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terça-feira, 9 de agosto de 2016

Um trecho marcante de Afonso Schmidt


E o professor, sem se conter: 
— Mas eu me sinto mais vivo do que nunca! Olhem a minha mão... Reparem bem... Ainda é a mesma de carne... Vejam como eu arranco este botão...

Anselmo respondeu-lhe:

— Isso não prova nada. Estamos num mundo etéreo, como já estivemos no mundo físico. Esta casa já não existe na terra, mas na luz, e nós a seguimos através do espaço, como um dia seguimos a terra em direção à constelação de Hércules. Não é paraíso, purgatório ou inferno; é uma lei espiritual de causa e efeito.

"Quem planta uma semente colhe uma flor, um fruto, ou encontra, um dia, no mesmo lugar, um ramo de espinhos. As coisas só nos vêm às mãos quando já estamos acima delas e é por isso que muitos colocam a sua felicidade nas mãos alheias ou então num futuro remoto, quando a verdade é que ela sempre está em nossas mãos e a vida sempre começa, não no dia seguinte, mas no instante em que se pensa. As existências que nós desejamos são lições já aprendidas, sem lembrarmos de que cada dia traz o seu ensinamento e que cada página estudada é logo voltada. A maioria dos homens passa a vida num jardim da infância, são espíritos jovens, precisam de brinquedos e flores; mas os outros, que pensam e sofrem, estão já em pleno caminho da sabedoria e, à proporção que o nosso curso adianta, as lições se tornam mais duras. Mede-se a grandeza pelo sofrimento. Dante, Tólstoi, Cristo... Há um dia em que a felicidade se torna ridícula; um homem feliz é como um ancião que se diverte com um polichinelo. Nós temos de sofrer e cada vez mais, até nos colocarmos acima da dor; nesse dia, teremos alcançado a singeleza das crianças, conversaremos com os seres aparentemente inanimados e um raio de sol valerá mais para qualquer de nós que o trono de um rei.

Afonso Schmidt — Delírio, 1934


Fotografia: Martin Brigden

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