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sexta-feira, 4 de maio de 2018

Leituras de Abril


Primeiramente, fora Temer. Segundamente, peço desculpas aos leitores do bróg por estar postando apenas esses posts de leituras do mês, e tão menos os posts, digamos, temáticos, ou monotemáticos, sei lá — mas vocês entenderam a ideia. É que está faltando tempo mesmo. Paciência. Mas, justamente por isso, esses posts “condensadões" são úteis; falo sobre todos os livros que quero falar e não deixo o blog morrer.

Esse mês de abril foi cheio de emoções, e nem todas elas boas. Li uns livros muito bons, descobri uma doença degenerativa na minha coluna, passei um final de semana num pesqueiro, terminamos — finalmente! —, eu e o Luís Beber, de escrever nosso livro em parceria (para lançamento em breve)… Enfim, vocês perceberam que realmente foi um mês de altos e baixos. E espero que os altos se proliferem e os baixos fiquem contornáveis :)

Mas vamos às obras do mês!


ROMANCES:



Que eu sempre gostei do Stephen King não é segredo, mas, mais uma vez, ele conseguiu me surpreender com Joyland. Dizem que não se deve julgar um livro pela capa, mas confesso que o que mais me atraiu nessa foi a ruiva que eu vim a descobrir ser a personagem Erin Cook. Essa ilustração, além de ser linda, muitíssimo bem executada, reflete perfeitamente a alma do livro — não que ela represente uma cena, exatamente, do romance, mas todos os elementos — e o clima — da ilustração são fidedignos ao que se encontra na história. Então, e a história? Vou contar a vocês que nunca imaginei que Stephen King pudesse ser tão… murakamesco. Quê?! Murakami e King na mesma frase? Sim! Olha que fantástico! Devin Jones, o protagonista de Joyland, poderia muito bem ser um personagem escrito pelo japonês — é melancólico, é uma boa pessoa, adora caminhar para aproveitar seus momentos de introspecção, é altamente mediano (mas com eventuais arroubos de protagonismo)… mas, apesar disso tudo, é um personagem cativante. Os coadjuvantes, como em qualquer obra do King, são adoráveis; bem-construídos e realistas — tanto que, lá pela metade do livro, eu me pego pensando: “que merda… esse é um livro do Stephen King… logo, logo, alguém vai se foder grandão… alguém ou todo mundo… vai vendo…" — mas, incrivelmente, não! Não estou dando spoiler; estou só dizendo que esta não é uma história típica do Stephen King! Arrisco mais uma vez dizer que é uma história que Haruki Murakami escreveria se fosse obrigado a escrever um thriller. Então, acreditem no que eu digo: o mestre King sempre surpreende. Leiam sem receio.



Mais uma vez, outro que deixei passar o hype para ler o Guerra do velho, e posso dizer com toda a tranquilidade: QUE LIVRO FODA. A começar pela capa, que vende exatamente o que a história é. Passando pela escrita do John Scalzi, que é leve, fluida e sem grandes pretensões. Continuando pelos personagens, que são cativantes e bem construídos (só acho que o protagonista é sortudo até demais…). E culminando na história, que, basicamente — e o autor não esconde isso de ninguém — pegou a ideia apresentada em Tropas estelares e a ampliou para um universo interessante, variado e coeso, com adendos de incrível criatividade. Guerra do velho pega o que foi consolidado com as grandes space operas do passado e entrega uma história moderna e deliciosa. 'Bora pro próximo livro, o As Brigadas Fantasma :)



E, enfim, a trilogia Comando Sul do escritor Jeff VanderMeer termina, com o romance Aceitação… e eu tenho algumas considerações tanto do romance quanto da trilogia em geral — e, inclusive, do filme Aniquilação. Mas, Rahmati, do filme também? Sim, porque o filme é um resumão da trilogia toda. Mas, antes, ao que interessa: esse terceiro volume é tão bom quanto o primeiro, ou mesmo tão razoável quanto o segundo? A resposta é simples: não. E talvez o culpado disso seja o filme. Vejam bem, não estou dizendo que os livros são ruins. A história toda é uma das coisas mais estranhas que eu já li — aliás, essa seria uma boa definição das duas mídias, livros e filme: é uma grande história de estranhamento com momentos de terror. Só que, enquanto o primeiro volume te introduz num mundo original para caramba, o segundo monta as bases e o terceiro dá os toques finais — porque não dá explicações, coisa que o filme faz. O problema é que os livros, falando do Autoridade e do Aceitação, enrolam demais. Dava, com folga, para ter feito um único livro, lá com suas 450 páginas, mas que fosse mais direto ao ponto, assim como o filme fez. Então o filme é uma boa adaptação? É! Porque tudo o que tem no livro está lá de alguma forma (e aqui vão os spoilers de ambos): o bicho que grita, que foi transposto para o urso decomposto; o duplo do faroleiro, que virou o duplo do marido da bióloga; o rastejador, que se transformou no alien do final… Só não gostei do filme ter entregado a origem da Área X na primeira cena, mostrando o meteoro. Mas… e o personagem John Rodriguez, o Controle? Sério: o que ele fez no livro? Serviu para quê? Não fez falta nenhuma. Em resumo: eu explico a Área X para mim mesmo como uma espécie de câncer do planeta. No filme, é aquele câncer que mata rapidamente; no livro, é o que mata aos poucos.



Comentários nesse post :)


* * *


CONTO:


Mais um ótimo texto do Leonel Caldela, esse conto O cão é bem-escrito, denso, dramático e impactante. É uma história de fantasia que dialoga com outras obras do autor, como O código élfico e O caçador de apóstolos, mas não creio que se passe realmente no universo de alguma delas. É mais como uma “realidade alternativa", acho (coisa que gosto de fazer nas minhas obras também; todas têm elementos umas das outras). Para não variar, Leonel é brutal com seus personagens — e, aqui, isso se reflete principalmente no final, porque, apesar de eu imaginar que havia alguma coisa ali, eu jamais poderia esperar aquilo. Mais um ponto para o Caldela, e espero ansiosamente sua próxima obra que não for da série Ruff Ghanor.

sexta-feira, 16 de fevereiro de 2018

Meu Mapa de Influências comentado


Como uma ideia que surgiu no Facebook — e, logo, que todo mundo repetiu —, eu também não podia ficar de fora: criei meu próprio mapa de influências enquanto escritor.

No entanto, gostaria de comentar mais sobre cada um dos autores mencionados e como eles me influenciaram.


Quando — para quem é escritor — chegamos àquele famoso momento, “quero escrever assim”, é, via de regra, porque nos deparamos com obras que nos tocam profundamente. Podemos dividir, ainda, essas obras em dois grupos: a dos escritores que nos encantam, e a dos mundos que nos encantam. Ou dizemos “quero escrever assim” ou “quero criar um mundo assim”. É, precisamente, nesses dois grupos que estão as quatro pessoas que ocupam os maiores quadros nessa montagem: Neil Gaiman, Stephen King, Hironobu Sakaguchi e J. R. R. Tolkien.

Primeiramente, Neil Gaiman. A obra dele condensa ambos os encantamentos — me encanta enquanto escritor, por dizer tanto com tão pouco, por criar climas e trazer à tona tantos sentimentos com frases simples, fugindo do rebuscamento, precisas e diretas, e ainda assim poéticas; e me encanta enquanto criador de mundos, porque o que ele fez em Deuses americanos, Os filhos de Anansi e O oceano no fim do caminho — suas obras que se passam em seu mundo de deuses — inspiraram boa parte da minha produção. Um conto meu que é totalmente inspirado na obra de Gaiman é o Nil.

Stephen King me ensinou a construir personagens. Pode–se falar o que for de suas obras (o que, na maioria das vezes, eu não concordo), mas não se pode falar que ele não é genial na construção de seus personagens. Com ele, eu percebi que todos os personagens têm uma opinião formada em relação a absolutamente cada aspecto de suas vidas, e isso afeta sua maneira de ser. Que os aspectos da vida de cada um forma o que eles são. Na obra de Stephen King, é facílimo perceber que, se os personagens envolvidos em suas tramas fossem outros, essas mesmas tramas iriam por caminhos muitíssimo diferentes. São os personagens que criam as tramas, e não o oposto. Foi por causa dele que fiz o que fiz em O arquivo dos sonhos perdidos, e que é criticado por algumas pessoas: pus personagens “comuns” numa trama épica, e o modo como eles são — ou não são — altera totalmente o que poderia se esperar da história.

Hironobu Sakaguchi entra no outro campo — o dos construtores de mundos. Para quem não conhece, ele é o criador da série Final fantasy, e essa série é a maior responsável por eu misturar magia e tecnologia em minhas obras — especialmente o que ele fez em seus “episódios” VII e XII. Sakaguchi, ao criar esses mundos, mostrou como magia e tecnologia podiam coexistir e se completar, e isso abriu minha mente para novas possibilidades. Isso, combinado com o que J. R. R. Tolkien fez em O senhor dos anéis, e que dispensa totalmente apresentações e exaltações, me fez perceber que sim, eu podia criar um mundo que juntasse tudo o que eu gosto, desde que, para isso, ele tivesse coerência — o que, no meu modo de ver, foi onde esses dois mestres mais brilharam: dar coerência para mundos totalmente fantásticos. (Nesse aspecto, mas em menor monta, coloco também o Shigeru Miyamoto, e especialmente pelo que ele fez em The legend of Zelda. Boa parte da estrutura de O arquivo é inspirada em Zelda, que me marcou muito graças à maestria de Miyamoto em criar aventuras e sub–aventuras que acabam se ligando em uma trama maior. É uma influência muito mais quanto ao “clima” da aventura, baseada em sensações, do que em elementos de trama em si — mas que não podia ser negligenciada.)

Os outros, com as fotos menores, podem ser divididos entre os que tiveram influência no início da minha escrita — ou para que eu a iniciasse, por assim dizer —, e os que estão me influenciando por agora. Dos primeiros, que me motivaram a escrever e criar histórias, estão Jules Verne e Leonel Caldela. Minha adolescência e início da vida adulta foram lendo as obras de Verne, e, mais uma vez, aquele tom de aventura e descoberta de seus livros me encantavam enormemente, e isso se refletiu n'O arquivo. Já o Caldela foi diretamente responsável por esse livro de fato existir. Através de seu romance O inimigo do mundo eu percebi que, sim, um mundo fantástico poderia ser transformado em uma história “realista” e brutal, e, durante a escrita, eu fraquejei, como o fazem muitos autores iniciantes. No finado Orkut, então, eu perguntei a ele como ele conseguiu realmente levar a cabo aquela tarefa ingrata de escrever um romance longo, e, ao contrário da minha expectativa, ele respondeu — e ainda me deu um puta incentivo para continuar. Imagino que, se ele não o tivesse feito, talvez eu não fosse um escritor hoje em dia…

Os que faltaram são os que estão me influenciando atualmente. De forma parecida com o King, o Ray Bradbury também me influencia a voltar meus olhos durante a escrita para os personagens — e ele, também como Gaiman, me mostra que pode haver poesia no modo de escrever. No entanto, enquanto o Gaiman me pauta a forma de criar fantasia e o King a de criar histórias realistas ou de suspense, o Bradbury é meu maior exemplo no campo da ficção científica. Ele me mostra que esse gênero deve ir muito além dos tecnicismos e focar no que realmente importa: as pessoas. Um conto curto em que eu aplico isso é o A distância e a espera. Já o Douglas Adams foi quem me ensinou a colocar ironia, cinismo e sarcasmo de maneira inteligente em meus textos, e que esse tipo de humor é muito melhor do que a comédia escrachada, que não vai bem na literatura — e que rir de si mesmo é a melhor maneira de rir da humanidade. Além, é claro, de usar o nonsense para compôr o humor causado pelo estranhamento — e que fiz no conto Aquecimento global (Em fogo alto). O Haruki Murakami foi o penúltimo a ter adentrado esse rol de escritores, e é um dos meus preferidos da atualidade. Existem outros preferidos que não entraram na lista de influências, e por quê? Porque Murakami me ensinou algo que nenhum dos outros pôde: a ter calma para contar minhas histórias. A dar atenção a pequenos detalhes do cotidiano, a sentimentos, a impressões, a eventos banais e que acabam influenciando um personagem muito mais do que parece. E, também, além disso, a incluir eventos esdrúxulos em minhas histórias fazendo–os parecer perfeitamente banais e corriqueiros, hehe. Talvez o meu conto que mais reflita isso seja o Into blue. E, por último, o cineasta David Lynch, que merece um parágrafo próprio.

Existem modos e modos de se contar histórias. Existem jornadas do heróis, existem narrativas epistolares, existem outros tipos de storytelling… e existem as colchas de retalhos de Lynch. Assistir a um filme dele não é fácil, mas é recompensador. Bom, talvez não seja recompensador na primeira assistida, haha, mas se você persistir e revê–lo, talvez mais de uma vez, as coisas começam a fazer sentido… ou não! Mas a intenção de Lynch nunca foi a tradicional de passar uma mensagem clara; pelo contrário, ele espera que o expectador construa sua própria versão dos fatos, e entenda a história de sua própria maneira. Tudo bem que eu acho que ele passa um tanto da conta às vezes, hehe, mas o que ele me ensinou é que existem outras maneiras de contar as histórias, e, especialmente, maneiras que exijam atenção, reflexão e o raciocínio daquele que está consumindo sua história! Fiz isso em minha última obra publicada, o conto Sob a sua árvore, e estou fazendo no romance que estou escrevendo, totalmente diferente de qualquer outra coisa que eu já publiquei. Nessas duas obras, se o leitor não prestar atenção e raciocinar sobre o que está lendo, pode ter certeza de que chegará ao final com um gosto estranho na boca. E, arrisco dizer, que esse modo de contar histórias irá pautar boa parte da minha produção de agora em diante…

quarta-feira, 10 de janeiro de 2018

Retrospectiva Literária 2017


E, seguindo a tradição do blog, chegamos ao fim de mais um ano de leituras e escritas — e trago a vocês a Retrospectiva Literária do ano de 2017 :D

Em 2016 inaugurei maisoumenasmente a seção com as minhas obras lançadas — foi o ano em que eu deixei de ser somente um leitor e passei a ser um autor publicado. Agora oficializo: começarei sempre com as minhas obras lançadas no ano! Nesse, foram nada menos que cinco! E bem balanceadas em seus gêneros: duas de ficção realista — o romance Nefelibata ou O fotógrafo, e o conto Apreensão, que saiu pela revista Gueto e foi premiado na 27.ª edição do Prêmio Cataratas de Contos e Poesias —; uma de ficção científica — o conto Sob a sua árvore —; e duas de fantasia — os contos que saíram nas coletâneas dos sites Mitografias e Leitor Cabuloso, respectivamente E tudo vai ficar pior e Enquanto vagueio pelas cinzas do mundo.






No campo da leitura, eu também não poderia ter tido um ano mais feliz, porque eu simplesmente bati meu recorde de leitura anual de toda a minha vida! Foram 68 obras lidas — e, com toda a tranquilidade, afirmo que isso só foi possível por causa da aquisição do meu Kindle (primeiro, o básico; depois, o Paperwhite). Ele me possibilitou ler muito mais do que as possibilidades de carregar livros de papel permitiam, além de também me dar acesso a ótimas obras autopublicadas, inexistentes em formato físico. Assim sendo, vamos à lista das leituras de 2017:

  1. A Voz de Delirium: Ano 1, de André Monsev & Lucas Kircher;
  2. Ozob: Protocolo Molotov, de Leonel Caldela & Deive Pazos;
  3. Alerta de risco: Contos e perturbações,
  4. Deuses americanos (releitura), e
  5. Mitologia nórdica, de Neil Gaiman;
  6. Sinal e ruído, de Neil Gaiman & Dave McKean;
  7. Contos da taberna, e
  8. 2001: Uma odisseia no espaço, de Arthur C. Clarke;
  9. O vermelho e o negro, de Stendhal;
  10. O risonho cavalo do príncipe, e
  11. A estranha máquina extraviada, de José J. Veiga;
  12. O encontro marcado, de Fernando Sabino;
  13. Interface com o vampiro,
  14. Os dias da peste vol. 1, e
  15. De A a Z: Dicas para escritores, de Fábio Fernandes;
  16. Mundos paralelos, organizada por Felipe Sali;
  17. Zé Calabros na terra dos cornos, de Tiago Moreira;
  18. Memória da água, de Emmi Itäranta;
  19. Ficção de polpa vol. 1, organizada por Samir Machado de Machado;
  20. A hora e vez de Augusto Matraga, de João Guimarães Rosa;
  21. Um gato chamado Borges, de Vilto Reis;
  22. Areia nos dentes, de Antônio Xerxenesky;
  23. Mulheres fatais, organizada por Rô Mierling;
  24. Melhor seria nunca ter existido, de Daniel Pellizzari;
  25. A Torre Negra vol. IV: Mago e vidro, e
  26. Sobre a escrita, de Stephen King;
  27. Memorial do convento, de José Saramago;
  28. Extemporâneo, e
  29. Glamour, de Alexey Dodsworth;
  30. O império das formigas vol. 1: As formigas, de Bernard Werber;
  31. Teorema de Mabel, de Matheus Ferraz;
  32. Ouça a canção do vento / Pinball, 1973,
  33. Caçando carneiros, e
  34. Minha querida Sputnik, de Haruki Murakami;
  35. Louco: Fuga, de Rogério Coelho;
  36. The 42nd Street Band, de Renato Russo;
  37. O mago e o guerreiro, de Diogo Ramos;
  38. Wild cards vol. 1: O começo de tudo, editada e organizada por George R. R. Martin;
  39. Antologia Mitografias vol. 1: Mitos modernos, organizada por Leonardo Tremeschin, Andriolli Costa & Lucas Rafael Ferraz;
  40. Unicelular, de Tarsis Magellan;
  41. Orgulho e preconceito, de Jane Austen;
  42. Limbo, de Thiago d'Evecque;
  43. Picta mundi, de Gleice Couto;
  44. O jardim secreto, de Frances Hodgson Burnett;
  45. Na eternidade sempre é domingo, de Santiago Santos;
  46. A menina submersa, de Caitlín R. Kiernan;
  47. Sandokan & Bakunine, de Bruno Margo;
  48. A situação, de Jeff VanderMeer;
  49. Lobo de rua, de Jana P. Bianchi;
  50. As águas–vivas não sabem de si, de Aline Valek;
  51. Alétheia, de Soraya Coelho;
  52. O zen e a arte da escrita, de Ray Bradbury;
  53. Trabalho honesto, de Rodrigo van Kampen;
  54. O espadachim de carvão e as pontes de Puzur, de Affonso Solano;
  55. Origem, de Dan Brown;
  56. Realidades cabulosas: Ano 1, organizada por Lucas Rafael Ferraz & eu;
  57. Um berço de heras, de Anna Fagundes Martino;
  58. Welcome to Night Vale, de Joseph Fink & Jeffrey Cranor;
  59. As vantagens de ser invisível, de Stephen Chbosky;
  60. Os cem melhores contos brasileiros do século, organizada por Italo Moriconi;
  61. revista Trasgo #04,
  62. revista Trasgo #07,
  63. revista Trasgo #09,
  64. revista Trasgo #11,
  65. revista Trasgo #12,
  66. revista Trasgo #13,
  67. revista Trasgo #14, e
  68. revista Trasgo #15, organizadas e editadas por Rodrigo van Kampen.
Então, sem perda de tempo, vamos às premiações do ano :D


O MELHOR LIVRO INTERNACIONAL DE 2017


Nossa, é impressionante como li poucos livros internacionais nesse ano...! Assim sendo, tive que decidir por uma releitura para ganhar esse prêmio — porque Deuses americanos é mesmo um livro muito muito foda; acho que é, afinal, o melhor do Neil Gaiman. Essa nova edição, então, é um primor: a textura da capa, a fonte utilizada, a nova tradução... Não tem como não amar :)


O MELHOR LIVRO NACIONAL DE 2017:


Rapaz, com tantas leituras nacionais nesse ano, foi difícil pra caramba escolher o “melhor"... Obras excelentes como Zé Calabros na terra dos cornos, Extemporâneo, Glamour e A Voz de Delirium: Ano 1 me deram dor de cabeça para escolher, então acabei me decidindo pela obra que mais mexeu com minhas emoções: Unicelular — tanto no deliciamento pela imersão no ambiente criado pelo autor, Tarsis Magellan, quanto no nervoso que me deu o desenrolar desse thriller de ficção científica, quanto pelo encantamento que me causou uma obra autopublicada tão esmerada quanto essa.


Partimos, então, para os destaques por gênero, excluindo–se as obras já premiadas.


O DESTAQUE DE FICÇÃO CIENTÍFICA DE 2017:


É difícil ter lido Alexey Dodsworth e não colocá–lo numa lista de “melhores do ano". Não li um livro dele que não tenha sido, no mínimo, ótimo — seja por uma editora, seja por outra, seja autopublicado. Extemporâneo é outra de suas obras ótimas, e acredito que meio central em sua produção, porque parece amarrar muitas das coisas escritas por ele. Em resumo, é um ótimo livro para começar a ler sua obra.

Como menção honrosa, o ótimo — e climático, e melancólico — Memória da água, que apresenta um futuro distópico original e incômodo pra cacete, onde a China domina o mundo e a água está cada vez mais escassa, controlada pelo governo, como não poderia deixar de ser.


O DESTAQUE DE FICÇÃO FANTÁSTICA DE 2017:


2017 foi o ano da autopublicação, e os destaques dessa categoria refletem isso. Zé Calabros na terra dos cornos é uma obra originalíssima de fantasia que se passa em uma terra que é uma versão do Nordeste brasileiro, com cangaceiros, coronéis e tudo o que a região tem direito. Contudo, ela integra outros elementos de outras culturas, como magos, dragões e gigantes, mas faz isso com muita naturalidade e com muita qualidade literária. É uma obra que tem tudo para despontar se — quando — for descoberta por uma editora grande. Estou ansioso pela continuação.

A menção honrosa é para outra ótima obra de Alexey Dodsworth, Glamour, dessa vez mais voltada para a fantasia urbana do que para a FC. Também integrada ao “Dodsverso", traz de volta a melhor personagem de Extemporâneo, a Cassandra.


O DESTAQUE DE FICÇÃO REALISTA OU REALISMO MÁGICO DE 2017:


Curiosa essa escolha. Murakami é um dos meus autores preferidos atualmente, e num ano em que li duas das maiores obras dele — Caçando carneiros e Minha querida Sputnik —, escolher justamente suas duas novelas de estreia e, ainda por cima, como menção honrosa... É que As vantagens de ser invisível é tão redondinho, tão bem escrito, tão gostosinho que, como, digamos, conjunto da obra, que não teve como não escolhê–lo como destaque. Além disso, Ouça a canção do vento / Pinball, 1973 tem um apelo muito mais emocional para mim do que suas obras mais famosas.


E, agora, A SURPRESA DO ANO DE 2017:


Duas obras nacionais como surpresas do ano! A obra em destaque, Ozob vol. 1: Protocolo Molotov, me surpreendeu de verdade. Claro que o autor principal da obra, Leonel Caldela, é o meu preferido autor de fantasia nacional, mas por ser uma derivação do Nerdcast especial de RPG, imaginei que pudesse seguir o exemplo da série Ruff Ghanor e ser dispensável como ela, mas acabei percebendo, com muita felicidade, que não, que o livro do Ozob tem muita qualidade como literatura cyberpunk, desde que você saiba ligar o quesefodômetro e curtir as loucuras e referências da aventura criada pelo Deive Pazos, o Azaghal.

Como menção honrosa, a ótima obra de fantasia urbana com toques de ficção científica Trabalho honesto, do Rodrigo van Kampen, criador e responsável pela excelente revista Trasgo, e aqui mostrando que é também um ótimo escritor e criador de mundos.


E então a inevitável DECEPÇÃO DO ANO DE 2017:


Nunca imaginei que eu teria Gaiman como a decepção do ano e King como menção honrosa, mas o monstro da expectativa é mesmo uma merda, né? Eu esperava que Mitologia nórdica fosse um livro do Neil Gaiman, mas não é: poderia ter sido o livro de qualquer escritor reescrevendo, muito mais que recontando, as histórias já conhecidas dessa mitologia, e nada mais do que isso. Sem surpresas, sem novidades, sem o jeitinho Gaiman de contar. Foi o primeiro livro dele que abandonei na vida. Já o Mago e vidro, volume 4 de A Torre Negra, poderia ter sido um livro bem menos maçante se o flashback fosse menos que praticamente o livro inteiro. Sério, devem ser umas 400 páginas ou mais de flashback — ou seja: uma história da qual já sabemos o final. Se Roland tivesse contado, como fez, a história ao redor de uma fogueira, num momento crucial do livro, mas em diálogo, teria tido o mesmíssimo efeito.


Agora, O PIOR LIVRO DO ANO DE 2017:


Não foi dessa vez que os escritores top do Wattpad me convenceram, pelos motivos que eu expliquei muito bem nessa resenha. O outro, também uma coletânea de contos, também é fraquinho, e esse eu nem me motivei a ler até o final.


Agora, falando de coisa boa, O MELHOR LIVRO DE CONTOS DE 2017:


É inevitável escolher essa fantástica antologia organizada pelo Italo Moriconi com os cem melhores contos brasileiros do século XX; realmente é de se imaginar que o sumo da literatura mainstream está ali. Não estão muitos bons contos da ficção fantástica, é claro, mas não era esse o foco da seleção. Como menção honrosa, mais uma excelente antologia do Neil Gaiman. Smoke and mirrors esteve na premiação do ano passado, Alerta de risco está nesse, e aposto que no ano em que houver antologia nova estará também :)


Então, dentre esses, vou formular O TOP 10 DE 2017:


  1. Deuses americanos, de Neil Gaiman
  2. Unicelular, de Tarsis Magellan
  3. Os cem melhores contos brasileiros do século, organizado por Italo Moriconi
  4. Zé Calabros na terra dos cornos, de Tiago Moreira
  5. Extemporâneo, de Alexey Dodsworth
  6. Alerta de risco: Contos e perturbações, de Neil Gaiman
  7. Glamour, de Alexey Dodsworth
  8. As vantagens de ser invisível, de Stephen Chbosky
  9. Ouça a canção do vento / Pinball, 1973, de Haruki Murakami
  10. Ozob vol. 1: Protocolo Molotov, de Leonel Caldela & Deive Pazos


Mas como assim, Rahmati, Ozob é melhor do que Orgulho e preconceito, ou os livros do Murakami, ou que tantos outros lidos nesse ano?! A questão é: eu não disse que esses livros são ruins. Muito menos que não são bons. São ótimos. O negócio é que esses 10 aí são os livros que mais me divertiram, dado o que eu gosto de ler. Se perguntarem qual é melhor: Ozob ou Orgulho e preconceito, eu vou dizer que certamente o segundo é literariamente mais relevante, e provavelmente muito melhor, mas o livro capa dura que está na minha estante é o primeiro :)

Assim sendo, se você não concorda com minhas escolhas, azar o seu e feliz 2018 :D

quarta-feira, 4 de janeiro de 2017

Retrospectiva literária 2016


Esse post já está virando uma tradição — que ótimo! Assim sendo, pelo terceiro ano consecutivo, trago–lhes a minha Retrospectiva literária :D

E nessa, felizmente, eu não fui um mero leitor, um mero apreciador das obras alheias. Eu trouxe à vida muitas obras de minha própria autoria — algumas graças à editora Draco, uma graças à revista Trasgo, e outra, a que mais tenho orgulho, por minhas próprias mãos. É claro que estou falando dos meus contos Nil, My shadow plan, Kamerorkester, Paid in full, Aquecimento global (Em fogo alto), Noturno deserto e do meu romance O arquivo dos sonhos perdidos. É de uma alegria imensurável ver minhas obras coexistindo com todas aquelas que tanto me inspiram, mesmo que num degrau bem abaixo. Mas isso é o de menos.

No entanto, em 2016 eu também li bastante. Não tanto quanto em '14 ou '15, quando li 58 e 55 livros, respectivamente, mas estou certo que, em termos de qualidade, foi algo bem próximo. Vamos, então, à minha lista de leituras:

  1. A vida como ela é…, de Nelson Rodrigues;
  2. Iron man: Minha jornada com o Black Sabbath, de Tony Iommi;
  3. O aleph, de Jorge Luis Borges;
  4. O clone de Cristo vol. 2: Nascimento de uma era. de James BeauSeigneur;
  5. Diga meu nome e eu viverei, de Lady Sybylla;
  6. Cem anos de solidão, de Gabriel García Márquez;
  7. O escaravelho de ouro e outras histórias, de Edgar Allan Poe;
  8. Branca dos Mortos e os sete zumbis e outros contos macabros, de Fábio Yabu;
  9. A Torre Negra vol. III: As terras devastadas, de Stephen King;
  10. Harry Potter e o prisioneiro de Azkaban (releitura) e
  11. Harry Potter e o Cálice de Fogo (releitura), de J K Rowling;
  12. Na órbita de Aldebarã, organizada por Damon Knight;
  13. A cidade inteira dorme e outros contos, de Ray Bradbury;
  14. Forgotten Realms — O Vale do Vento Gélido vol. 1: A estilha de cristal, de R A Salvatore;
  15. Universo desconstruído: Ficção científica feminista, organizada por Lady Sybylla & Aline Valek;
  16. Sentimentos à flor da pele, organizada por Vilto Reis & Anna Schermak;
  17. Smoke and mirrors: Short fictions and illusions, de Neil Gaiman;
  18. Em algum lugar do passado, de Richard Matheson;
  19. Dias perfeitos, de Raphael Montes;
  20. Recruta Zero vol. 1, de Mort Walker;
  21. O castelo do homem sem alma, de A J Cronin;
  22. Trilogia dos pássaros vol. 1: O Templo dos Ventos, de Marcelo F Zaniolo;
  23. Brasyl, de Ian McDonald;
  24. Os melhores contos brasileiros de ficção científica: Fronteiras, organizada por Roberto de Sousa Causo;
  25. A lição de anatomia do temível Dr. Louison, de Enéias Tavares;
  26. As profecias de Urag vol. 1: O caçador de apóstolos, e
  27. As profecias de Urag vol. 2: Deus máquina, de Leonel Caldela;
  28. Habibi, de Craig Thompson;
  29. Cidade da penumbra, de Lolita Pille;
  30. Comando sul vol. 1: Aniquilação, de Jeff VanderMeer
  31. O cair da noite, de Isaac Asimov & Robert Silverberg
  32. Estranha Bahia, organizada por Alec Silva, Ricardo Santos & Rochett Tavares;
  33. Todos os fogos o fogo, de Julio Cortázar;
  34. Descongelado, de João Bourbon II;
  35. Grande irmão, de Lionel Shriver;
  36. A casa de vidro, de Anna Fagundes Martino;
  37. Blue Cup Cafe, de Shaneoli;
  38. A cidade & a cidade, de China Miéville;
  39. O sonho da sultana, de Roquia Sakhawat Hussain;
  40. Ovelha: Memórias de um pastor gay, de Gustavo Magnani;
  41. No sufoco, de Chuck Palahniuk;
  42. Hamlet, de William Shakespeare; e
  43. Especial natalino, de Clara Madrigano.
Por mais que eu não corra atrás de recordes, sempre espero fechar o ano com, pelo menos, um livro lido por semana, mas esse ano não deu — e estou certo que foi por causa das preocupações e preparativos com a publicação do meu próprio romance. Então valeu a pena!

Vamos então às premiações!


O MELHOR LIVRO INTERNACIONAL DE 2016:

 

Fiquei em dúvida entre esse e outro quanto a essa categoria e a de surpresa do ano (qualquer um deles se encaixaria bem em qualquer uma das categorias), mas acabei dando o título a essa maravilhosamente melancólica e estranha obra de Jeff VanderMeer. E a menção honrosa vai para o perturbadoramente incrível A cidade & a cidade. Esse foi, definitivamente, o ano do new weird para mim.


O MELHOR LIVRO NACIONAL DE 2016:

 

Para mim não é surpresa gostar de um livro do Leonel Caldela — só foi surpresa, e bastante, e das boas, o quanto eu gostei dessa obra…! Só uma palavra a pode descrever: INCRÍVEL! E a menção honrosa é óbvia, né.

Vamos, então, à tradicional premiação por gêneros, excluindo as obras acima.


O DESTAQUE DE FICÇÃO CIENTÍFICA DE 2016:

 

Em primeiro lugar, uma obra surpreendente — tanto em qualidade literária, em fator “grudar o leitor na cadeira” e em nível de pesquisa. Ian McDonald verdadeiramente destrinchou o Brasil para compôr sua obra, e eu adorei ver nosso país aqui representado. A menção honrosa vai para a ótima — e necessária — antologia Universo desconstruído, que tem umas pérolas escondidas lá dentro.


O DESTAQUE DE FICÇÃO FANTÁSTICA DE 2016:


Quem diria — eu, que não sou dos mais fãs da dita “alta fantasia”, escolher justamente um dos grandes clássicos do gênero como destaque… Elfos, anões, toda aquela coisa… Talvez tenha sido justamente por isso a surpresa boa: não ter esperado nada dessa obra. A menção honrosa… bem, foi a minha leitura beta, e dela eu falo quando puder ;)

Edit 13/02/17: E a leitura beta está revelada! O Marcelo anunciou, enfim, seu livro, e só posso dizer que estou ansioso pela cópia física. Eu sou o revisor dessa obra fantástica (em todos os sentidos), e tenho certeza de que ela vai estar na lista de “destaques do ano” de muita gente!


O DESTAQUE DE FICÇÃO REALISTA OU REALISMO MÁGICO DE 2016:


Não tem como essa obra concorrer em qualquer coisa que seja e não ganhar, não é? Só não levou o título de “melhor internacional” porque a que ganhou acabou mexendo mais com o meu emocional, mas Cem anos de solidão é qualquer coisa de notável na história da arte produzida pela raça humana.


E então temos A SURPRESA DO ANO DE 2016:


Que aventura gostosa foi A lição de anatomia do temível Dr. Louison! A trama é boa, a escrita é boa, a estrutura é boa… Enfim, já falei bastante da obra nessa minha resenha; então, tudo o que me resta dizer é que esse prêmio de surpresa do ano foi bem merecido!


Mas infelizmente também tem A DECEPÇÃO DO ANO DE 2016:


Não que nenhum dos dois tenham sido livros ruins, mas apenas entram nessa categoria porque não foram tão bons quanto eu esperava que eles fossem. Com o Grande irmão o problema foi o final; estava indo tudo muitíssimo bem (mesmo) até o final cagar tudo. E com O Aleph, é aquela merda da expectativa — eu esperava que fosse um outro O livro de areia.


Mas esse ano tem O PIOR LIVRO DO ANO DE 2016:


Desculpa aí. Não gostei, não foi para mim. Escrita arrastada, abandonei mesmo :P Agora o da menção honrosa eu li inteiro, mas é chatinho, chatinho…


E agora O MELHOR LIVRO DE CONTOS DE 2016:


Não tem como fugir desses, né? Gaiman e Bradbury são deuses. Apesar de eu ter lido ótimos livros de contos esse ano, realmente a disputa fica injusta quando esses dois estão na parada…


E agora vem O TOP 10 DE 2016!

  1. Comando Sul vol. 1: Aniquilação, de Jeff VanderMeer
  2. A cidade & a cidade, de China Miéville
  3. Cem anos de solidão, de Gabriel García Márquez
  4. Smoke and mirrors: Short fictions and illusions, de Neil Gaiman
  5. Brasyl, de Ian McDonald
  6. As profecias de Urag vol. 1: O caçador de apóstolos, de Leonel Caldela
  7. As profecias de Urag vol. 2: Deus Máquina, de Leonel Caldela
  8. O Vale do Vento Gélido vol. 1: A estilha de cristal, de R A Salvatore
  9. A cidade inteira dorme e outros contos, de Ray Bradbury
  10. A Torre Negra vol. III: As terras devastadas, de Stephen King

Então é isso, pessoal. Um feliz 2017 a todos :)


segunda-feira, 26 de dezembro de 2016

Um trecho marcante de Leonel Caldela & Deive Pazos


Ozob começou a pensar no que faria com o resto do dia e, principalmente, com a noite seguinte. Seu estômago já fervilhava, ardendo. O peito parecia estar sob um peso enorme. Eram os sintomas da lembrança, já fazia algum tempo que estava sóbrio e não tinha algo para ocupar a mente. A noção dos dois anos de vida se aproximou dele por todos os lados, fechando–se a seu redor, provocando uma espécie de claustrofobia. Pensou em começar uma briga. Lutar era sempre algo estimulante. O coração bateu mais rápido e ele andou mais rápido. Ia para lugar nenhum, mas andar rápido diminuía a sensação de que os minutos estavam passando inexoravelmente e que cada um o levava mais para perto do fim. Ele não estava fazendo nada divertido naquele momento. Era tempo perdido. Era tempo que não iria mais voltar. 
Dois anos. 
Dois anos. 
Dois anos. 
Ozob achou que estava prestes a vomitar, o coração batendo forte na garganta, quando seus implantes neurais fecharam uma sinapse. Ele estava recebendo uma mensagem pelo EgoBliss, uma das seis redes sociais instaladas nos implantes cibernéticos em seu cérebro. 
Com um comando mental, verificou a origem da mensagem. California o havia marcado como amigo. Em sua mente, Ozob viu o rosto da garota, ouviu o timbre de sua voz, foi invadido por relances de memórias que eram dela. Deu um novo comando mental, para ler a mensagem. 
Assim como todas as redes sociais, o EgoBliss era recheado de propagandas. Cada relação interpessoal tinha seus próprios patrocinadores. A amizade com California era um patrocínio de Nux–Cola. Nux–Cola, o sabor da amizade! Para acessar a mensagem, Ozob permitiu que a marca de refrigerante enviasse um comercial diretamente aos centros de prazer em seu cérebro. Foi invadido pela vontade de tomar Nux–Cola. Então pôde falar com a garota, numa interação aprovada pelas duas corporações envolvidas. 
Espero que você e a Vivika tenham se dado bem. 
— Vou precisar de uns curativos, mas foi divertido. 
Ozob mandou uma impressão de sarcasmo, que era uma imagem sua com um meio sorriso e uma sobrancelha arqueada. 
— Eu também me diverti ontem à noite. 
— Algum namorado ou namorada? 
Na verdade, estava falando de você. Gostei de conversar com você. Se quiser falar mais sobre sua sentença de morte, estou aqui. 
A menina não tinha meias–palavras. Ozob gostava disso. Parou num boteco para comprar uma Nux–Cola (a vontade parecia mastigar sua mente) e recebeu mais uma mensagem antes de responder: 
Temos outra missão hoje. Vamos agir de novo, antes que o DAA saiba o que os atingiu.
— Isso dá dinheiro? 
Dá coisa melhor que dinheiro. 
— Você vai dizer que vão de novo espalhar a música do seu messias com dentes podres? 
Hoje vamos a uma igreja com pregação antialienígena. Subsidiária da Loykos S.A. 
Era uma corporação que vendia comida processada. Mais especificamente, carne de alienígena. 
— O que vão fazer? 
Vamos invadir a igreja, é claro! Vamos ver o horror nas caras daqueles fanáticos alienfóbicos. Se quiser ir conosco, vai ser divertido. 
— Acho que preciso de outro tipo de diversão, garota. 
Tudo bem. Mas, se mudar de ideia, encontre–nos às 7 no Distrito Eclesiástico. Gostei de conversar com você. 
A imagem de California se apagou da mente dele. substituída por mais interferência da Nux–Cola em suas conexões neurais. O EgoBliss mais uma vez o lembrou que aquela amizade era patrocinada pela marca de refrigerante, fora possibilitada pela rede social e tinha sido aprovada pelo Conselho de Ética das Relações Humanas, outro órgão operado em conjunto por várias corporações. 
Ele comprou outra Nux–Cola e notou que estava sorrindo.

Leonel Caldela & Deive Pazos — Ozob vol. 1: Protocolo Molotov, 2015

Ozob em ilustração de Marco Teixeira

segunda-feira, 24 de novembro de 2014

Uma safra de grandes autores nacionais


Quem me conhece sabe que eu sou um grande entusiasta da literatura fantástica nacional, e, para quem não me conhece, muito prazer, esse sou eu.

Falo bem da produção nacional para quem quiser ouvir (às vezes até para quem não quer), e sempre posto coisas boas relativas a eles, sempre pensando em como posso fazer minha pequena parte para que eles atinjam um público maior. Sei que meu alcance ainda é pequeno, mas nunca poderão me julgar — eu nunca poderei me julgar — de não ter feito a minha parte.

Assim sendo, vou listar os grandes livros que li desses cada vez melhores autores nacionais. Vai que o você se interessa pelo título, pela sinopse ou pelas resenhas no Skoob, linkadas em cada título, e dá um apoio a mais para nossos autores...?

Os melhores livros, então, que li, seja nos gêneros de ficção fantástica (FF), ficção científica (FC) e terror/horror (TH) são:

  • Dezoito de Escorpião, de Alexey Dodsworth. Só o melhor livro de FC nacional, simples assim. Alterações genéticas, mistérios, ciência a nível hard, gatos desequilibrados, assassinos seriais e vilas misteriosas onde as sombras não mostram exatamente o que deveriam mostrar...
  • Filhos do fim do mundo, de Fábio Barreto. Uma ótima FF. Num belo dia (ou nem tão belo assim), todas as crianças recém-nascidas do mundo morrem, e as que estão nascendo não sobrevivem. Poderia um simples jornalista fazer algo para ajudar — algo que não fosse apenas ficar parado vendo os outros agirem...?
  • Menino de asas, de Homero Homem. Aposto que dessa FF muita gente se lembra, da coleção Vagalume. Uma história tocante de uma criança que nasceu com asas ao invés de braços, e os surpreendentemente sérios desdobramentos que isso acarreta em sua vida.
  • O vampiro que descobriu o Brasil, de Ivan Jaf. FF que mostra um vampiro português que veio junto aos "descobridores" do Brasil, procurando o imortal que o transformou para matá-lo e retomar sua mortalidade. Muito legal mesmo.
  • Rio 2054: Os filhos da revolução, de Jorge Lourenço. Outra excelente FC, aventuresca, futurista e realmente encantadora, mostrando um jovem da ala desfavorecida do Rio, enquanto ele descobre uma androide especial, habilidades que ele não esperava ter... e a quantidade de pessoas que passam a querer usá-lo por isso.
  • O inimigo do mundo, de Leonel Caldela. Escolhi esse livro para falar ao invés do mais famoso dele (O código élfico) porque, na minha humilde opinião, é o melhor livro de FF já escrito no Brasil. É a introdução mais perfeita ao mundo de Arton, mostrando o que causou a tempestade mortal e infernal chamada de Tormenta, que assola (e destrói) meio mundo, muitos anos antes das aventuras mostradas nos quadrinhos de Holy Avenger.
  • Blecaute, de Marcelo Rubens Paiva. Uma ótima FF, vitoriosa em um tempo em que essas histórias não faziam sucesso no Brasil. Três amigos têm a sorte (ou o azar) de escapar de um cataclismo global que mata...? — não se pode dizer, apenas parece paralisar... ou congelar... — todas as outras pessoas do mundo.
  • Anjo: A face do mal, de Nelson Magrini. Uma aventura de FF, puxada para o TH, onde forças do bem e do mal (e de todas as religiões/frentes que se pode imaginar) se confrontam de uma vez por todas... ou não. Muito legal mesmo.
  • Dragões de éter: Caçadores de bruxas, de Raphael Draccon. Essa FF não precisa nem apresentar. Uma ótima — e surpreendente — releitura dos contos de fadas, e de muito mais do que isso... Um mundo onde tudo o que um dia foi sonhado está presente.