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sexta-feira, 10 de fevereiro de 2017

Conto: Uma recorrente decepção


Escondido num canto, ouvindo a respiração pesada e os passos trovejantes do monstro, ele evitava pensar no pior. Era inevitável, claro. A cada resmungo, a cada irritação, a cada soco em algo ou em alguém o teto sobre ele tremia e pó descia sobre seu chapéu. Fora ele quem se prontificara a —não; na verdade, quem insistira em— ir atrás dela. Não que não confiasse no Escolhido, mas podia confiar desconfiando. Se recusava ao raciocínio fácil de que isso implicava ficar esperando e torcendo apenas. Claro que havia um ou outro que ajudava mais ativamente, mas, ainda assim, dependiam exclusivamente do sucesso dele; se ele parasse, todos parariam junto.

Menos ele.

Os guardas esqueléticos passaram, lanças pontiagudas em mão. Ele tinha uma janela de poucos minutos antes que voltassem, então se lançou para fora do esconderijo. O ar estava quente e úmido, difícil de respirar. Correu o mais rápido que suas curtas pernas permitiam, evitando encostar nos dutos metálicos que fritariam sua pele ao menor resvalo. O líquido quente como lava corria em direção às máquinas infernais que eram construídas em segredo nos andares do subsolo, atraentes para o seu intelecto e seu senso investigativo, mas sua prioridade era clara, e ele não podia se desviar dela. Não agora, ao menos.

Quase não conseguiu passar a tempo de não se esturricar na armadilha giratória, automática quando os guardas não estavam por perto. Queimou uma beirada da jaqueta, mas conseguiu se jogar por baixo da morte que descia em sua direção, escorregando pelo chão e ralando as costas. Ao menos estava agora no último setor da fortaleza.

Era impressionante como até os guardas tinham medo do chefe, pensou, sorrindo (mas de nervoso) — aquele setor estava praticamente deserto. Pelo duto do teto em que ele descera, podia perceber que só haviam dois guardas, e no extremo oposto ao reduto do chefão, o mais longe possível dele. Sabia que o todo–poderoso do mal tinha sua entrada secreta para o próprio salão, mas, pela agora ausência de gritos e tremores, parecia certo que ele não estivesse lá.

Aproveitou–se de um curto instante em que os guardas não estavam olhando e deixou–se cair no piso de pedra cinzenta, ocultando–se em uma reentrância. Ele conhecia o mapa da fortaleza, então esgueirou–se pelo chão irregular, que emulava uma caverna natural. Arrastou–se os últimos metros e pendurou–se por debaixo da ponte que dava acesso ao salão final, suando em bicas porque, afinal, como todo bom dragão do mal o tal gostava de reforçar a mensagem — e nada melhor para isso do que cercar seus aposentos com um lago daquele líquido parecido com lava. Chegou ao final extenuado, mas não podia perder tempo. Saltou para a plataforma onde ficava a enorme porta de madeira e ferro, mas… não havia nada visível que a abrisse. Escondido, quase perdeu as esperanças, mas acabou deixando o pânico dar lugar a uma risada genuína — tinha se lembrado de que o mecanismo para abrir a porta estava oculto na estrutura do final da ponte. Levantou–se para avançar novamente até lá… e derrubou a lanterna que estava no bolso interno da jaqueta. Prendeu a respiração, mas como ele não estava lá, podia…

“O QUE FOI ISSO?!”, grunhiu o “ele”, facilmente audível do outro lado da colossal porta. O susto fez com que o infiltrado paralisasse. Alguém respondeu algo, mas essa fala não foi inteligível. O infiltrado até respirava com cuidado. “É ÓBVIO QUE É UM BARULHO, IMBECIL.” Apesar da voz de trovão, ele não estava gritando, nem vindo abrir a porta para checar. Estaria… preocupado? Teria o Escolhido chegado, já? O infiltrado olhou ao redor, mas não viu nada que o sugerisse. “LEVE–A”, ouviu novamente. “EU MESMO VOU… CUIDAR DISSO.” E a porta se abriu, rangendo como estivesse sendo arrancada das profundezas. O infiltrado mal teve tempo de se jogar de lado antes que o imenso dragão passasse por ele. Ficou ali, de guarda, na ponte, de costas para ele. Uma ideia então passou pela cabeça do infiltrado: e se…?

Jogou–se por debaixo da porta no último instante, preparado para lutar com o que quer que o aguardasse ali, mas tudo o que viu foi o vestido dela desaparecendo por uma passagem secreta, que se fechou na parede de pedra. Tateou, esmurrou, mas nada aconteceu — ela se fora. Tão próxima… Já ouvia os sons da luta do lado de fora, mas que diferença fazia? Sentou–se no chão, apenas, respirando, de olhos fechados, reunindo os cacos…

Mas esses cacos eram orgulhosos. Ele não daria ao Escolhido a satisfação de descobrir que ele também tinha chegado atrasado. Que esse peso fosse maior para o Escolhido. Encontrou o grande saco que fora usado, certamente, para raptar a princesa, e meteu–se lá dentro. Depois que o rugido foi ouvido, depois que a porta foi erguida, e depois que o saco foi aberto, suas escoriações e rasgos confirmaram o panorama.

— Obrigado — disse então, vendo a decepção nos olhos do Escolhido. — Mas nossa princesa está em outro castelo.



domingo, 5 de fevereiro de 2017

Um trecho marcante de José J Veiga


“Acontece que nem Esmeralda nem Horaciano estavam perdendo o sono por causa das leituras de César. Que muito alegravam também a tia Basília. Que adianta a pessoa aprender a ler para depois virar as costas aos livros? Basília mesma tinha em casa uma estante com livros misturados, história, psicologia, política, biografias, arte, literatura de Machado de Assis a Guimarães Rosa, e alguns estrangeiros em tradução. Por enquanto não ia passar esses livros a César, eram adultos para ela e poderiam indispô–la contra bons autores. Bastava por enquanto que César conservasse o gosto pela leitura; a qualidade viria na época certa. Ela mesma, Basília, lera M. Delly e Henri Ardel, e gostara. Porém Basília achava também que a leitura não devia preencher todo o tempo livre das mocinhas. A moça que não sabe bordar, tricotar, costurar, fica uma mulher incompleta. Você não acha, Horaciano? 
Horaciano não achava. Para ele, ensinar todas as meninas a bordar, a tricotar etcétera era uma norma do passado. Hoje há muitas outras ocupações que as mulheres podem desempenhar. As que tiverem preferência para as chamadas prendas domésticas, que se dediquem. E bom proveito. O que não cabe mais em nosso tempo é querer perpetuar a divisão do trabalho, pela qual se estipulou não se sabe quando nem por quem, que umas atividades são próprias de homem, outras de mulher, e estamos conversados. 
— Eh, qualquer dia desses você está aceitando que a sua filha vá ser, digamos… mecânica de automóvel — disse Basília. 
— Ora, se for da vontade dela… 
— Espere aí, Horaciano. Nem tanto ao mar, nem tanto à terra — disse Esmeralda. — Imagine a nossa filha lambuzada de graxa até os cabelos, e com aquele gorrinho de farricoco na cabeça. Faça–me o favor! 
— Bom, não é profissão para dondoca. Quanto ao gorro, imaginosa como é, ela poderá inventar outra cobertura para proteger o cabelo da graxa e da sujeira do chão da oficina, onde terá de se deitar para mexer nos carros por baixo. 
— Está vendo? Se ela ficasse em casa fazendo o seu tricô, o seu crochezinho, estaria sempre de mãos e cabelos limpos, de banho tomado e cheirosa — disse Basília. — Qual o rapaz vai olhar para uma moça besuntada de graxa e de unhas pretas de fuligem de motor? 
— Os empregados da oficina vão olhar. E os donos dos carros também — disse Horaciano. 
— Que horror, Horaciano! É isso que você quer para nossa filha? Eu sou contra. Não aprovo mesmo — disse Esmeralda. — Me admira você com essas ideias. 
— A ideia não terá sido minha, mas dela. 
— E se ela vier com essa ideia você aprova tranquilo — disse Esmeralda. 
— Nem tranquilo nem aflito. Apenas respeitando. 
— Quer dizer que se César pender para trabalho de homem, e dos mais brutos, você não move uma palha para impedir? — perguntou Basília. 
— Ah, esse não move mesmo. Se César quiser ser amansadora de cavalo, peão de obra, motorista de carreta, soldado de polícia, ele está aí para aprovar — disse Esmeralda. 
— Aprovar não. Aceitar. Pode–se aceitar uma coisa sem aprovar. Este seu café, por exemplo.”

José J Veiga — O risonho cavalo do príncipe, 1992



quarta-feira, 1 de fevereiro de 2017

Eu quero a imortalidade


Este, certamente, será o post mais pessoal que já escrevi aqui. Outrora, os blogs funcionaram mais como um diário; agora, têm mais conteúdo do que divagações. Vamos resgatar esse antigo aspecto então aqui, porque existe um assunto que o episódio San Junipero, de Black Mirror e, consequentemente, o episódio 272 do AntiCast, me fizeram refletir mais do que nunca:

A ideia de finitude me aterroriza.

Será por isso que escrevo? Para permanecer no mundo, após o meu tempo de vida? Creio que não. Talvez eu deva, então, assumir: escrevo porque gosto de escrever. De criar histórias.

A questão é: quero ficar vivo para escrever histórias. E não só para isso. Quero sentir o vento, quero sentir o frio, e até o calor que odeio, quero ver a natureza, árvores, montanhas, rios, oceanos, quero ler, quero viver. Quero a imortalidade para isso.

Mas o que é a “imortalidade"? Permanecer nesse mundo? Ter uma “alma" para continuar, ou — e é aí que entra o episódio San Junipero — a vida é a nossa consciência? Se for, a vida em San Junipero é uma possibilidade de imortalidade? Vamos ser mais específicos: um escritor, que tenha sua consciência transferida para uma realidade virtual, indistinguível da “realidade real" em tudo, irá continuar criando, escrevendo?

Se você não viu esse episódio de Black Mirror, saiba que San Junipero é para onde as pessoas que não querem deixar de existir ao morrer vão — suas consciências são levadas para lá, através, digamos, de upload. Desculpem pelo spoiler.

E eu, particularmente, faria isso.

Religiosamente falando, não sei no que creio. Nem se creio em algo. Acontece que, vendo por esse viés, e levando em consideração a reencarnação, onde temos que voltar para viver todo tipo de coisa para evoluir, eu pergunto: viver para sempre não dá na mesma? Pense, você que está lendo isso: quanto a sua vida mudou nos últimos 10 anos? Provavelmente bastante. A minha mudou radicalmente. E o que isso seria, essa multiplicidade de vivências, ao longo de 500 anos? 1.000 anos?

Mas aí você pode pensar: Mas viver em um programa, uma realidade virtual, não oferece a mesma carga de experiências que o mundo real oferece. Sério mesmo? Quantas mudanças e reboots e remakes de tudo o que é virtual você viu nesses mesmos 10 anos? Inúmeras, não é? Então você acha que San Junipero continuaria mesmo igual para sempre?

Então não nos atenhamos a esse aspecto da imortalidade. Dizem que a pessoa que vai viver para sempre já nasceu, hoje em dia. Isso significa: a medicina está tão avançada que, em nossa geração, ou nessa nova, dos que nasceram por esses dias, haverá alguém que já não morrerá de morte natural. Acho isso possível mesmo. E espero que seja. Mesmo que com um corpo artificial. Afinal, nossa vida é nosso corpo, nossa mente ou nossa alma?

E, se você acha que viver eternamente é um saco, responda honestamente: você quer mesmo morrer? Se respondeu “sim", responda essa outra pergunta: É porque você não gosta de viver, ou porque tem medo de ficar velho, ou doente, ou definhar? Em uma realidade virtual, em um corpo artificial ou com uma medicina avançadíssima, isso não aconteceria. E, se você acha que realmente morrer é um fato natural, após algum tempo... Bem, isso deveria ser sempre uma escolha pessoal.

Eu escolho viver o máximo que eu puder.



quarta-feira, 4 de janeiro de 2017

Retrospectiva literária 2016


Esse post já está virando uma tradição — que ótimo! Assim sendo, pelo terceiro ano consecutivo, trago–lhes a minha Retrospectiva literária :D

E nessa, felizmente, eu não fui um mero leitor, um mero apreciador das obras alheias. Eu trouxe à vida muitas obras de minha própria autoria — algumas graças à editora Draco, uma graças à revista Trasgo, e outra, a que mais tenho orgulho, por minhas próprias mãos. É claro que estou falando dos meus contos Nil, My shadow plan, Kamerorkester, Paid in full, Aquecimento global (Em fogo alto), Noturno deserto e do meu romance O arquivo dos sonhos perdidos. É de uma alegria imensurável ver minhas obras coexistindo com todas aquelas que tanto me inspiram, mesmo que num degrau bem abaixo. Mas isso é o de menos.

No entanto, em 2016 eu também li bastante. Não tanto quanto em '14 ou '15, quando li 58 e 55 livros, respectivamente, mas estou certo que, em termos de qualidade, foi algo bem próximo. Vamos, então, à minha lista de leituras:

  1. A vida como ela é…, de Nelson Rodrigues;
  2. Iron man: Minha jornada com o Black Sabbath, de Tony Iommi;
  3. O aleph, de Jorge Luis Borges;
  4. O clone de Cristo vol. 2: Nascimento de uma era. de James BeauSeigneur;
  5. Diga meu nome e eu viverei, de Lady Sybylla;
  6. Cem anos de solidão, de Gabriel García Márquez;
  7. O escaravelho de ouro e outras histórias, de Edgar Allan Poe;
  8. Branca dos Mortos e os sete zumbis e outros contos macabros, de Fábio Yabu;
  9. A Torre Negra vol. III: As terras devastadas, de Stephen King;
  10. Harry Potter e o prisioneiro de Azkaban (releitura) e
  11. Harry Potter e o Cálice de Fogo (releitura), de J K Rowling;
  12. Na órbita de Aldebarã, organizada por Damon Knight;
  13. A cidade inteira dorme e outros contos, de Ray Bradbury;
  14. Forgotten Realms — O Vale do Vento Gélido vol. 1: A estilha de cristal, de R A Salvatore;
  15. Universo desconstruído: Ficção científica feminista, organizada por Lady Sybylla & Aline Valek;
  16. Sentimentos à flor da pele, organizada por Vilto Reis & Anna Schermak;
  17. Smoke and mirrors: Short fictions and illusions, de Neil Gaiman;
  18. Em algum lugar do passado, de Richard Matheson;
  19. Dias perfeitos, de Raphael Montes;
  20. Recruta Zero vol. 1, de Mort Walker;
  21. O castelo do homem sem alma, de A J Cronin;
  22. Trilogia dos pássaros vol. 1: O Templo dos Ventos, de Marcelo F Zaniolo;
  23. Brasyl, de Ian McDonald;
  24. Os melhores contos brasileiros de ficção científica: Fronteiras, organizada por Roberto de Sousa Causo;
  25. A lição de anatomia do temível Dr. Louison, de Enéias Tavares;
  26. As profecias de Urag vol. 1: O caçador de apóstolos, e
  27. As profecias de Urag vol. 2: Deus máquina, de Leonel Caldela;
  28. Habibi, de Craig Thompson;
  29. Cidade da penumbra, de Lolita Pille;
  30. Comando sul vol. 1: Aniquilação, de Jeff VanderMeer
  31. O cair da noite, de Isaac Asimov & Robert Silverberg
  32. Estranha Bahia, organizada por Alec Silva, Ricardo Santos & Rochett Tavares;
  33. Todos os fogos o fogo, de Julio Cortázar;
  34. Descongelado, de João Bourbon II;
  35. Grande irmão, de Lionel Shriver;
  36. A casa de vidro, de Anna Fagundes Martino;
  37. Blue Cup Cafe, de Shaneoli;
  38. A cidade & a cidade, de China Miéville;
  39. O sonho da sultana, de Roquia Sakhawat Hussain;
  40. Ovelha: Memórias de um pastor gay, de Gustavo Magnani;
  41. No sufoco, de Chuck Palahniuk;
  42. Hamlet, de William Shakespeare; e
  43. Especial natalino, de Clara Madrigano.
Por mais que eu não corra atrás de recordes, sempre espero fechar o ano com, pelo menos, um livro lido por semana, mas esse ano não deu — e estou certo que foi por causa das preocupações e preparativos com a publicação do meu próprio romance. Então valeu a pena!

Vamos então às premiações!


O MELHOR LIVRO INTERNACIONAL DE 2016:

 

Fiquei em dúvida entre esse e outro quanto a essa categoria e a de surpresa do ano (qualquer um deles se encaixaria bem em qualquer uma das categorias), mas acabei dando o título a essa maravilhosamente melancólica e estranha obra de Jeff VanderMeer. E a menção honrosa vai para o perturbadoramente incrível A cidade & a cidade. Esse foi, definitivamente, o ano do new weird para mim.


O MELHOR LIVRO NACIONAL DE 2016:

 

Para mim não é surpresa gostar de um livro do Leonel Caldela — só foi surpresa, e bastante, e das boas, o quanto eu gostei dessa obra…! Só uma palavra a pode descrever: INCRÍVEL! E a menção honrosa é óbvia, né.

Vamos, então, à tradicional premiação por gêneros, excluindo as obras acima.


O DESTAQUE DE FICÇÃO CIENTÍFICA DE 2016:

 

Em primeiro lugar, uma obra surpreendente — tanto em qualidade literária, em fator “grudar o leitor na cadeira” e em nível de pesquisa. Ian McDonald verdadeiramente destrinchou o Brasil para compôr sua obra, e eu adorei ver nosso país aqui representado. A menção honrosa vai para a ótima — e necessária — antologia Universo desconstruído, que tem umas pérolas escondidas lá dentro.


O DESTAQUE DE FICÇÃO FANTÁSTICA DE 2016:


Quem diria — eu, que não sou dos mais fãs da dita “alta fantasia”, escolher justamente um dos grandes clássicos do gênero como destaque… Elfos, anões, toda aquela coisa… Talvez tenha sido justamente por isso a surpresa boa: não ter esperado nada dessa obra. A menção honrosa… bem, foi a minha leitura beta, e dela eu falo quando puder ;)

Edit 13/02/17: E a leitura beta está revelada! O Marcelo anunciou, enfim, seu livro, e só posso dizer que estou ansioso pela cópia física. Eu sou o revisor dessa obra fantástica (em todos os sentidos), e tenho certeza de que ela vai estar na lista de “destaques do ano” de muita gente!


O DESTAQUE DE FICÇÃO REALISTA OU REALISMO MÁGICO DE 2016:


Não tem como essa obra concorrer em qualquer coisa que seja e não ganhar, não é? Só não levou o título de “melhor internacional” porque a que ganhou acabou mexendo mais com o meu emocional, mas Cem anos de solidão é qualquer coisa de notável na história da arte produzida pela raça humana.


E então temos A SURPRESA DO ANO DE 2016:


Que aventura gostosa foi A lição de anatomia do temível Dr. Louison! A trama é boa, a escrita é boa, a estrutura é boa… Enfim, já falei bastante da obra nessa minha resenha; então, tudo o que me resta dizer é que esse prêmio de surpresa do ano foi bem merecido!


Mas infelizmente também tem A DECEPÇÃO DO ANO DE 2016:


Não que nenhum dos dois tenham sido livros ruins, mas apenas entram nessa categoria porque não foram tão bons quanto eu esperava que eles fossem. Com o Grande irmão o problema foi o final; estava indo tudo muitíssimo bem (mesmo) até o final cagar tudo. E com O Aleph, é aquela merda da expectativa — eu esperava que fosse um outro O livro de areia.


Mas esse ano tem O PIOR LIVRO DO ANO DE 2016:


Desculpa aí. Não gostei, não foi para mim. Escrita arrastada, abandonei mesmo :P Agora o da menção honrosa eu li inteiro, mas é chatinho, chatinho…


E agora O MELHOR LIVRO DE CONTOS DE 2016:


Não tem como fugir desses, né? Gaiman e Bradbury são deuses. Apesar de eu ter lido ótimos livros de contos esse ano, realmente a disputa fica injusta quando esses dois estão na parada…


E agora vem O TOP 10 DE 2016!

  1. Comando Sul vol. 1: Aniquilação, de Jeff VanderMeer
  2. A cidade & a cidade, de China Miéville
  3. Cem anos de solidão, de Gabriel García Márquez
  4. Smoke and mirrors: Short fictions and illusions, de Neil Gaiman
  5. Brasyl, de Ian McDonald
  6. As profecias de Urag vol. 1: O caçador de apóstolos, de Leonel Caldela
  7. As profecias de Urag vol. 2: Deus Máquina, de Leonel Caldela
  8. O Vale do Vento Gélido vol. 1: A estilha de cristal, de R A Salvatore
  9. A cidade inteira dorme e outros contos, de Ray Bradbury
  10. A Torre Negra vol. III: As terras devastadas, de Stephen King

Então é isso, pessoal. Um feliz 2017 a todos :)


segunda-feira, 26 de dezembro de 2016

Um trecho marcante de Leonel Caldela & Deive Pazos


“Ozob começou a pensar no que faria com o resto do dia e, principalmente, com a noite seguinte. Seu estômago já fervilhava, ardendo. O peito parecia estar sob um peso enorme. Eram os sintomas da lembrança, já fazia algum tempo que estava sóbrio e não tinha algo para ocupar a mente. A noção dos dois anos de vida se aproximou dele por todos os lados, fechando–se a seu redor, provocando uma espécie de claustrofobia. Pensou em começar uma briga. Lutar era sempre algo estimulante. O coração bateu mais rápido e ele andou mais rápido. Ia para lugar nenhum, mas andar rápido diminuía a sensação de que os minutos estavam passando inexoravelmente e que cada um o levava mais para perto do fim. Ele não estava fazendo nada divertido naquele momento. Era tempo perdido. Era tempo que não iria mais voltar. 
Dois anos. 
Dois anos. 
Dois anos. 
Ozob achou que estava prestes a vomitar, o coração batendo forte na garganta, quando seus implantes neurais fecharam uma sinapse. Ele estava recebendo uma mensagem pelo EgoBliss, uma das seis redes sociais instaladas nos implantes cibernéticos em seu cérebro. 
Com um comando mental, verificou a origem da mensagem. California o havia marcado como amigo. Em sua mente, Ozob viu o rosto da garota, ouviu o timbre de sua voz, foi invadido por relances de memórias que eram dela. Deu um novo comando mental, para ler a mensagem. 
Assim como todas as redes sociais, o EgoBliss era recheado de propagandas. Cada relação interpessoal tinha seus próprios patrocinadores. A amizade com California era um patrocínio de Nux–Cola. Nux–Cola, o sabor da amizade! Para acessar a mensagem, Ozob permitiu que a marca de refrigerante enviasse um comercial diretamente aos centros de prazer em seu cérebro. Foi invadido pela vontade de tomar Nux–Cola. Então pôde falar com a garota, numa interação aprovada pelas duas corporações envolvidas. 
— Espero que você e a Vivika tenham se dado bem. 
— Vou precisar de uns curativos, mas foi divertido. 
Ozob mandou uma impressão de sarcasmo, que era uma imagem sua com um meio sorriso e uma sobrancelha arqueada. 
— Eu também me diverti ontem à noite. 
— Algum namorado ou namorada? 
— Na verdade, estava falando de você. Gostei de conversar com você. Se quiser falar mais sobre sua sentença de morte, estou aqui. 
A menina não tinha meias–palavras. Ozob gostava disso. Parou num boteco para comprar uma Nux–Cola (a vontade parecia mastigar sua mente) e recebeu mais uma mensagem antes de responder: 
— Temos outra missão hoje. Vamos agir de novo, antes que o DAA saiba o que os atingiu.
— Isso dá dinheiro? 
— Dá coisa melhor que dinheiro. 
— Você vai dizer que vão de novo espalhar a música do seu messias com dentes podres? 
— Hoje vamos a uma igreja com pregação antialienígena. Subsidiária da Loykos S.A. 
Era uma corporação que vendia comida processada. Mais especificamente, carne de alienígena. 
— O que vão fazer? 
— Vamos invadir a igreja, é claro! Vamos ver o horror nas caras daqueles fanáticos alienfóbicos. Se quiser ir conosco, vai ser divertido. 
— Acho que preciso de outro tipo de diversão, garota. 
— Tudo bem. Mas, se mudar de ideia, encontre–nos às 7 no Distrito Eclesiástico. Gostei de conversar com você. 
A imagem de California se apagou da mente dele. substituída por mais interferência da Nux–Cola em suas conexões neurais. O EgoBliss mais uma vez o lembrou que aquela amizade era patrocinada pela marca de refrigerante, fora possibilitada pela rede social e tinha sido aprovada pelo Conselho de Ética das Relações Humanas, outro órgão operado em conjunto por várias corporações. 
Ele comprou outra Nux–Cola e notou que estava sorrindo.”

Leonel Caldela & Deive Pazos — Ozob vol. 1: Protocolo Molotov, 2015

Ozob em ilustração de Marco Teixeira

terça-feira, 13 de dezembro de 2016

Links para a obra do Rahmati


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--------------------------------------------ROMANCES--------------------------------------------



Meu primeiro romance. Uma fantasypunk — uma fantasia com elementos de outros estilos, como ficção científica, fantasia urbana e história alternativa.
448 páginas, autopublicado, 2016. Sinopse:
O ano de 995 d.C. não será facilmente esquecido por Acqua.
Nesse ano, o clima enlouqueceu. Um demônio antigo causou genocídios na Índia, no Congo e na Finlândia. A Infinita Guerra entre os impérios do Japão e da América do Norte se tornou a Segunda Guerra Mundial, com a morte de milhares de pessoas em um grande evento esportivo no império da América do Sul. Os refugiados de Gaza viram seu lares serem varridos pelos ventos de morte de um espectro. E tudo isso acontecer no mesmo ano não foi, naturalmente, uma coincidência. O epicentro de todos esses eventos foi uma dezena de pessoas, coagidas a estar juntas, reunidas pelos deuses... ou por aquela força maior chamada de destino?
Talvez o ano de 995 devesse ser, na verdade, esquecido, ao fim de tudo.

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Meu segundo romance, dessa vez um de ficção realista. Lançado para concorrer no Prêmio Kindle.
187 páginas, autopublicado, 2017. Sinopse:
Ellijah descobre que gosta de fotografar ao ganhar de Lorena, sua esposa, um celular que tira fotos. E melhor ainda: ele percebe que tem tino para a coisa. Ao mesmo tempo, o português Maximilian surge em sua vida e se torna um amigo, ampliando, com seu modo diferente de ver o mundo, seus horizontes fotográficos. Mas esse é um “hobby” que toma dinheiro — e sua esposa começa a apresentar uma doença misteriosa. O dinheiro não será suficiente para cuidar de tudo, e Élli precisa escolher entre seu novo sonho — ser um fotógrafo de natureza — ou abrir mão de tudo por Lorena. O problema é que ele nunca foi muito bom em tomar decisões.

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------------------------------------CONTOS STAND–ALONE------------------------------------


Esse conto foi publicado avulso, num universo próprio — stand–alone — na Amazon, baratinho, para que os leitores possam conhecer minha escrita — e é um conto de FC pura, um dos poucos que eu escrevi que é “puro” em algum gênero.



-------------------------------------CONTOS EM REVISTAS-------------------------------------


Conto: Noturno Deserto


Um conto de fantasia, no passado longínquo do mundo de Acqua, palco de meu primeiro romance, e que saiu na revista Trasgo #10, em 2016.


•

Conto: Apreensão


Um conto realista, jogando luz num aspecto desagradável dos nossos dias atuais, que foi escolhido para integrar a primeira edição especial da revista Gueto, intitulada Civilização e barbárie.

Em 2017, esse conto ficou em 5.º lugar no Prêmio Cataratas de Contos e Poesias, dentre 562 contos concorrentes.



-----------------------------------CONTOS EM ANTOLOGIAS----------------------------------


Esses são os meus contos que saíram em antologias (ou coletâneas, como preferirem).

Conto: E tudo vai ficar pior


Publicado na primeira coletânea de contos do site Mitografias, chamada Mitos modernos, o conto E tudo vai ficar pior é outro excerto do mundo de Acqua, e se passa após os eventos de O arquivo dos sonhos perdidos e de sua continuação ainda não publicada.

Essa coletânea foi lançada em 2017.


•

Conto: Enquanto vagueio pelas cinzas do mundo


Essa foi a primeira coletânea dos contos que eu e o Lucas Rafael Ferraz publicamos no site Leitor Cabuloso em 2017. Assim, publiquei nela esse conto, que não sei se é de fantasia, horror ou suspense.



--------------------------------------CONTOS DO DRAGÃO--------------------------------------


Esses cinco contos foram publicados pela editora Draco, também em 2016.


My shadow plan é um conto fantasypunk; um capítulo extra do romance O arquivo dos sonhos perdidos, onde os protagonistas têm que resolver um mistério em uma cidade amaldiçoada, onde chove o tempo todo.




Nil é um conto de fantasia inspirado em Neil Gaiman, e quase uma fábula sobre como encarar a morte.




Kamerorkester é um conto de terror urbano, onde o protagonista deve escolher se vai se tornar o herói ou o vilão de sua própria história.




Aquecimento global (Em fogo alto) é um conto de distopia fantástica com um toque de comédia — e onde a protagonista descobre uma explicação curiosa para o calor que enfrentamos nesses últimos tempos.




Paid in full é um conto de ficção científica, onde o protagonista tenta uma nova chance para salvar quem ama.



-------------------------------------CONTOS NO WATTPAD-------------------------------------


Esses contos foram publicados em 2016 e 2017, e são para leitura gratuita. São contos pequenos demais para ser justo cobrar por eles, ou fanfics com personagens cujos direitos pertencem a terceiros.


Lugar nenhum é um conto de fantasia, também passado em Acqua, mundo do romance O arquivo dos sonhos perdidos, que é uma versão do nosso mundo — aqui, mais precisamente do Nordeste brasileiro.




Into blue é um miniconto que pode ser de fantasia, de ficção científica, ou outra coisa, onde o protagonista se vê numa situação inesperada... mas não indesejada.




Sob as brumas repousa o inominável é uma ficção distópica baseada no universo Pokémon, onde agora as batalhas pokémon são consideradas crimes de maus-tratos contra os animais — como agora eles são chamados.



1963 é um conto que imagina o que aconteceu no passado dos personagens do seriado Chaves, oito anos antes de eles irem parar na vila.




O dia perfeito é um conto de ficção distópica, mas não arrisco dizer o quanto no futuro, onde o protagonista vive seu dia mais esperado.



Milésimo é um miniconto introspectivo e, a meu ver, necessário.




Alameda Arnold, 31.967 é um conto que mostra as misérias na vida de um homem bem na época do Natal. Foi escrito para o concurso de contos de Natal do podcast Wattcast e ficou em 2.º lugar.



Uma recorrente decepção é um conto que imagina o porquê de um evento aparentemente sem sentido em um famoso jogo de videogame.

A distância e a espera é um miniconto de ficção científica sobre o amor altruísta, aquele verdadeiro, que não pede nada em retorno.



Falha crítica é um conto que explica um grande mistério atual: por que todas as adaptações de videogames para o cinema são, no máximo, assistíveis?


* * *

domingo, 4 de dezembro de 2016

Relendo Harry Potter – Livro 4: O Cálice de Fogo


Seguindo minha épica jornada de releituras de uma das maiores sagas literárias da modernidade, chegou a vez de falar sobre Harry Potter e o Cálice de Fogo.

Tenho a impressão que gostei mais da releitura do que da primeira leitura. Será que saber para onde as coisas estão indo ajuda? Porque me parece que é aqui que começam as maiores críticas em relação ao trabalho da J. K. Rowling — a enrolação das histórias. Tudo bem; essa quarta parte da saga mostra muitas coisas: da Copa do Mundo de Quadribol ao Torneio Tribuxo, passando pelo passado de alguns personagens, a apresentação de muitos outros e a volta de Voldemort. É onde se consolida a virada no clima da história, iniciada pelo terceiro livro, O prisioneiro de Azkaban. É onde as histórias do mundo bruxo começam a ficar mais maduras. No entanto… realmente tudo parece acontecer meio devagar.


De qualquer forma, tenho sentimentos meio contraditórios em relação a este livro. Tem partes muito boas mesmo, de ação, como na invasão dos Comensais da Morte na final da Copa do Mundo de Quadribol, ou todas as três tarefas do Torneio Tribruxo, ou até mesmo as que os personagens são desenvolvidos, como no baile… Mas entre tudo isso me parece ter bastante gordura sobrando.  Talvez aqui a sra. Rowling tenha começado a ter “liberdade editorial” demais — ou seja, o editor tenha começado a ter menos força do que ela ao praticar sua tarefa de cortar partes desnecessárias…

Não me entendam mal: não estou dizendo que a saga desanda a partir daqui; estou dizendo que ela poderia terminar com um 10/10 se os livros seguissem a mesma média de páginas do terceiro livro, por exemplo. Deve ser o problema das grandes obras — excesso de palavras, rs, assim como O senhor dos anéis.

De qualquer forma, o próximo é A Ordem da Fênix, o quinto da série, que ainda não li e que é ainda maior que o quarto livro. Não me lembro por quê pulei esse livro, já que li o sexto, então agora se torna a hora perfeita de descobrir se os excessos vão até o final ou se a falha dos excessos é pontual, uma vez que não notei tal problema na primeira leitura de O enigma do príncipe.