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segunda-feira, 19 de setembro de 2016

Universo desconstruído, organizado por Lady Sybylla e Aline Valek


O tempo da supremacia absoluta das editoras no mundo literário chegou ao fim com a plataforma Clube de Autores.

Ok, não exageremos; não é bem assim. Contudo, há algo de verdade nessa frase. Até pouco tempo, o único meio de ingressar no mercado literário e ver sua obra chegar a qualquer lugar era, sim, uma exclusividade daqueles que eram escolhidos pelas poderosas editoras — agora, essa referida plataforma permite que você “suba” o arquivo de seu livro e o venda, através do site, impresso, encadernado, no formato de livro, bonitinho, para qualquer lugar, e ganhando o quanto você quiser. Isso permite que autores que estão perdidos no imenso mar de originais em que os editores naufragam finalmente façam suas obras verem a luz e atingirem os tão esperados leitores. O problema é que também permite que obras que jamais passariam por qualquer tipo de crivo minimamente consciente também tenham sua chance, mas, como a plataforma permite que se veja —e leia— as primeiras páginas de cada obra, cabe a cada um filtrar e descobrir o que realmente vale a pena ali. E essas obras existem, e cabe a nós, produtores de conteúdo online, descobri-las e levá-las ao conhecimento geral.

E é aqui que entra a antologia Universo desconstruído: Ficção científica feminista, organizado pela Lady Sybylla e pela Aline Valek: é uma obra ótima, auto-publicada pela Clube de Autores e que não deve nada a nenhuma publicada por editoras tradicionais!



segunda-feira, 5 de setembro de 2016

Um trecho marcante de Douglas Adams #2


“A história da Galáxia ficou meio confusa por dois motivos: em parte porque aqueles que tentavam acompanhá-la ficaram meio confusos, mas também porque coisas incrivelmente confusas aconteceram de fato. 
Um dos problemas tem a ver com a velocidade da luz e com as dificuldades encontradas em tentar ultrapassá-la. Não dá. Nada viaja mais rápido que a velocidade da luz, com exceção talvez das más notícias, que obedecem a leis próprias e especiais. Os Hingefreel de Arkintoofle Menor bem que tentaram construir naves espaciais movidas a más notícias, mas elas não funcionavam particularmente bem e, como eram extremamente mal recebidas sempre que chegavam a algum lugar, não fazia o menor sentido estar lá. 
Então, de modo geral, as pessoas da Galáxia acabavam ficando entretidas com suas próprias confusões locais e a história da Galáxia em si foi, por um bom tempo, basicamente cosmológica.”




terça-feira, 30 de agosto de 2016

Um trecho marcante de Jeff VanderMeer


““Ave fantasma, você me ama?”, sussurrou ele uma vez na escuridão, antes de partir para o treinamento para a expedição, mesmo sendo ele então o fantasma. “Ave fantasma, você precisa de mim?”
Eu o amava, mas não precisava dele, e achava que era assim que as coisas deveriam ser. Uma ave fantasma podia ser um falcão em um lugar e um corvo no outro, dependendo do contexto. O pardal que disparava em voo no céu azul em uma manhã podia se transformar em uma águia-pescadora em pleno voo na manhã seguinte. As coisas eram assim, aqui. Não havia razões tão poderosas a ponto de sobrepujar o desejo de estar em harmonia com as marés, com a mudança das estações e com os ritmos que regiam todas as coisas ao meu redor.”
Jeff VanderMeer - Comando Sul vol. 1: Aniquilação, 2014


Fotografia de Ed King

quarta-feira, 17 de agosto de 2016

Conto: Sob as brumas repousa o inominável




Olive caminhava apressado por entre a neblina e os prédios de Misttown. Era pouco mais que duas da tarde, mas o entulhamento das vias, lotadas de carros e pedestres, combinado com a parca luz que chegava ao chão, filtrada pela onipresente cerração e pela poluição, o faziam ter a sensação de que era bem mais tarde — talvez seis ou sete da noite. E ele agradeceria se fosse; a ansiedade pela noite nublava a plenitude do dia. Há quanto tempo ele esperava por aquela noite? Teve vontade de correr, mas uma revoada de pássaros o assustou.

“Pidgeys por todos os lados”, pensou, vendo os pássaros marrons sumindo na neblina. “Transmitindo doenças e emporcalhando estátuas e telhados… e todo o resto.”

Ele se lembrava de quando as coisas não eram assim. Os animais eram puros; suas populações eram controladas… e eles nem eram chamados assim ainda, genericamente, animais. Haviam muitos que também se lembravam, assim como ele — mas esses muitos eram massa, não tinham opinião como ele. Estavam domados pela mídia, doutrinados, estupidificados. Olive se lembrava de quando a nova ordem entrara em vigor — e isso, para ele, significou muito mais do que para os outros, para os não–treinadores. Ele se lembrava de quando fora obrigado a abandonar seus amigos, escolhendo apenas um; ele se lembrava quando esse um, seu primeiro, um rapidash, definhara até o fim. Todos os que eram treinados definharam, e os que nunca foram se distanciaram cada vez mais de suas origens elementais, se animalizaram cada vez mais…

Olive se lembrava do nome do seu rapidash, e que era um nome que ele jurara nunca mais pronunciar.

Mas a noite chegou, finalmente. Olive parou de andar erraticamente e dirigiu–se ao subsolo da antiga fábrica CryTech. Os neons da cidade tingiam a neblina de laranja e vermelho, naquela rua, e ele venceu disfarçadamente a cerca meio destruída e adentrou as ruínas. Depois do primeiro lance de escadas para baixo, um grandalhão armado o impediu. Ele mostrou sua insígnia e sua passagem foi autorizada. A porta acústica lhe foi aberta. Olive entrou num andar lotado de pessoas, luzes e alegria. Aquele lugar era apenas um único e gigantesco salão, com o piso transformado em degraus descendentes, com uma cobertura rústica de cimento grosso, até o centro do salão, já a metros abaixo dele, onde o evento iniciava. Olive buscou a mesa de juízes e informou sua presença. Como seria o último competidor da noite, no evento principal, apenas circulou por ali. Recebeu muitos cumprimentos, felicitações e abraços. Acompanhou com pouco interesse a primeira competição, de um menino contra uma menina, entre um rattata e um weedle, visivelmente iniciantes — no entanto, era naqueles jovens treinadores que estava o futuro da Liga de Kanto.

quarta-feira, 10 de agosto de 2016

Sombras de reis barbudos, de José J Veiga


Curioso que José J Veiga não se considere um autor do gênero realismo mágico... porque a obra da qual eu mais me lembrei ao ler o Sombras de reis barbudos foi justamente Cem anos de solidão. Tudo que há numa, há noutra: a cidade pequena, encerrada em si mesmo, alheia do mundo externo; a interferência desse mesmo mundo externo como algo mal visto; os elementos fantásticos acontecendo como algo corriqueiro; os personagens que pouco reagem frente a esses eventos misteriosos, como se os eventos familiares fossem muito mais importantes que eles...

O Sombras é de fato um livro muito bom, bem mais curto do que o Cem anos, mas igualmente marcante. Existe alguma coisa mesmo que marca a narrativa desses autores sul-americanos, não sei o quê, alguma poética, alguma característica narrativa que torna o mundano algo meio etéreo... Nos causa um interesse no corriqueiro, uma atração que supera trama, plot twists, ação... Sinceramente, não consigo entender o que é. Talvez seja somente o talento mesmo.

Só sei que estou motivado a procurar outras obras do autor :)



terça-feira, 9 de agosto de 2016

Um trecho marcante de Afonso Schmidt


“E o professor, sem se conter: 
— Mas eu me sinto mais vivo do que nunca! Olhem a minha mão... Reparem bem... Ainda é a mesma de carne... Vejam como eu arranco este botão...

Anselmo respondeu-lhe:

— Isso não prova nada. Estamos num mundo etéreo, como já estivemos no mundo físico. Esta casa já não existe na terra, mas na luz, e nós a seguimos através do espaço, como um dia seguimos a terra em direção à constelação de Hércules. Não é paraíso, purgatório ou inferno; é uma lei espiritual de causa e efeito.

"Quem planta uma semente colhe uma flor, um fruto, ou encontra, um dia, no mesmo lugar, um ramo de espinhos. As coisas só nos vêm às mãos quando já estamos acima delas e é por isso que muitos colocam a sua felicidade nas mãos alheias ou então num futuro remoto, quando a verdade é que ela sempre está em nossas mãos e a vida sempre começa, não no dia seguinte, mas no instante em que se pensa. As existências que nós desejamos são lições já aprendidas, sem lembrarmos de que cada dia traz o seu ensinamento e que cada página estudada é logo voltada. A maioria dos homens passa a vida num jardim da infância, são espíritos jovens, precisam de brinquedos e flores; mas os outros, que pensam e sofrem, estão já em pleno caminho da sabedoria e, à proporção que o nosso curso adianta, as lições se tornam mais duras. Mede-se a grandeza pelo sofrimento. Dante, Tólstoi, Cristo... Há um dia em que a felicidade se torna ridícula; um homem feliz é como um ancião que se diverte com um polichinelo. Nós temos de sofrer e cada vez mais, até nos colocarmos acima da dor; nesse dia, teremos alcançado a singeleza das crianças, conversaremos com os seres aparentemente inanimados e um raio de sol valerá mais para qualquer de nós que o trono de um rei.”

Afonso Schmidt — Delírio, 1934


Fotografia: Martin Brigden

segunda-feira, 8 de agosto de 2016

Contos do Dragão: Paid in full


"Ainda me lembro que, naquela hora, somente um toque do aparelho foi necessário para que eu o atendesse. “Como vai, senhor Cronin?”, eu vi o homem dizer, sorrindo, sórdido, um sorriso de canto de boca. “Calma, calma, tudo está bem, sua linda esposa está bem, por enquanto”, ele continuou. Da primeira vez, eu só o ouvi, e então o estava vendo. Lembro-me, contudo, Agatha, exatamente de todas as palavras, nas duas vezes que as ouvi. Você não imagina quantas vezes eu as repeti em minha cabeça!, antes e depois de… Enfim. Ele continuou. “Mas não estou gostando de sua demora, sabe como é. Hoje em dia, a polícia demora muito a atender pedidos de socorro, não é mesmo?” 
Percebi que você me ouviu gritar do outro lado da linha; eu mesmo ouvi, dali. O sequestrador sorriu. “Não sejamos tão grosseiros, meu amigo”, ele disse. Ele sempre me chamou assim, e eu sempre senti o mesmo asco quando o ouvia, e ainda sinto. O mesmo asco que senti quando vi que ele corria a ponta da arma pelo seu rosto, pela sua nuca… Isso eu não soubera, antes. Você riria de mim se visse como eu maldisse a minha impossibilidade de agir, da mesma forma que sempre ria dos meus ataques gratuitos de nervos. “Você deve prezar pela integridade de sua mulher… Ou da maior parte dela”, ele disse, exatamente quando atirou em sua perna. Nem nessa hora você gritou, minha brava esposa… Curioso, eu não me lembro do que disse para que ele reagisse assim, das minhas falas eu nunca me lembro. Certamente, alguma estupidez, daquelas que eu sempre digo. 
E enquanto você desmaiava, em silêncio, eu gritava no telefone, e gritava assistindo à cena, impotente, e confesso que ainda grito à noite, às vezes, quando acordo após sonhar com aquilo tudo."

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