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sexta-feira, 16 de fevereiro de 2018

Meu Mapa de Influências comentado


Como uma ideia que surgiu no Facebook — e, logo, que todo mundo repetiu —, eu também não podia ficar de fora: criei meu próprio mapa de influências enquanto escritor.

No entanto, gostaria de comentar mais sobre cada um dos autores mencionados e como eles me influenciaram.


Quando — para quem é escritor — chegamos àquele famoso momento, “quero escrever assim”, é, via de regra, porque nos deparamos com obras que nos tocam profundamente. Podemos dividir, ainda, essas obras em dois grupos: a dos escritores que nos encantam, e a dos mundos que nos encantam. Ou dizemos “quero escrever assim” ou “quero criar um mundo assim”. É, precisamente, nesses dois grupos que estão as quatro pessoas que ocupam os maiores quadros nessa montagem: Neil Gaiman, Stephen King, Hironobu Sakaguchi e J. R. R. Tolkien.

Primeiramente, Neil Gaiman. A obra dele condensa ambos os encantamentos — me encanta enquanto escritor, por dizer tanto com tão pouco, por criar climas e trazer à tona tantos sentimentos com frases simples, fugindo do rebuscamento, precisas e diretas, e ainda assim poéticas; e me encanta enquanto criador de mundos, porque o que ele fez em Deuses americanos, Os filhos de Anansi e O oceano no fim do caminho — suas obras que se passam em seu mundo de deuses — inspiraram boa parte da minha produção. Um conto meu que é totalmente inspirado na obra de Gaiman é o Nil.

Stephen King me ensinou a construir personagens. Pode–se falar o que for de suas obras (o que, na maioria das vezes, eu não concordo), mas não se pode falar que ele não é genial na construção de seus personagens. Com ele, eu percebi que todos os personagens têm uma opinião formada em relação a absolutamente cada aspecto de suas vidas, e isso afeta sua maneira de ser. Que os aspectos da vida de cada um forma o que eles são. Na obra de Stephen King, é facílimo perceber que, se os personagens envolvidos em suas tramas fossem outros, essas mesmas tramas iriam por caminhos muitíssimo diferentes. São os personagens que criam as tramas, e não o oposto. Foi por causa dele que fiz o que fiz em O arquivo dos sonhos perdidos, e que é criticado por algumas pessoas: pus personagens “comuns” numa trama épica, e o modo como eles são — ou não são — altera totalmente o que poderia se esperar da história.

Hironobu Sakaguchi entra no outro campo — o dos construtores de mundos. Para quem não conhece, ele é o criador da série Final fantasy, e essa série é a maior responsável por eu misturar magia e tecnologia em minhas obras — especialmente o que ele fez em seus “episódios” VII e XII. Sakaguchi, ao criar esses mundos, mostrou como magia e tecnologia podiam coexistir e se completar, e isso abriu minha mente para novas possibilidades. Isso, combinado com o que J. R. R. Tolkien fez em O senhor dos anéis, e que dispensa totalmente apresentações e exaltações, me fez perceber que sim, eu podia criar um mundo que juntasse tudo o que eu gosto, desde que, para isso, ele tivesse coerência — o que, no meu modo de ver, foi onde esses dois mestres mais brilharam: dar coerência para mundos totalmente fantásticos. (Nesse aspecto, mas em menor monta, coloco também o Shigeru Miyamoto, e especialmente pelo que ele fez em The legend of Zelda. Boa parte da estrutura de O arquivo é inspirada em Zelda, que me marcou muito graças à maestria de Miyamoto em criar aventuras e sub–aventuras que acabam se ligando em uma trama maior. É uma influência muito mais quanto ao “clima” da aventura, baseada em sensações, do que em elementos de trama em si — mas que não podia ser negligenciada.)

Os outros, com as fotos menores, podem ser divididos entre os que tiveram influência no início da minha escrita — ou para que eu a iniciasse, por assim dizer —, e os que estão me influenciando por agora. Dos primeiros, que me motivaram a escrever e criar histórias, estão Jules Verne e Leonel Caldela. Minha adolescência e início da vida adulta foram lendo as obras de Verne, e, mais uma vez, aquele tom de aventura e descoberta de seus livros me encantavam enormemente, e isso se refletiu n'O arquivo. Já o Caldela foi diretamente responsável por esse livro de fato existir. Através de seu romance O inimigo do mundo eu percebi que, sim, um mundo fantástico poderia ser transformado em uma história “realista” e brutal, e, durante a escrita, eu fraquejei, como o fazem muitos autores iniciantes. No finado Orkut, então, eu perguntei a ele como ele conseguiu realmente levar a cabo aquela tarefa ingrata de escrever um romance longo, e, ao contrário da minha expectativa, ele respondeu — e ainda me deu um puta incentivo para continuar. Imagino que, se ele não o tivesse feito, talvez eu não fosse um escritor hoje em dia…

Os que faltaram são os que estão me influenciando atualmente. De forma parecida com o King, o Ray Bradbury também me influencia a voltar meus olhos durante a escrita para os personagens — e ele, também como Gaiman, me mostra que pode haver poesia no modo de escrever. No entanto, enquanto o Gaiman me pauta a forma de criar fantasia e o King a de criar histórias realistas ou de suspense, o Bradbury é meu maior exemplo no campo da ficção científica. Ele me mostra que esse gênero deve ir muito além dos tecnicismos e focar no que realmente importa: as pessoas. Um conto curto em que eu aplico isso é o A distância e a espera. Já o Douglas Adams foi quem me ensinou a colocar ironia, cinismo e sarcasmo de maneira inteligente em meus textos, e que esse tipo de humor é muito melhor do que a comédia escrachada, que não vai bem na literatura — e que rir de si mesmo é a melhor maneira de rir da humanidade. Além, é claro, de usar o nonsense para compôr o humor causado pelo estranhamento — e que fiz no conto Aquecimento global (Em fogo alto). O Haruki Murakami foi o penúltimo a ter adentrado esse rol de escritores, e é um dos meus preferidos da atualidade. Existem outros preferidos que não entraram na lista de influências, e por quê? Porque Murakami me ensinou algo que nenhum dos outros pôde: a ter calma para contar minhas histórias. A dar atenção a pequenos detalhes do cotidiano, a sentimentos, a impressões, a eventos banais e que acabam influenciando um personagem muito mais do que parece. E, também, além disso, a incluir eventos esdrúxulos em minhas histórias fazendo–os parecer perfeitamente banais e corriqueiros, hehe. Talvez o meu conto que mais reflita isso seja o Into blue. E, por último, o cineasta David Lynch, que merece um parágrafo próprio.

Existem modos e modos de se contar histórias. Existem jornadas do heróis, existem narrativas epistolares, existem outros tipos de storytelling… e existem as colchas de retalhos de Lynch. Assistir a um filme dele não é fácil, mas é recompensador. Bom, talvez não seja recompensador na primeira assistida, haha, mas se você persistir e revê–lo, talvez mais de uma vez, as coisas começam a fazer sentido… ou não! Mas a intenção de Lynch nunca foi a tradicional de passar uma mensagem clara; pelo contrário, ele espera que o expectador construa sua própria versão dos fatos, e entenda a história de sua própria maneira. Tudo bem que eu acho que ele passa um tanto da conta às vezes, hehe, mas o que ele me ensinou é que existem outras maneiras de contar as histórias, e, especialmente, maneiras que exijam atenção, reflexão e o raciocínio daquele que está consumindo sua história! Fiz isso em minha última obra publicada, o conto Sob a sua árvore, e estou fazendo no romance que estou escrevendo, totalmente diferente de qualquer outra coisa que eu já publiquei. Nessas duas obras, se o leitor não prestar atenção e raciocinar sobre o que está lendo, pode ter certeza de que chegará ao final com um gosto estranho na boca. E, arrisco dizer, que esse modo de contar histórias irá pautar boa parte da minha produção de agora em diante…

quarta-feira, 4 de janeiro de 2017

Retrospectiva literária 2016


Esse post já está virando uma tradição — que ótimo! Assim sendo, pelo terceiro ano consecutivo, trago–lhes a minha Retrospectiva literária :D

E nessa, felizmente, eu não fui um mero leitor, um mero apreciador das obras alheias. Eu trouxe à vida muitas obras de minha própria autoria — algumas graças à editora Draco, uma graças à revista Trasgo, e outra, a que mais tenho orgulho, por minhas próprias mãos. É claro que estou falando dos meus contos Nil, My shadow plan, Kamerorkester, Paid in full, Aquecimento global (Em fogo alto), Noturno deserto e do meu romance O arquivo dos sonhos perdidos. É de uma alegria imensurável ver minhas obras coexistindo com todas aquelas que tanto me inspiram, mesmo que num degrau bem abaixo. Mas isso é o de menos.

No entanto, em 2016 eu também li bastante. Não tanto quanto em '14 ou '15, quando li 58 e 55 livros, respectivamente, mas estou certo que, em termos de qualidade, foi algo bem próximo. Vamos, então, à minha lista de leituras:

  1. A vida como ela é…, de Nelson Rodrigues;
  2. Iron man: Minha jornada com o Black Sabbath, de Tony Iommi;
  3. O aleph, de Jorge Luis Borges;
  4. O clone de Cristo vol. 2: Nascimento de uma era. de James BeauSeigneur;
  5. Diga meu nome e eu viverei, de Lady Sybylla;
  6. Cem anos de solidão, de Gabriel García Márquez;
  7. O escaravelho de ouro e outras histórias, de Edgar Allan Poe;
  8. Branca dos Mortos e os sete zumbis e outros contos macabros, de Fábio Yabu;
  9. A Torre Negra vol. III: As terras devastadas, de Stephen King;
  10. Harry Potter e o prisioneiro de Azkaban (releitura) e
  11. Harry Potter e o Cálice de Fogo (releitura), de J K Rowling;
  12. Na órbita de Aldebarã, organizada por Damon Knight;
  13. A cidade inteira dorme e outros contos, de Ray Bradbury;
  14. Forgotten Realms — O Vale do Vento Gélido vol. 1: A estilha de cristal, de R A Salvatore;
  15. Universo desconstruído: Ficção científica feminista, organizada por Lady Sybylla & Aline Valek;
  16. Sentimentos à flor da pele, organizada por Vilto Reis & Anna Schermak;
  17. Smoke and mirrors: Short fictions and illusions, de Neil Gaiman;
  18. Em algum lugar do passado, de Richard Matheson;
  19. Dias perfeitos, de Raphael Montes;
  20. Recruta Zero vol. 1, de Mort Walker;
  21. O castelo do homem sem alma, de A J Cronin;
  22. Trilogia dos pássaros vol. 1: O Templo dos Ventos, de Marcelo F Zaniolo;
  23. Brasyl, de Ian McDonald;
  24. Os melhores contos brasileiros de ficção científica: Fronteiras, organizada por Roberto de Sousa Causo;
  25. A lição de anatomia do temível Dr. Louison, de Enéias Tavares;
  26. As profecias de Urag vol. 1: O caçador de apóstolos, e
  27. As profecias de Urag vol. 2: Deus máquina, de Leonel Caldela;
  28. Habibi, de Craig Thompson;
  29. Cidade da penumbra, de Lolita Pille;
  30. Comando sul vol. 1: Aniquilação, de Jeff VanderMeer
  31. O cair da noite, de Isaac Asimov & Robert Silverberg
  32. Estranha Bahia, organizada por Alec Silva, Ricardo Santos & Rochett Tavares;
  33. Todos os fogos o fogo, de Julio Cortázar;
  34. Descongelado, de João Bourbon II;
  35. Grande irmão, de Lionel Shriver;
  36. A casa de vidro, de Anna Fagundes Martino;
  37. Blue Cup Cafe, de Shaneoli;
  38. A cidade & a cidade, de China Miéville;
  39. O sonho da sultana, de Roquia Sakhawat Hussain;
  40. Ovelha: Memórias de um pastor gay, de Gustavo Magnani;
  41. No sufoco, de Chuck Palahniuk;
  42. Hamlet, de William Shakespeare; e
  43. Especial natalino, de Clara Madrigano.
Por mais que eu não corra atrás de recordes, sempre espero fechar o ano com, pelo menos, um livro lido por semana, mas esse ano não deu — e estou certo que foi por causa das preocupações e preparativos com a publicação do meu próprio romance. Então valeu a pena!

Vamos então às premiações!


O MELHOR LIVRO INTERNACIONAL DE 2016:

 

Fiquei em dúvida entre esse e outro quanto a essa categoria e a de surpresa do ano (qualquer um deles se encaixaria bem em qualquer uma das categorias), mas acabei dando o título a essa maravilhosamente melancólica e estranha obra de Jeff VanderMeer. E a menção honrosa vai para o perturbadoramente incrível A cidade & a cidade. Esse foi, definitivamente, o ano do new weird para mim.


O MELHOR LIVRO NACIONAL DE 2016:

 

Para mim não é surpresa gostar de um livro do Leonel Caldela — só foi surpresa, e bastante, e das boas, o quanto eu gostei dessa obra…! Só uma palavra a pode descrever: INCRÍVEL! E a menção honrosa é óbvia, né.

Vamos, então, à tradicional premiação por gêneros, excluindo as obras acima.


O DESTAQUE DE FICÇÃO CIENTÍFICA DE 2016:

 

Em primeiro lugar, uma obra surpreendente — tanto em qualidade literária, em fator “grudar o leitor na cadeira” e em nível de pesquisa. Ian McDonald verdadeiramente destrinchou o Brasil para compôr sua obra, e eu adorei ver nosso país aqui representado. A menção honrosa vai para a ótima — e necessária — antologia Universo desconstruído, que tem umas pérolas escondidas lá dentro.


O DESTAQUE DE FICÇÃO FANTÁSTICA DE 2016:


Quem diria — eu, que não sou dos mais fãs da dita “alta fantasia”, escolher justamente um dos grandes clássicos do gênero como destaque… Elfos, anões, toda aquela coisa… Talvez tenha sido justamente por isso a surpresa boa: não ter esperado nada dessa obra. A menção honrosa… bem, foi a minha leitura beta, e dela eu falo quando puder ;)

Edit 13/02/17: E a leitura beta está revelada! O Marcelo anunciou, enfim, seu livro, e só posso dizer que estou ansioso pela cópia física. Eu sou o revisor dessa obra fantástica (em todos os sentidos), e tenho certeza de que ela vai estar na lista de “destaques do ano” de muita gente!


O DESTAQUE DE FICÇÃO REALISTA OU REALISMO MÁGICO DE 2016:


Não tem como essa obra concorrer em qualquer coisa que seja e não ganhar, não é? Só não levou o título de “melhor internacional” porque a que ganhou acabou mexendo mais com o meu emocional, mas Cem anos de solidão é qualquer coisa de notável na história da arte produzida pela raça humana.


E então temos A SURPRESA DO ANO DE 2016:


Que aventura gostosa foi A lição de anatomia do temível Dr. Louison! A trama é boa, a escrita é boa, a estrutura é boa… Enfim, já falei bastante da obra nessa minha resenha; então, tudo o que me resta dizer é que esse prêmio de surpresa do ano foi bem merecido!


Mas infelizmente também tem A DECEPÇÃO DO ANO DE 2016:


Não que nenhum dos dois tenham sido livros ruins, mas apenas entram nessa categoria porque não foram tão bons quanto eu esperava que eles fossem. Com o Grande irmão o problema foi o final; estava indo tudo muitíssimo bem (mesmo) até o final cagar tudo. E com O Aleph, é aquela merda da expectativa — eu esperava que fosse um outro O livro de areia.


Mas esse ano tem O PIOR LIVRO DO ANO DE 2016:


Desculpa aí. Não gostei, não foi para mim. Escrita arrastada, abandonei mesmo :P Agora o da menção honrosa eu li inteiro, mas é chatinho, chatinho…


E agora O MELHOR LIVRO DE CONTOS DE 2016:


Não tem como fugir desses, né? Gaiman e Bradbury são deuses. Apesar de eu ter lido ótimos livros de contos esse ano, realmente a disputa fica injusta quando esses dois estão na parada…


E agora vem O TOP 10 DE 2016!

  1. Comando Sul vol. 1: Aniquilação, de Jeff VanderMeer
  2. A cidade & a cidade, de China Miéville
  3. Cem anos de solidão, de Gabriel García Márquez
  4. Smoke and mirrors: Short fictions and illusions, de Neil Gaiman
  5. Brasyl, de Ian McDonald
  6. As profecias de Urag vol. 1: O caçador de apóstolos, de Leonel Caldela
  7. As profecias de Urag vol. 2: Deus Máquina, de Leonel Caldela
  8. O Vale do Vento Gélido vol. 1: A estilha de cristal, de R A Salvatore
  9. A cidade inteira dorme e outros contos, de Ray Bradbury
  10. A Torre Negra vol. III: As terras devastadas, de Stephen King

Então é isso, pessoal. Um feliz 2017 a todos :)


domingo, 13 de setembro de 2015

Por que o nome do autor também vem na capa? (ou A importância da Ficção Científica)


(Originalmente publicado no Papo de Cafeteria.)

Certamente, falando sobre livros, você já ouviu a célebre — só que não — frase: “Mas isso aí é ficção científica...” (e complementada por N colocações preconceituosas e com a pior ênfase possível no termo “isso aí”). Estou certo que, dentre todos os seus conjuntos de reações prováveis, boa parte delas envolveu um nó nas tripas — e, cá entre nós, isso é perfeitamente compreensível. É quase como ouvir falar mal da mãe, para nós, amantes do gênero. E é por isso que estamos aqui, sentados nessa mesa, degustando nossos cafés, não é? Aliás, vai um gole aí de cappuccino? Não? Melhor para mim, hehe. Talvez, depois desse papo, você possa ter uma coisa (ou duas) a dizer quando ouvir esse tipo de... abominação. Assim sendo, para início de conversa, posso sugerir uma questão? Pense nisso, e me responda:

Qual é, afinal de contas, a importância da Ficção Científica na literatura?

Arte de Fahrenheit 451, por aspius

Pensou? Então considere, agora, uma questão maior ainda: Qual é a importância de qualquer coisa? Essa segunda questão complicou o raciocínio? Qual é a importância da sua casa para um morador do Vietnam? E qual é a importância, para você, do vaso de cerâmica que esse vietnamita decorou com pintura? “Importância” é subjetiva ou não? Ou eu já estou elucubrando — especulando, filosofando, matutando — demais? Elucubrar é desimportante? Ou estimula o raciocínio? Quem pensa demais acaba por ficar louco, ou por impulsionar as ciências? (Desconsidere a possibilidade de ambas as coisas ocorrerem ao mesmo tempo.) Há alguma resposta definitiva ou objetiva a qualquer uma dessas questões?

O tipo de pessoa que levanta aquela inominável questão do início do papo frequentemente também diz que tais obras são repletas de “fantasias” e “coisas impossíveis”, e que, definitivamente, não podem ser comparadas à importância das obras dos mestres da literatura. Algo me diz que esses mestres não pensariam assim, mas não entremos nesse mérito; o caso é que, se essas pessoas se atêm somente a esses aspectos dessas obras... bem, elas devem absorver a mesma taxa de conteúdo de Dan Brown, Paulo Coelho, Liev Tolstói e José Saramago, nivelada por baixo. (A definição de “baixo", neste caso, deixo para você.)

A questão é: não seriam essas “fantasias” e “impossibilidades” justamente as elucubrações de autores que pensam a fundo questões científicas? E estou falando tanto dos átomos e da física quanto das ciências sociais. Que criam mundos futuristas, viagens e linhas temporais, distopias e falsas utopias, evoluções e manipulações genéticas incontroláveis? Em que sentido essas elucubrações divergem das dos autores “realistas”, que usam como matéria prima apenas o que se refere ao presente ou ao passado de nosso mundo? Essa questão eu me imagino ser capaz de responder! (Alguma eu tinha de ser, não é?) Os autores realistas — em sua maior parte — diferem dos autores de Ficção Científica — em sua maior parte — e eu nem estou falando da Fantasia ainda — no que tange à natureza de suas elucubrações!

O Big Brother, de 1984, está vendo você.
Qualquer semelhança com o mundo real é mera coincidência.

Enquanto Arthur Clarke, Isaac Asimov e Ray Bradbury — e também os nossos, por que não?, Luiz Bras, Alexey Dodsworth e Carlos Orsi — elucubram a respeito do porvir, do que pode ser feito/restar/não restar de nossa civilização quando certas tecnologias ou ciências forem desenvolvidas ao extremo, os escritores como Graciliano Ramos, J. M. Coetzee, Marguerite Duras e Victor Hugo elucubram a respeito do que veem às suas voltas, sobre o nosso mundo real, sobre todas as injustiças e lutas individuais que exemplificam e caracterizam nossa sociedade. É indubitável que eles nos fazem rever com mais clareza nosso caminho sobre as pedras desse planeta — mas quais deles? O primeiro grupo, o dos sonhadores de mundos, ou o segundo, dos analisadores do mundo? Ha!, essa resposta eu também tenho: ambos! E qual é a importância da literatura de ambos para aquela pessoa do início, que está “cagando e andando” para o vietnamita que pinta cerâmica? Perceberam que essa resposta não é, de fato, importante? E tão desimportante quanto a pessoa que a questionou.

Eu sugiro, a título de conclusão, uma resposta talvez simples, e talvez inconclusiva como todas as respostas devem, na minha opinião, ser, e você pode concordar ou não:

As obras de ficção científica só são importantes na medida daqueles que as escreveram — exatamente como as obras e os escritores ditos realistas. As ideias são o que importa! A tríade escritor/ideia/obra talvez seja indissociável, e por isso ouso dizer que, se Ray Bradbury tivesse escrito, ao invés de seu Fahrenheit 451 o livro João e as couves de Bruxelas, contendo as mesmas ideias que o seu duplo de outra realidade, este é que seria importante. Bradbury é o responsável por aquilo, e sem ele, os livros não atingiriam seus 451° F e não nos trariam tantas reflexões a respeito de nosso próprio mundo, assim como sem Asimov a Eternidade não se ergueria sozinha, e ambas as obras não existiriam para nos fazer refletir sobre os erros de se tentar manipular e controlar a tudo e a todos. Assim, enquanto os escritores “realistas” nos mostram o que há de errado — e certo também, por que não? — com o nosso mundo, os escritores do “fantástico” nos mostram tudo aquilo que ele pode — ou não pode — se tornar, se nos descuidarmos ou se cuidarmos demais.

Arte inspirada em O planeta dos macacospor Marko Manev.

É claro que as estórias também têm sua cota de importância no peso final das obras; sem entretenimento, elas simplesmente não são lidas — mas estou certo de que é por suas ideias que elas, afinal, são e serão lembradas. Por aquelas ideias, surgidas das indagações, das elucubrações, das discussões regadas a café. Por aquelas ideias, de todos aqueles que elucubraram o suficiente para gravar magicamente nas páginas de um livro aspectos preocupantes das realidades presentes, passadas ou futuras, que já ou que nunca aconteceram nem acontecerão, mas que tiveram a coragem de pensar.

Pelas ideias daqueles que elucubraram.

segunda-feira, 2 de março de 2015

Aquisições literárias - janeiro/fevereiro '15


Como há muito tempo não falo sobre minhas novas aquisições de livros, fica inviável colocar tudo em dia. De qualquer forma, tem uma lista lá em baixo do que eu comprei e ainda não li. No entanto, queria falar mais sobre minhas aquisições, então vou me limitar — e tentar continuar a tradição futuramente — a falar bimestralmente sobre essas aquisições. Vamos lá.



Ganhei esse Duna de aniversário, da minha esposa. Coisas lindas, o livro e a esposa. Essa edição mantém a qualidade das recentes FCs da editora Aleph. E já estou quase acabando de lê-lo — que livro foda! Frank Herbert escreve demais! Espero que o final não decepcione. O A reconquista (o antigo Campo de batalha: Terra — mudado pra acompanhar o nome do filme com o John Trêsvoltas) de L. Ron Hubbard, editora Record, é uma edição antiga — e enorme — que eu peguei num sebo por vintão na troca de alguns livros que não curti muito (a saber: Anjos da desolação de Jack Kerouac e Necrópolis de Douglas MCT).





Agora, esses todos eu peguei num Dia de Livros do site da Saraiva. Acho que o mais caro deles saiu por R$ 19,90... O Misery: Louca obsessão já estava nos meus planos há muito tempo. Sou fã do Stephen King, de como ele fala bem sobre o ser humano, e esse me atraiu ainda mais por se tratar da história de um escritor. Os Orgulho e preconceito da Jane Austen e O morro dos ventos uivantes da Emily Brontë são lindas edições bilíngues e capa dura da editora Landmark. O segundo eu já havia lido, mas o primeiro não — e estou cumprindo minha meta de compras as mais bonitas edições de livros que já li e merecem estar na minha estante. O A página assombrada por fantasmas do Antônio Xerxenesky, editora Rocco, é um livro que eu quero ler há muito tempo, e acho essa capa fantástica mesmo, muito criativa. O Laranja mecânica do Anthony Burgess é um must read, não tem nem o que falar — em breve me redimo desse pecado literário. Finalmente achei o A bússola de ouro, do Philip Pullman, editora Objetiva, que não é edição econômica e não tem a capa do filme — e numa promoção ainda! Excelente. Claro que já ouvi falar dele, e muito, mas tenho muita expectativa. Lembro que gostei do filme quando o vi, e, se o livro for realmente muito melhor, como falam... Vamos ver. Além desses, ainda peguei O cavaleiro dos sete reinos do George R. R. Martin, da editora LeYa, que conta os eventos um século antes dos narrados em As crônicas de gelo e fogo — e em capa dura, assim como o lindo Star wars: A trilogia, da editora Darkside Books, que só faz belezuras com suas edições. Ah, tinha esquecido de um ainda: O bicho-da-seda da J. K. Row... digo, do Robert Galbraith, versão capa dura da editora Rocco.



Numa promoção da livraria Nobel, comprei por 50% do preço esses dois. Tive que comprar O jogo do anjo, do Carlos Ruiz Zafón, lançado pela Suma de Letras, porque simplesmente amei A sombra do vento (e já tinha O prisioneiro do céu, que achei num bazar beneficente por R$ 3). Se mantiver a mesma qualidade do primeiro, será nota 5 de 5 de novo, fácil, fácil. Agora, esse Heresia, da S. J. Parris, me chamou a atenção desde que foi lançado pela editora Arqueiro, e não pude deixar de aproveitar a promoção.




Num sebo novo que descobri aqui em Sorocaba, encontrei o Contato, do Carl Sagan, publicado pela editora Companhia das Letras, dificinho de encontrar hoje em dia... Tenho esse livro em alta expectativa por causa de tudo o que falam dele. Outro que eu já ouvi falar bem — ainda que não tenha ouvido falar tanto assim — foi o Momo e o senhor do tempo, numa bela edição da Martins Fontes. Do escritor Michael Ende eu já li A história sem fim e adorei, então, quem sabe? Vou ler sem expectativas, então só posso me surpreender, para o bem ou para o mal. Também encontrei lá A mão e a luva (finalmente uma edição do Machadão em capa dura, como é difícil de achar!), da editora Globo, e As máquinas do prazer, da editora Francisco Alves — obra que nunca tinha ouvido falar mas comprei porque Bradbury é o cara. E tudo isso por R$ 40.



Perdidos por aí em sebos da vida e custando uns R$ 5, estavam O oitavo passageiro (Alien), de Alan Dean Foster, daquela coleção Grandes sucessos da editora Abril; Encontro com Rama, do Arthur C. Clarke, na edição antiga da Nova Fronteira (e que vontade dá de comprar a versão da Aleph antes de ler essa, hehe); e Poeira de estrelas, do mestre Asimov, edição da Expressão e Cultura, que eu acho que não tem edição mais nova aqui no Brasil. Edit: O Alien custou R$ 2 :)



Quem reclama dos preços dos livros é porque não sabe comprar. A livraria Atlântica tem uma banquinha rotativa de R$ 10, e lá encontrei esse São Diabo, do Manfredo Kempff, publicado pela editora Alfaguara (adoro esse design das capas deles) e me interessei e comprei. Do mesmo modo, a Livros e Cia. também tem uma estante de promoções, e lá também me interessei por esse Cobras e piercings, da autora japonesa Hitomi Kanehara, um livro fininho da editora Geração Editorial, e já estou lendo e gostando.



E pra finalizar a epopeia janeiro/fevereiro, mais 3 livros por R$ 10 cada, atualizando minha coleção de ficção fantástica nacional. Temos o realismo mágico de Incidente em Antares, do Érico Veríssimo, capa dura da editora Globo; temos a realidade alternativa de Outros Brasis, do Gerson Lodi-Ribeiro na edição da editora Unicórnio Azul; e temos a distopia Admirável Brasil novo do Ruy Tapioca, na edição — que tem uma belíssima fotografia de capa — da editora Rocco. Bastante expectativa para ler os três.

terça-feira, 20 de maio de 2014

Fahrenheit 451, de Ray Bradbury



Posso admitir que fiquei impressionado com esse Fahrenheit 451, de verdade.

Claro que eu esperava um livro ótimo, uma ficção científica da melhor qualidade - graças a tudo que já foi dito sobre ele -, mas, de qualquer forma, esperava menos do que recebi ao lê-lo. Não imaginava que o sr. Bradbury teria um estilo tão poético de escrever, às vezes quase num fluxo de consciência quando entra na cabeça de Guy Montag, especialmente por se tratar de um livro desse gênero - e aí descubro que, na verdade, o romance praticamente não é uma ficção científica. É, sim, uma distopia futurista, mas a tecnologia tem pouca influência no andar da trama, ainda que seja o motor de um mundo centrado na interação virtual tecnológica que suprime o "pensar" e o "conversar" da vida das pessoas - mas o livro é mais sobre a sociedade, as relações humanas e a identidade cultural de um povo, e se todo o caráter tecnológico fosse ignorado, funcionaria tão bem quanto antes.

É um livro que tem que ser lido por todos os amantes de livros.

E um dos melhores que já li na minha vida.





«««««/5

quinta-feira, 27 de março de 2014

Novas aquisições literárias #2


Semana passada visitei o Sebo Literário, aqui em Sorocaba, e saí de lá com duas obras e três livros - uma para minha pura diversão - O restaurante no fim do Universo, de Douglas Adams - e outra para pesquisa - A queda de Atlântida, de Marion Zimmer Bradley, volumes I e II.

Apesar de ter pago apenas R$ 24 pelos três livros, em geral os preços desse sebo são quase os mesmos dos das livrarias! Não sei se é só aqui em Sorocaba, mas me parece incoerência pagar as mesmas quantias por livros novos com cheiro de livros novos (a melhor parte) e por livros usados, muitas vezes amassados e/ou escritos e/ou comidos por traças e cupins.






Enfim, complementando o post, ontem passei na Livrarias Curitiba e quaaaase comprei o Fios de prata do Raphael Draccon, mas fui cativado pela bela edição de Fahrenheit 451 da Editora Globo...