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quinta-feira, 7 de junho de 2018

Leituras de maio


Indo direto ao assunto, vamos às minhas obras comentadas do mês de maio de 2018, esse ano tão esquisito para o Brasil, com greve nacional dos caminhoneiros, Copa do Mundo e sabe-se lá o que mais vem por aí...:


ROMANCES:




Já começo com os dois pés na porta: eu não estava psicologicamente preparado para o turbilhão de emoções que é o final — especialmente depois dos 80% — de Mistborn vol. 2: O Poço da Ascensão. Que livro, senhoras e senhores, que livro esse tal desse Brandon Sanderson escreveu...! Aliás, acho que já posso dizer: que série! (Se ainda não sabe do que estou falando, leia este post sobre o primeiro volume.) É meio que ponto pacífico que o segundo volume de qualquer trilogia é, literalmente, intermediário — vai retomar pontas soltas do primeiro, assentar as bases da conclusão, desenvolver melhor personagens que brilharão no terceiro volume e, eventualmente, matar queridinhos dos fãs. No entanto, apesar do Sanderson fazer realmente tudo isso, ele apresenta (ao menos nas duas obras que eu li) aventuras bem fechadinhas, com arcos próprios, que não deixa a impressão de serem os volumes 2 e 3, na verdade, um único livro cortado no meio. O Poço da Ascensão tem personagens próprios e dilemas próprios, e é deliciosamente agoniante. A evolução de Vin, de Straff Venture e de OreSeur é enorme, mas quem brilha mesmo são os ótimos Elend e Sazed. Mal posso esperar pelo terceiro livro dessa "primeira era" de Mistborn, intitulada O Herói das Eras :D



Até o dia em que o cão morreu é o primeiro romance que leio do Daniel Galera, e me surpreendeu positivamente. Por coisas que li sobre o autor em alguns cantos da internet, imaginei que ele fosse daqueles autores "cabeçudos", que privilegiam a forma acima do conteúdo, com longas digressões e fluxos de consciência, parágrafos longos e pontuação incomum — ou seja, tudo o que eu não costumo curtir muito. No entanto, Galera apresenta justamente o oposto disso: texto simples, frases bem construídas, trama que faz sentido (hehe) e interessante... A única pena é que é um livro curto — mas, talvez, exatamente por causa disso, é redondinho e muito agradável. Agora, sim, estou animado e confiante para partir para o seu famosíssimo Barba ensopada de sangue.


* * *

COLETÂNEAS:


Para conhecer o James Joyce, antes de me arriscar no Ulysses, resolvi me aventurar pelos contos de Dublinenses. Realmente percebe-se que o experimentalismo ficou todo por lá. Os contos dessa coletânea são contidos, cotidianos, simples até. Apresentam facetas da vida na capital irlandesa no início do século XX, em cenas que privilegiam o que escapa aos olhos de uma visão desatenta. Que os leitores não esperem tramas rocambolescas e plot twists aqui; o que vão encontrar são detalhes íntimos dos personagens, relações interpessoais, dramas privados e recortes do dia a dia. É o meu tipo preferido de leitura? Não. Mas não nego que ler Dublinenses me fez repensar um tanto o modo como eu vejo a literatura — e, principalmente, o que é um conto. Ah, recomendo fortemente o último conto; é, disparado, o melhor.



Fico muito chateado quando me decepciono com algo que, ao meu ver, prometia tanto. Space Opera: Odisseias fantásticas além da fronteira final, organizado por Hugo Vera & Larissa Caruso foi assim: uma decepção. Não tinha como dar errado; adoro contos e adoro space opera, esse divertido sub-gênero da ficção científica. No entanto... honestamente, não encontrei nessa coletânea um único conto que merecesse mais de 3 estrelas. Aliás, deve ter um ou dois que eu cheguei a ter vontade de ler inteiro. Não há nenhum mal-escrito; contudo, todos apresentam tramas batidas, personagens e ambientações repetitivas (para não dizer quase idênticas), e praticamente nada de realmente novo ou inesperado. Não sei se sou eu quem esperava demais, mas não creio que possa ser culpado por não gostar de nada dali. Aliás, "nada" não — a capa é bem bonita.

* * *

CONTO:



Feliz natal é um conto interessante da escritora Patrícia Melo. Foi publicado na Amazon gratuitamente para chamar atenção para o volume completo da coletânea de contos da autora, intitulado Escrevendo no escuro. Na trama, temos uma faxineira limpando um laboratório de um cientista, que trabalha com cobaias, e os desdobramentos das relações rotineiras entre todos esses elementos. Tem um final com uma revelação incômoda, mas honestamente acho que podia ter mais... emoção? no desenvolvimento. Por ser bem curto, vale a leitura.

sexta-feira, 4 de maio de 2018

Leituras de Abril


Primeiramente, fora Temer. Segundamente, peço desculpas aos leitores do bróg por estar postando apenas esses posts de leituras do mês, e tão menos os posts, digamos, temáticos, ou monotemáticos, sei lá — mas vocês entenderam a ideia. É que está faltando tempo mesmo. Paciência. Mas, justamente por isso, esses posts “condensadões" são úteis; falo sobre todos os livros que quero falar e não deixo o blog morrer.

Esse mês de abril foi cheio de emoções, e nem todas elas boas. Li uns livros muito bons, descobri uma doença degenerativa na minha coluna, passei um final de semana num pesqueiro, terminamos — finalmente! —, eu e o Luís Beber, de escrever nosso livro em parceria (para lançamento em breve)… Enfim, vocês perceberam que realmente foi um mês de altos e baixos. E espero que os altos se proliferem e os baixos fiquem contornáveis :)

Mas vamos às obras do mês!


ROMANCES:



Que eu sempre gostei do Stephen King não é segredo, mas, mais uma vez, ele conseguiu me surpreender com Joyland. Dizem que não se deve julgar um livro pela capa, mas confesso que o que mais me atraiu nessa foi a ruiva que eu vim a descobrir ser a personagem Erin Cook. Essa ilustração, além de ser linda, muitíssimo bem executada, reflete perfeitamente a alma do livro — não que ela represente uma cena, exatamente, do romance, mas todos os elementos — e o clima — da ilustração são fidedignos ao que se encontra na história. Então, e a história? Vou contar a vocês que nunca imaginei que Stephen King pudesse ser tão… murakamesco. Quê?! Murakami e King na mesma frase? Sim! Olha que fantástico! Devin Jones, o protagonista de Joyland, poderia muito bem ser um personagem escrito pelo japonês — é melancólico, é uma boa pessoa, adora caminhar para aproveitar seus momentos de introspecção, é altamente mediano (mas com eventuais arroubos de protagonismo)… mas, apesar disso tudo, é um personagem cativante. Os coadjuvantes, como em qualquer obra do King, são adoráveis; bem-construídos e realistas — tanto que, lá pela metade do livro, eu me pego pensando: “que merda… esse é um livro do Stephen King… logo, logo, alguém vai se foder grandão… alguém ou todo mundo… vai vendo…" — mas, incrivelmente, não! Não estou dando spoiler; estou só dizendo que esta não é uma história típica do Stephen King! Arrisco mais uma vez dizer que é uma história que Haruki Murakami escreveria se fosse obrigado a escrever um thriller. Então, acreditem no que eu digo: o mestre King sempre surpreende. Leiam sem receio.



Mais uma vez, outro que deixei passar o hype para ler o Guerra do velho, e posso dizer com toda a tranquilidade: QUE LIVRO FODA. A começar pela capa, que vende exatamente o que a história é. Passando pela escrita do John Scalzi, que é leve, fluida e sem grandes pretensões. Continuando pelos personagens, que são cativantes e bem construídos (só acho que o protagonista é sortudo até demais…). E culminando na história, que, basicamente — e o autor não esconde isso de ninguém — pegou a ideia apresentada em Tropas estelares e a ampliou para um universo interessante, variado e coeso, com adendos de incrível criatividade. Guerra do velho pega o que foi consolidado com as grandes space operas do passado e entrega uma história moderna e deliciosa. 'Bora pro próximo livro, o As Brigadas Fantasma :)



E, enfim, a trilogia Comando Sul do escritor Jeff VanderMeer termina, com o romance Aceitação… e eu tenho algumas considerações tanto do romance quanto da trilogia em geral — e, inclusive, do filme Aniquilação. Mas, Rahmati, do filme também? Sim, porque o filme é um resumão da trilogia toda. Mas, antes, ao que interessa: esse terceiro volume é tão bom quanto o primeiro, ou mesmo tão razoável quanto o segundo? A resposta é simples: não. E talvez o culpado disso seja o filme. Vejam bem, não estou dizendo que os livros são ruins. A história toda é uma das coisas mais estranhas que eu já li — aliás, essa seria uma boa definição das duas mídias, livros e filme: é uma grande história de estranhamento com momentos de terror. Só que, enquanto o primeiro volume te introduz num mundo original para caramba, o segundo monta as bases e o terceiro dá os toques finais — porque não dá explicações, coisa que o filme faz. O problema é que os livros, falando do Autoridade e do Aceitação, enrolam demais. Dava, com folga, para ter feito um único livro, lá com suas 450 páginas, mas que fosse mais direto ao ponto, assim como o filme fez. Então o filme é uma boa adaptação? É! Porque tudo o que tem no livro está lá de alguma forma (e aqui vão os spoilers de ambos): o bicho que grita, que foi transposto para o urso decomposto; o duplo do faroleiro, que virou o duplo do marido da bióloga; o rastejador, que se transformou no alien do final… Só não gostei do filme ter entregado a origem da Área X na primeira cena, mostrando o meteoro. Mas… e o personagem John Rodriguez, o Controle? Sério: o que ele fez no livro? Serviu para quê? Não fez falta nenhuma. Em resumo: eu explico a Área X para mim mesmo como uma espécie de câncer do planeta. No filme, é aquele câncer que mata rapidamente; no livro, é o que mata aos poucos.



Comentários nesse post :)


* * *


CONTO:


Mais um ótimo texto do Leonel Caldela, esse conto O cão é bem-escrito, denso, dramático e impactante. É uma história de fantasia que dialoga com outras obras do autor, como O código élfico e O caçador de apóstolos, mas não creio que se passe realmente no universo de alguma delas. É mais como uma “realidade alternativa", acho (coisa que gosto de fazer nas minhas obras também; todas têm elementos umas das outras). Para não variar, Leonel é brutal com seus personagens — e, aqui, isso se reflete principalmente no final, porque, apesar de eu imaginar que havia alguma coisa ali, eu jamais poderia esperar aquilo. Mais um ponto para o Caldela, e espero ansiosamente sua próxima obra que não for da série Ruff Ghanor.

domingo, 4 de fevereiro de 2018

Meu plano sombrio


Quem leu O arquivo dos sonhos perdidos pode ter percebido que, em certo momento, o grupo dos protagonistas se separa… e não vemos o que acontece com os que permaneceram no grupo principal, na Itália.

E é justamente o que acontece nesse momento que é relatado no conto My shadow plan, publicado pela editora Draco ainda antes da publicação do romance.


My shadow plan é um conto de fantasia urbana, mas também é um conto de investigação. Na cidade amaldiçoada de Agliana, onde não para de chover há muito tempo, a filha do Regente está desaparecida, e há indícios que um membro da Câmara esteja envolvido. Como não puderam passar direto pela cidade, cujas estradas estavam interditadas por uma espécie de “ninguém entra ninguém sai" decretado pelo Regente, desesperado, os membros do grupo — os protagonistas de O arquivo dos sonhos perdidos — fazem um trato com o militar responsável pela segurança da cidade: ajudar, como puderem, na solução do mistério, e, após isso, serem liberados para prosseguir com a viagem.

Obviamente, as coisas não se resolvem tão facilmente; o clima na cidade é denso, pesado — e não estou me referindo somente às condições climáticas... ainda que seja de se esperar que, numa cidade em que não se vê o Sol, as emoções se concentrem na porção negativa do espectro. Além disso, o protagonismo dessa vez não é centrado em Jess Laguna, o “ponto de vista central" de OAdSP; acompanhamos a narrativa da investigação mais sob os olhos e ações de Roy MacNamara, o enorme maori, e seu novo aliado, o decurião Maurillion.

Mas, Rahmati, eu preciso ter lido O arquivo dos sonhos perdidos para ler My shadow plan? Não :D

Aliás, esse conto é uma excelente porta de entrada para o mundo de Acqua, que é onde se passam ambas as aventuras, e serve como uma boa avaliação, tanto do meu estilo de escrita quanto do universo da trama — e por uma fração do preço e do tempo de leitura que você gastaria no romance :)


quinta-feira, 31 de agosto de 2017

Glamour, de Alexey Dodsworth


Alexey Dodsworth não decepciona, não me canso de dizer isso. Disse na minha resenha de Dezoito de Escorpião, disse na de Extemporâneo, digo nessa agora de Glamour, o terceiro lançamento do autor no ano de 2016 — nesse ano, também saíram a segunda edição de Dezoito e O esplendor, ambos pela editora Draco. Glamour, no entanto, foi lançado como independente, e fico curioso em saber por quê... apesar de ter uma suposição sobre o o motivo:

Imagino que seja por causa do quanto essa obra seja fora da casinha, surtada, ousada e cheia de quebras de preconceitos para esfregar na cara da sociedade tradicional. Talvez seja por isso. (Só espero que ele tenha partido para a publicação independente por conta própria, e não que tenha sido rejeitado por editoras por esse motivo...)


Vamos começar, então, pelas protagonistas. Sim, “pelas"; são três mulheres.

A primeira delas é a Nemy–Z, uma drag–queen de uns 2 metros de altura, que está sempre montada. Outra é a Leonor, idosa e esposa de Nemy–Z, que luta contra um câncer terminal. E a terceira é Cassandra “Cassie" Johnson, a — segundo absolutamente todos, linda — filha transgênero de cabelos azuis das duas (e que me trouxe muita alegria ao aparecer na obra, já que ela também é protagonista de Extemporâneo — ou uma versão dela de outra realidade —, e é muito carismática).

A questão é que as três não são “só" isso, hehe. Leonor tem a voz, que torna impossível não obedecer a qualquer coisa que ela comandar; Cassie tem visões do futuro de fatos e de pessoas; e Nemy–Z parece ter algo em si muito maior do que isso tudo (e a revelação de seu poder, no fim do livro, me parece ser um dos bons motivos para o livro ter saído independentemente). Além disso, as três têm um grupo pop cover chamado As Iluminadas de Thanateros, são complexas e indistinguíveis de seres humanos reais, com suas qualidades e defeitos. Tá bom ou quer mais?

Então tem mais.

Os vilões também são memoráveis. Dentre eles, um candidato à presidência ultra–conservador chamado Jairo Volpi e um cadeirante misterioso mas, ainda assim, que rende cenas muito divertidas. Aliás, a escrita do Alexey é fantástica — fluida, cheia de surpresas e com momentos muito bem amarrados. Só senti um pouco de falta, no final, da reaparição ou mesmo da menção de um personagem que tem uma “conclusão" no fim do primeiro ato, mas aí também já pode ser o próprio autor quebrando minhas expectativas e fugindo do clichê, haha.

Outra coisa que me agrada nos livros do Alexey é a costura que ele faz entre eles. Todos têm elementos uns dos outros, personagens, menções ou mesmo temáticas que giram em torno de um “Sol", mas mesmo assim nada é repetitivo ou previsível, muito pelo contrário. Como (acho que posso dizer com certa segurança) ele trata de universos paralelos, cada realidade que ele nos traz é única e, à sua maneira, incomodamente próxima à nossa dos piores jeitos possíveis.

Nota 5 de 5, fácil. Dá mesmo vontade de ler tudo de novo para brincar de encontrar os elementos comuns.

Acho que vou fazer isso.

Mas, antes, vou ler o livro que falta, O esplendor.

Aguardem novidades :)

segunda-feira, 8 de agosto de 2016

Contos do Dragão: Paid in full


"Ainda me lembro que, naquela hora, somente um toque do aparelho foi necessário para que eu o atendesse. “Como vai, senhor Cronin?”, eu vi o homem dizer, sorrindo, sórdido, um sorriso de canto de boca. “Calma, calma, tudo está bem, sua linda esposa está bem, por enquanto”, ele continuou. Da primeira vez, eu só o ouvi, e então o estava vendo. Lembro-me, contudo, Agatha, exatamente de todas as palavras, nas duas vezes que as ouvi. Você não imagina quantas vezes eu as repeti em minha cabeça!, antes e depois de… Enfim. Ele continuou. “Mas não estou gostando de sua demora, sabe como é. Hoje em dia, a polícia demora muito a atender pedidos de socorro, não é mesmo?” 
Percebi que você me ouviu gritar do outro lado da linha; eu mesmo ouvi, dali. O sequestrador sorriu. “Não sejamos tão grosseiros, meu amigo”, ele disse. Ele sempre me chamou assim, e eu sempre senti o mesmo asco quando o ouvia, e ainda sinto. O mesmo asco que senti quando vi que ele corria a ponta da arma pelo seu rosto, pela sua nuca… Isso eu não soubera, antes. Você riria de mim se visse como eu maldisse a minha impossibilidade de agir, da mesma forma que sempre ria dos meus ataques gratuitos de nervos. “Você deve prezar pela integridade de sua mulher… Ou da maior parte dela”, ele disse, exatamente quando atirou em sua perna. Nem nessa hora você gritou, minha brava esposa… Curioso, eu não me lembro do que disse para que ele reagisse assim, das minhas falas eu nunca me lembro. Certamente, alguma estupidez, daquelas que eu sempre digo. 
E enquanto você desmaiava, em silêncio, eu gritava no telefone, e gritava assistindo à cena, impotente, e confesso que ainda grito à noite, às vezes, quando acordo após sonhar com aquilo tudo."

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sexta-feira, 5 de agosto de 2016

Contos do Dragão: Nil


"— Não quer olhar ao redor, Nil? — perguntou Yas, e era a primeira vez que falava depois da entrada na Região Além. 
Nil apenas assentiu com a cabeça; não desejava realmente fazer aquilo, mas não podia deixar de atender a uma ordem de Yas — além de sua casta não permitir, ele também não o desejava. Abriu suas quatro asas e ergueu-se no ar rapidamente, com um zumbido agradável, do qual sempre foi alvo de elogios dos mais velhos, que sempre costumavam dizer, nostalgicamente, que os jovens já não eram tão elegantes quanto antes. Deixando Ref com um olhar de preocupação, Nil finalmente venceu a copa das flores e ultrapassou as gramas mais altas. Apesar de aquela altura toda lhe dar vertigem e ele realmente não desejar olhar, viu o mundo que se desdobrou ao seu redor."



terça-feira, 2 de agosto de 2016

Contos do Dragão: Aquecimento global (Em fogo alto)


"Sentada no banco da praça, num canto onde não havia tantos cadáveres, eu olhava para a vacuidade do mundo. Como se meu cérebro se recusasse a pensar em alguma coisa mais prática, a única coisa que me vinha à cabeça era que logo, logo, aqueles cadáveres iriam começar a feder e com certeza não seria possível escapar do cheiro. Naquela hora da tarde, a luz solar, aquela mesma, que dizimara sonhos e projetos e amizades e amores, lançava uma quentura acalentadora no mundo, alongava sombras até seus limites e pintava tudo com uma paz etérea e ao mesmo tempo permanente, típica das coisas que vão ficar para todo o sempre e que não vão se importar com o que se pensa delas. E, falando nisso, eu não vou mentir que me importava com todas aquelas pessoas mortas — eu não me importava. Estava até feliz em estar sozinha. Por muitas vigílias eu pedi por isso."

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segunda-feira, 1 de agosto de 2016

Contos do Dragão: My shadow plan


“Desde o início da “maldição” — e assim era como seus próprios cidadãos a chamavam —, muito poucos viajantes passavam por Agliana por escolha própria, e muitos, quando o eram obrigados, se benziam com o gesto característico de seus deuses ao entrar e ao sair da cidade. O sol não chegava ao interior daqueles muros, e as pedras cinzentas, com as quais toda a cidade era construída, só ajudavam a tornar ainda mais deprimente o clima da urbe. A única iluminação das ruas era a artificial, e, ainda assim, muitas ruas pareciam muito mais escuras do que poderia ser considerado seguro. 
Seguindo a viatura do decurião Maurillion, Yan dirigiu sua van por várias ruas escuras, frias e úmidas, até que chegaram à residência do regente Dragan. Como a grande maioria das casas da rua, a do regente não tinha nada de especial; era feia, de dois andares, espremida entre as outras, como se todas estivessem lutando pelo seu próprio espaço. 
Com duas batidas secas à porta, Maurillion foi atendido pelo mordomo do regente, com a hospitalidade típica dos habitantes da cidade amaldiçoada — sem uma única palavra, ele deixou a porta aberta e virou as costas para os cinco visitantes. 
— Suponho que isso signifique que podemos entrar, nos sentir em casa e que estão todos muito felizes em nos acolher, certo? — perguntou Jess. 
— Vá se acostumando, meio-celta — respondeu Maurillion. — Aqui não receberá tratamento diferente." 
(...)

“Juntamente com seus dois investigadores da legião, acompanhou-os até a casa de Nimatore o chefe da polícia de Agliana. Sob a chuva lúgubre, pararam defronte a uma suntuosa mansão, com um jardim que certamente fora belo nos dias em que o Sol visitava a cidade, há décadas atrás. Andrea Maurillion chamou, bateu com o cabo de seu gládio no metal do portão, mas não foi atendido. Não se notava movimento na residência, e nenhuma luz estava acesa. 
Após algumas tentativas, o decurião perdeu a paciência. Preparou-se para arrombar o portão, ornado com um grande “N” duplo, esculpido em cobre ou assemelhado. Foi impedido, entretanto, por uma voz rouca e levemente sibilante, vinda de trás dele. 
— Não desperdice suas forças, soldado. 
Virando-se, Yan, Roy, Jess e Lavínia viram se tratar do conselheiro guaír que viram na Câmara mais cedo, e que ainda estavam com as vestes oficiais. 
— Conselheiro — disse Roy. — Está nos seguindo? 
— De certa forma — disse ele. — Sabia que, se fossem bons, chegariam a esse resultado — completou. Cada palavra que dizia com o fonema “s” soava como se fosse “sh”. 
— Sabia que viríamos aqui? — perguntou Lavínia. 
— Digamos… que eu saiba algumas coisas que vocês não — disse o guaír. 
— Nimatore não está aqui, não é? — perguntou Yan. 
— Não. Mas posso dar uma boa explicação… se vocês me acompanharem."


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domingo, 31 de julho de 2016

Contos do Dragão: Kamerorkester


"Então é isso, pensei. Foi minha revelação. O meu "eu" no espelho parecia agora o policial — surgia nas minhas costas a mesma sombra que envolvia aquele homem que se convertera num hidrante de sangue. Eu era um anjo negro, com asas retorcidas que se dobravam e se contorciam e me engolfavam, exatamente como as dele. Antes, eu sofri muito até descobrir que somente eu via aquelas coisas, mas apenas naquele momento eu percebi o que aquilo significava. 
Se eu fosse um cara diferenciado, teria tido uma iluminação divina, um insight, e teria decidido mudar minha vida, ajudar os outros... Mas a única coisa que realmente pensei naquele momento foi: Cara, vou ganhar muito dinheiro com isso. E ganhei mesmo. 
Estudei melhor minha habilidade — o dom que Deus ou o Demônio me deram —, até que eu pudesse entender cada nuance, cada variação das sombras, e procurei meu primeiro "cliente" assim que acabou a época da escola — o prazo que me dei para ambos os estudos. Não foi necessária muita análise; os telejornais mostraram as complicações que o delegado estava enfrentando com criminosos — ou, numa interpretação mais realista, a sua incompetência em negociar com os bambambãs da cidade —, então ficou claro o meu primeiro objetivo: voltar à delegacia."

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terça-feira, 22 de setembro de 2015

Imaginários vol. 3, organizado por Erick Santos Cardoso


O volume 3 foi o primeiro das incríveis coletâneas Imaginários da editora Draco que consegui ler. Como os outros volumes, são contos de fantasia, ficção científica e terror, sempre de autores nacionais — como é o procedimento dessa editora. Achei o resultado desse volume muito positivo, e, no geral, fui surpreendido! Assim, sem mais enrolação, vamos às (breves) análises dos contos.



1.º: A torre das almas, de Eduardo Spohr.
Um conto passado no universo ficcional de A batalha do Apocalipse, do autor. Mostra uma aventura curta, com a solução de um "caso policial" pelos celestiais infiltrados no mundo físico — mas sem emoções e sem fatos intrigantes. Como esse volume 3 é de 2010, espero que o autor tenha melhorado também sua escrita depois disso, porque tem muito tell e pouco show (da pérola estilística "show; don't tell" — mostre; não conte). Dava para ter contado tudo o que ele queria contar sem tanta explicação gratuita, mas... De qualquer forma, serve como introdução ao seu universo. E para mim já foi o suficiente.
Nota 2 de 5.

2.º: Um breve relato da ascensão do Papa Alexandre IX, de Marcelo F Assami.
Um conto interessante. Bom. A narrativa de uma sucessão papal nada convencional (ou seria...?), com um algo a mais. O escritor mostra bastante ao invés de contar, e isso é ótimo. Dá a sensação de que estamos deixando passar algo despercebido. Interessante também ele usar os sobrenomes de escritores (inclusive o dele próprio) para seus personagens; apesar disso ser bastante feito por aí (até eu já fiz), sempre é legal.
Nota 3 de 5.

3.º: As noivas brancas, de Rober Pinheiro.
Um conto muito legal. Uma aventura de resgate, num cenário de ficção científica, com toques de psicodelia engraçadíssimos. Vale ressaltar que Rober escreve muito bem.
Nota 3 de 5.

4.º: Bonifrate, de Douglas MCT.
Conto de ficção científica muito bom! O autor conseguiu aqui, nessa releitura de um conto popular, criar um mundo muito mais interessante do que o da outra outra que li dele, Necrópolis. Lembrei-me de um filme de que gostei muito — o Inteligência artificial —, então isso deve ter ajudado na apreciação da obra. Muito bem escrito também.
Nota 4 de 5.

5.º: Dies irae, de Lidia Zuin.
Conto de ficção científica regado a drogas e perseguições. Escrita muito boa; uma protagonista sem chance de redenção ou ajuda possível; um final, pelo menos para mim, enigmático — e, não sei bem dizer por quê, mas histórias sobre a decadência humana são sempre atrativas.
Nota 3 de 5.

6.º: Vida e morte do último astro pornô da Terra, de Marcelo Galvão.
Conto compacto e excelente! Criativo na forma e com uma virada interessante no final; muito bem escrito e com um tema mais profundo do que aparenta. Apesar do nome... suspeito, digamos, é o melhor conto da coletânea.
Nota 5 de 5.

7.º: Corre, João, corre, de Cirilo S Lemos.
No começo, dá de se pensar onde estará o elemento fantástico desse conto, mas tudo muda do meio para o fim, quando a história dá uma guinada e o ritmo, que já estava agitado, se torna frenético e agoniante. Ótimo. Não podia ser diferente; quando vi que seria uma história desse autor, já imaginava que não ia me decepcionar.
Nota 4 de 5.

8.º: Uma segunda opinião, de Fernando Santos de Oliveira.
Um conto de vingança estudantil, com um "quê" de Carrie, a estranha. A escrita é, claramente, de um autor iniciante (tanto que sua biografia ao fim do livro não cita outros títulos), e o tema não me prendeu; achei até meio bobinho, inocente. Esse é o mais fraco da coletânea.
Nota 2 de 5, porque o final foi interessante e diferente do que esperava.

9.º: Maria e a fada, de Ana Cristina Rodrigues.
Conto interessante, bem escrito, com uma ambientação medieval que me agradou bastante. Tem uma aura mágica e o jeito da autora contar a história ajudou muito na trama relativamente simples.
Nota 3 de 5.

10.º: O primmeiro contacto, de Fábio Fernandes.
Conto muito criativo na forma — o autor escreve como não fosse ele o autor do conto; como se este tivesse sido encontrado num sebo, escrito por um suposto Dr. Eleutherio Penna Filho, pseudônimo de um artista desconhecido, no ano de 1929 —, mas nem tanto na trama. Ok, o conto tem que ser encarado como se tivesse realmente sido escrito antigamente, então a trama está adequada — até mesmo a "inocência" relativa às viagens espaciais é justa, porque faltariam ainda décadas para o início das aventuras espaciais da humanidade. A ortografia também simula a escrita antiga; no entanto... as contruções frasais não convencem. Não sei dizer por quê, mas o... linguajar?... estilo?... algo me incomodou. Talvez seja o estilo mesmo; os "cortes" da cena parecem muito modernos, muito dinâmicos. Antigamente as narrativas eram mais lentas, mais descritivas, menos cinematográficas... Enfim; de qualquer forma, é um conto muito bom para o que propõe. Usa personagens históricos (outro recurso que também acredito ser mais moderno do que clássico), mas acho que acabou faltando um pouco de emoção na trama.
Nota 3 de 5.

No final, posso dizer com tranquilidade que a coletânea vale o que custa — e deixa o leitor com vontade de ler os outros volumes. Acho que vale um 3,5 de 5 de nota final :)