coisa acontece?

Alguns tabus foram quebrados e ganhamos espaço para debatermos sobre temas polêmicos como Star wars, Star trek, futebol e até sexualidade, imaginem vocês! 

Todo bom podcast tem em seu grupo mulheres fortes para a programação (e nem todas vão para falar sobre os 50 tons de rosa possíveis ou mesmo quanto custa o preço do trigo na gôndola do supermercado).

Mulheres dominam bem os tempos verbais com sua cortesia imposta pelas palavras mágicas como querer, dever, poder, as deixando no fim das contas, mulheres bem Imperativas. Já os homens, mesmo com seu gerundismo, continuam indo além das paredes das cavernas. 

Eu já imagino que, após esses comentários, meus créditos com você, leitor, quase chegue a zero. Não pense assim sobre a minha pessoa! A gente pode até perder o amigo mas a piada nunca morre. 

Pesquise os casts, valorize as meninas do clube.

Vamos juntos mudar a palavra! Eliminar diminutivos e eufemismos para deixarmos nossa marca nesse pequeno mundo paralelo da internet.

terça-feira, 21 de fevereiro de 2017

Especial natalino, de Clara Madrigano


Clara Madrigano já começa sua novela Especial natalino avisando, com a primeríssima frase do e–book: Esta não é uma história com um final feliz. E eu já comecei a gostar por isso, hehe. E nos primeiros minutos de leitura por outros dois aspectos: pela cidade onde se passa a trama — Amberline — ser sombria e por uma das personagens principais se chamar Cheryl — e ambos os aspectos me fizeram lembrar de uma história do mundo dos games que gosto muito: Silent Hill. Isso me motivou muito a continuar a leitura. Isso e outras coisas.

(Resenha originalmente publicada no site A Hora do Chá)

Uso o aplicativo do Kindle para celular essencialmente para ler contos e revistas de contos. Não gosto de ler narrativas longas lá (me cansam, deve ser por causa da telinha, que não é e–ink como o e–reader Kindle mesmo), além de preferir com folga os livros físicos. Sempre dou chance a escritores iniciantes que autopublicam seus contos e novelas, mas quando passo duas, três páginas, e percebo que a) ou o autor não domina a língua ou b) a história é clichê demais eu abandono sem dó e ainda classifico com poucas estrelinhas na Amazon. Clara Madrigano passou ao menos em um desses dois itens: sua escrita é ótima. Mesmo que a história possa ser clichê (não vou dar spoilers aqui), a narrativa é tão climática e bem construída que isso se torna uma questão menor. A novela saiu pela Draco, e não é por eu ser um escritor publicado por essa editora que eu vou dizer que “já que saiu por uma editora é garantido a obra ser boa”. Já li coisas dessa e de outras editoras que perdem de lavada em quesito qualidade de autores autopublicados. Mas, como eu disse, Especial natalino não sofre desse mal.

Na trama: Dois de três filhos — Justin e Brooke — de um casal típico do interior norte–americano estão voltando para casa para a típica ceia de Natal. Cheryl, a terceira filha, sempre morou lá, apesar de não gostar da cidade (mas não ter tido o brio de sair também). Essa terceira filha é escritora, e tem um blog onde analisa criticamente (e destrói) os famigerados romances eróticos. Coisas estranhas, no entanto, começam a acontecer quando a mãe pede a Justin que vá ao mercado buscar um ingrediente que faltava — e do lado de fora ele encontra uma ex–professora. A partir daí, surge um mistério muito bem narrado, num timing gostoso, com as coisas aos poucos se desenrolando e sendo apresentadas com muita habilidade.

Especial natalino é, sem dúvida, uma novela muito boa, e com certeza deixa um gostinho de quero mais — se não pelo cenário, ao menos por novas produções da autora (que agora está montando uma editora que parece ser bem promissora, a Dame Blanche).

Agora, quanto a ser ou não uma história com final feliz, cabe a vocês a tarefa de ler e descobrir.

sexta-feira, 17 de fevereiro de 2017

A cidade & a cidade, de China Miéville

(Resenha originalmente publicada no site A Hora do Chá)

Creio que existam dois tipos de escritores: aqueles que pegam temas e/ou histórias já conhecidas e dão sua visão particular — e não estou falando de “recriar histórias”; estou falando de usar temas e sentimentos e acontecimentos comuns e dar a eles sua visão toda pessoal — e existem aqueles que criam algo totalmente novo.

A cidade & a cidade, de China Miéville, é uma criação de um desses escritores do segundo tipo — e uma das histórias mais impressionantemente criativas que li nos últimos tempos. Pode até já existir algo semelhante ao que é nela apresentado, mas eu confesso desconhecê–lo. E isso, para um leitor ávido como eu, acreditem, é grande coisa. Mas o que tem de tão original assim?, vocês devem estar se perguntando.

Acontece que a trama se passa em Besźel e em Ul Qoma. Ao mesmo tempo, porque são a mesma cidade. Ocupando o mesmo espaço físico. E é crime ver a outra cidade. Aliás — não ver é impossível, claro; então, as pessoas têm que desver. Desouvir. Mais ou menos como “fazer de conta” que não está vendo. Agora imagine a dificuldade de perceber o que é de uma cidade e o que é da outra… Se você for analisar bem, perceberá que isso tem grande chance de dar merda — e é claro que dá; senão, não haveria livro, certo? E que baita livro! Porque, além disso tudo — além de ter uma baita premissa de ficção científica —, ele é um soberbo livro policial! Sim, policial: como resolver o problema de uma mulher que aparece morta numa área total de Besźel (porque existem áreas cruzadas de ambas), sendo que ela morava em Ul Qoma? Só colocando em cena um detetive fodão como o das histórias clássicas policiais.

E esse homem é o inspetor Tyador Borlú, de Besźel.

Contudo, se fosse só isso, estaria fácil. Ele tem que tomar extremo cuidado para não fazer brecha em sua investigação — ver, ouvir ou sequer notar algo da outra cidade — e, assim, tentar evitar ser pego pela força quase mística conhecida como Brecha, que fiscaliza o cumprimento das regras da separação das cidades. A brecha é o crime maior em Besźel/Ul Qoma — maior do que matar, roubar ou traficar. Faça tudo isso, mas não atravessando de uma cidade para a outra ilegalmente — o que pode ser simplesmente atravessando uma rua ou jogando uma migalha para um animal que está brutopicamente perto (ao seu lado, mas na outra cidade).

A cidade & a cidade é um livro muito bem escrito, ainda que seja mal escrito, e muito bem traduzido em sua péssima tradução. Explico: é como se o inspetor Borlú tivesse narrado sua história no idioma de sua cidade, o besz, e depois traduzido ele mesmo para o inglês, língua que ele não domina — então, certos erros são esperados. Assim, Fábio Fernandes faz uma excelente má tradução para o português, respeitando esses enganos linguísticos do personagem principal/narrador e respeitando a genialidade do escritor China Miéville.

Inclusive, vou ler mais um livro dele para ter certeza — provavelmente o Estação Perdido —, mas Miéville parece ter grandes chances de entrar no seleto rol que inclui autores como Chuck Pahlaniuk e Haruki Murakami: aquele dos quais se tem a certeza de que qualquer obra que se ler será perturbadoramente deleitosa, que fará repensar seu próprio cotidiano e que terá o selinho de garantia de “seu tempo não será perdido”.

Bem; talvez sua sanidade, mas não o seu tempo ;)

sexta-feira, 10 de fevereiro de 2017

Conto: Uma recorrente decepção


Escondido num canto, ouvindo a respiração pesada e os passos trovejantes do monstro, ele evitava pensar no pior. Era inevitável, claro. A cada resmungo, a cada irritação, a cada soco em algo ou em alguém o teto sobre ele tremia e pó descia sobre seu chapéu. Fora ele quem se prontificara a —não; na verdade, quem insistira em— ir atrás dela. Não que não confiasse no Escolhido, mas podia confiar desconfiando. Se recusava ao raciocínio fácil de que isso implicava ficar esperando e torcendo apenas. Claro que havia um ou outro que ajudava mais ativamente, mas, ainda assim, dependiam exclusivamente do sucesso dele; se ele parasse, todos parariam junto.

Menos ele.

Os guardas esqueléticos passaram, lanças pontiagudas em mão. Ele tinha uma janela de poucos minutos antes que voltassem, então se lançou para fora do esconderijo. O ar estava quente e úmido, difícil de respirar. Correu o mais rápido que suas curtas pernas permitiam, evitando encostar nos dutos metálicos que fritariam sua pele ao menor resvalo. O líquido quente como lava corria em direção às máquinas infernais que eram construídas em segredo nos andares do subsolo, atraentes para o seu intelecto e seu senso investigativo, mas sua prioridade era clara, e ele não podia se desviar dela. Não agora, ao menos.

Quase não conseguiu passar a tempo de não se esturricar na armadilha giratória, automática quando os guardas não estavam por perto. Queimou uma beirada da jaqueta, mas conseguiu se jogar por baixo da morte que descia em sua direção, escorregando pelo chão e ralando as costas. Ao menos estava agora no último setor da fortaleza.

Era impressionante como até os guardas tinham medo do chefe, pensou, sorrindo (mas de nervoso) — aquele setor estava praticamente deserto. Pelo duto do teto em que ele descera, podia perceber que só haviam dois guardas, e no extremo oposto ao reduto do chefão, o mais longe possível dele. Sabia que o todo–poderoso do mal tinha sua entrada secreta para o próprio salão, mas, pela agora ausência de gritos e tremores, parecia certo que ele não estivesse lá.

Aproveitou–se de um curto instante em que os guardas não estavam olhando e deixou–se cair no piso de pedra cinzenta, ocultando–se em uma reentrância. Ele conhecia o mapa da fortaleza, então esgueirou–se pelo chão irregular, que emulava uma caverna natural. Arrastou–se os últimos metros e pendurou–se por debaixo da ponte que dava acesso ao salão final, suando em bicas porque, afinal, como todo bom dragão do mal o tal gostava de reforçar a mensagem — e nada melhor para isso do que cercar seus aposentos com um lago daquele líquido parecido com lava. Chegou ao final extenuado, mas não podia perder tempo. Saltou para a plataforma onde ficava a enorme porta de madeira e ferro, mas… não havia nada visível que a abrisse. Escondido, quase perdeu as esperanças, mas acabou deixando o pânico dar lugar a uma risada genuína — tinha se lembrado de que o mecanismo para abrir a porta estava oculto na estrutura do final da ponte. Levantou–se para avançar novamente até lá… e derrubou a lanterna que estava no bolso interno da jaqueta. Prendeu a respiração, mas como ele não estava lá, podia…

“O QUE FOI ISSO?!”, grunhiu o “ele”, facilmente audível do outro lado da colossal porta. O susto fez com que o infiltrado paralisasse. Alguém respondeu algo, mas essa fala não foi inteligível. O infiltrado até respirava com cuidado. “É ÓBVIO QUE É UM BARULHO, IMBECIL.” Apesar da voz de trovão, ele não estava gritando, nem vindo abrir a porta para checar. Estaria… preocupado? Teria o Escolhido chegado, já? O infiltrado olhou ao redor, mas não viu nada que o sugerisse. “LEVE–A”, ouviu novamente. “EU MESMO VOU… CUIDAR DISSO.” E a porta se abriu, rangendo como estivesse sendo arrancada das profundezas. O infiltrado mal teve tempo de se jogar de lado antes que o imenso dragão passasse por ele. Ficou ali, de guarda, na ponte, de costas para ele. Uma ideia então passou pela cabeça do infiltrado: e se…?

Jogou–se por debaixo da porta no último instante, preparado para lutar com o que quer que o aguardasse ali, mas tudo o que viu foi o vestido dela desaparecendo por uma passagem secreta, que se fechou na parede de pedra. Tateou, esmurrou, mas nada aconteceu — ela se fora. Tão próxima… Já ouvia os sons da luta do lado de fora, mas que diferença fazia? Sentou–se no chão, apenas, respirando, de olhos fechados, reunindo os cacos…

Mas esses cacos eram orgulhosos. Ele não daria ao Escolhido a satisfação de descobrir que ele também tinha chegado atrasado. Que esse peso fosse maior para o Escolhido. Encontrou o grande saco que fora usado, certamente, para raptar a princesa, e meteu–se lá dentro. Depois que o rugido foi ouvido, depois que a porta foi erguida, e depois que o saco foi aberto, suas escoriações e rasgos confirmaram o panorama.

— Obrigado — disse então, vendo a decepção nos olhos do Escolhido. — Mas nossa princesa está em outro castelo.



domingo, 5 de fevereiro de 2017

Um trecho marcante de José J Veiga


“Acontece que nem Esmeralda nem Horaciano estavam perdendo o sono por causa das leituras de César. Que muito alegravam também a tia Basília. Que adianta a pessoa aprender a ler para depois virar as costas aos livros? Basília mesma tinha em casa uma estante com livros misturados, história, psicologia, política, biografias, arte, literatura de Machado de Assis a Guimarães Rosa, e alguns estrangeiros em tradução. Por enquanto não ia passar esses livros a César, eram adultos para ela e poderiam indispô–la contra bons autores. Bastava por enquanto que César conservasse o gosto pela leitura; a qualidade viria na época certa. Ela mesma, Basília, lera M. Delly e Henri Ardel, e gostara. Porém Basília achava também que a leitura não devia preencher todo o tempo livre das mocinhas. A moça que não sabe bordar, tricotar, costurar, fica uma mulher incompleta. Você não acha, Horaciano? 
Horaciano não achava. Para ele, ensinar todas as meninas a bordar, a tricotar etcétera era uma norma do passado. Hoje há muitas outras ocupações que as mulheres podem desempenhar. As que tiverem preferência para as chamadas prendas domésticas, que se dediquem. E bom proveito. O que não cabe mais em nosso tempo é querer perpetuar a divisão do trabalho, pela qual se estipulou não se sabe quando nem por quem, que umas atividades são próprias de homem, outras de mulher, e estamos conversados. 
— Eh, qualquer dia desses você está aceitando que a sua filha vá ser, digamos… mecânica de automóvel — disse Basília. 
— Ora, se for da vontade dela… 
— Espere aí, Horaciano. Nem tanto ao mar, nem tanto à terra — disse Esmeralda. — Imagine a nossa filha lambuzada de graxa até os cabelos, e com aquele gorrinho de farricoco na cabeça. Faça–me o favor! 
— Bom, não é profissão para dondoca. Quanto ao gorro, imaginosa como é, ela poderá inventar outra cobertura para proteger o cabelo da graxa e da sujeira do chão da oficina, onde terá de se deitar para mexer nos carros por baixo. 
— Está vendo? Se ela ficasse em casa fazendo o seu tricô, o seu crochezinho, estaria sempre de mãos e cabelos limpos, de banho tomado e cheirosa — disse Basília. — Qual o rapaz vai olhar para uma moça besuntada de graxa e de unhas pretas de fuligem de motor? 
— Os empregados da oficina vão olhar. E os donos dos carros também — disse Horaciano. 
— Que horror, Horaciano! É isso que você quer para nossa filha? Eu sou contra. Não aprovo mesmo — disse Esmeralda. — Me admira você com essas ideias. 
— A ideia não terá sido minha, mas dela. 
— E se ela vier com essa ideia você aprova tranquilo — disse Esmeralda. 
— Nem tranquilo nem aflito. Apenas respeitando. 
— Quer dizer que se César pender para trabalho de homem, e dos mais brutos, você não move uma palha para impedir? — perguntou Basília. 
— Ah, esse não move mesmo. Se César quiser ser amansadora de cavalo, peão de obra, motorista de carreta, soldado de polícia, ele está aí para aprovar — disse Esmeralda. 
— Aprovar não. Aceitar. Pode–se aceitar uma coisa sem aprovar. Este seu café, por exemplo.”

José J Veiga — O risonho cavalo do príncipe, 1992



quarta-feira, 1 de fevereiro de 2017

Eu quero a imortalidade


Este, certamente, será o post mais pessoal que já escrevi aqui. Outrora, os blogs funcionaram mais como um diário; agora, têm mais conteúdo do que divagações. Vamos resgatar esse antigo aspecto então aqui, porque existe um assunto que o episódio San Junipero, de Black Mirror e, consequentemente, o episódio 272 do AntiCast, me fizeram refletir mais do que nunca:

A ideia de finitude me aterroriza.

Será por isso que escrevo? Para permanecer no mundo, após o meu tempo de vida? Creio que não. Talvez eu deva, então, assumir: escrevo porque gosto de escrever. De criar histórias.

A questão é: quero ficar vivo para escrever histórias. E não só para isso. Quero sentir o vento, quero sentir o frio, e até o calor que odeio, quero ver a natureza, árvores, montanhas, rios, oceanos, quero ler, quero viver. Quero a imortalidade para isso.

Mas o que é a “imortalidade"? Permanecer nesse mundo? Ter uma “alma" para continuar, ou — e é aí que entra o episódio San Junipero — a vida é a nossa consciência? Se for, a vida em San Junipero é uma possibilidade de imortalidade? Vamos ser mais específicos: um escritor, que tenha sua consciência transferida para uma realidade virtual, indistinguível da “realidade real" em tudo, irá continuar criando, escrevendo?

Se você não viu esse episódio de Black Mirror, saiba que San Junipero é para onde as pessoas que não querem deixar de existir ao morrer vão — suas consciências são levadas para lá, através, digamos, de upload. Desculpem pelo spoiler.

E eu, particularmente, faria isso.

Religiosamente falando, não sei no que creio. Nem se creio em algo. Acontece que, vendo por esse viés, e levando em consideração a reencarnação, onde temos que voltar para viver todo tipo de coisa para evoluir, eu pergunto: viver para sempre não dá na mesma? Pense, você que está lendo isso: quanto a sua vida mudou nos últimos 10 anos? Provavelmente bastante. A minha mudou radicalmente. E o que isso seria, essa multiplicidade de vivências, ao longo de 500 anos? 1.000 anos?

Mas aí você pode pensar: Mas viver em um programa, uma realidade virtual, não oferece a mesma carga de experiências que o mundo real oferece. Sério mesmo? Quantas mudanças e reboots e remakes de tudo o que é virtual você viu nesses mesmos 10 anos? Inúmeras, não é? Então você acha que San Junipero continuaria mesmo igual para sempre?

Então não nos atenhamos a esse aspecto da imortalidade. Dizem que a pessoa que vai viver para sempre já nasceu, hoje em dia. Isso significa: a medicina está tão avançada que, em nossa geração, ou nessa nova, dos que nasceram por esses dias, haverá alguém que já não morrerá de morte natural. Acho isso possível mesmo. E espero que seja. Mesmo que com um corpo artificial. Afinal, nossa vida é nosso corpo, nossa mente ou nossa alma?

E, se você acha que viver eternamente é um saco, responda honestamente: você quer mesmo morrer? Se respondeu “sim", responda essa outra pergunta: É porque você não gosta de viver, ou porque tem medo de ficar velho, ou doente, ou definhar? Em uma realidade virtual, em um corpo artificial ou com uma medicina avançadíssima, isso não aconteceria. E, se você acha que realmente morrer é um fato natural, após algum tempo... Bem, isso deveria ser sempre uma escolha pessoal.

Eu escolho viver o máximo que eu puder.