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sexta-feira, 16 de fevereiro de 2018

Meu Mapa de Influências comentado


Como uma ideia que surgiu no Facebook — e, logo, que todo mundo repetiu —, eu também não podia ficar de fora: criei meu próprio mapa de influências enquanto escritor.

No entanto, gostaria de comentar mais sobre cada um dos autores mencionados e como eles me influenciaram.


Quando — para quem é escritor — chegamos àquele famoso momento, “quero escrever assim”, é, via de regra, porque nos deparamos com obras que nos tocam profundamente. Podemos dividir, ainda, essas obras em dois grupos: a dos escritores que nos encantam, e a dos mundos que nos encantam. Ou dizemos “quero escrever assim” ou “quero criar um mundo assim”. É, precisamente, nesses dois grupos que estão as quatro pessoas que ocupam os maiores quadros nessa montagem: Neil Gaiman, Stephen King, Hironobu Sakaguchi e J. R. R. Tolkien.

Primeiramente, Neil Gaiman. A obra dele condensa ambos os encantamentos — me encanta enquanto escritor, por dizer tanto com tão pouco, por criar climas e trazer à tona tantos sentimentos com frases simples, fugindo do rebuscamento, precisas e diretas, e ainda assim poéticas; e me encanta enquanto criador de mundos, porque o que ele fez em Deuses americanos, Os filhos de Anansi e O oceano no fim do caminho — suas obras que se passam em seu mundo de deuses — inspiraram boa parte da minha produção. Um conto meu que é totalmente inspirado na obra de Gaiman é o Nil.

Stephen King me ensinou a construir personagens. Pode–se falar o que for de suas obras (o que, na maioria das vezes, eu não concordo), mas não se pode falar que ele não é genial na construção de seus personagens. Com ele, eu percebi que todos os personagens têm uma opinião formada em relação a absolutamente cada aspecto de suas vidas, e isso afeta sua maneira de ser. Que os aspectos da vida de cada um forma o que eles são. Na obra de Stephen King, é facílimo perceber que, se os personagens envolvidos em suas tramas fossem outros, essas mesmas tramas iriam por caminhos muitíssimo diferentes. São os personagens que criam as tramas, e não o oposto. Foi por causa dele que fiz o que fiz em O arquivo dos sonhos perdidos, e que é criticado por algumas pessoas: pus personagens “comuns” numa trama épica, e o modo como eles são — ou não são — altera totalmente o que poderia se esperar da história.

Hironobu Sakaguchi entra no outro campo — o dos construtores de mundos. Para quem não conhece, ele é o criador da série Final fantasy, e essa série é a maior responsável por eu misturar magia e tecnologia em minhas obras — especialmente o que ele fez em seus “episódios” VII e XII. Sakaguchi, ao criar esses mundos, mostrou como magia e tecnologia podiam coexistir e se completar, e isso abriu minha mente para novas possibilidades. Isso, combinado com o que J. R. R. Tolkien fez em O senhor dos anéis, e que dispensa totalmente apresentações e exaltações, me fez perceber que sim, eu podia criar um mundo que juntasse tudo o que eu gosto, desde que, para isso, ele tivesse coerência — o que, no meu modo de ver, foi onde esses dois mestres mais brilharam: dar coerência para mundos totalmente fantásticos. (Nesse aspecto, mas em menor monta, coloco também o Shigeru Miyamoto, e especialmente pelo que ele fez em The legend of Zelda. Boa parte da estrutura de O arquivo é inspirada em Zelda, que me marcou muito graças à maestria de Miyamoto em criar aventuras e sub–aventuras que acabam se ligando em uma trama maior. É uma influência muito mais quanto ao “clima” da aventura, baseada em sensações, do que em elementos de trama em si — mas que não podia ser negligenciada.)

Os outros, com as fotos menores, podem ser divididos entre os que tiveram influência no início da minha escrita — ou para que eu a iniciasse, por assim dizer —, e os que estão me influenciando por agora. Dos primeiros, que me motivaram a escrever e criar histórias, estão Jules Verne e Leonel Caldela. Minha adolescência e início da vida adulta foram lendo as obras de Verne, e, mais uma vez, aquele tom de aventura e descoberta de seus livros me encantavam enormemente, e isso se refletiu n'O arquivo. Já o Caldela foi diretamente responsável por esse livro de fato existir. Através de seu romance O inimigo do mundo eu percebi que, sim, um mundo fantástico poderia ser transformado em uma história “realista” e brutal, e, durante a escrita, eu fraquejei, como o fazem muitos autores iniciantes. No finado Orkut, então, eu perguntei a ele como ele conseguiu realmente levar a cabo aquela tarefa ingrata de escrever um romance longo, e, ao contrário da minha expectativa, ele respondeu — e ainda me deu um puta incentivo para continuar. Imagino que, se ele não o tivesse feito, talvez eu não fosse um escritor hoje em dia…

Os que faltaram são os que estão me influenciando atualmente. De forma parecida com o King, o Ray Bradbury também me influencia a voltar meus olhos durante a escrita para os personagens — e ele, também como Gaiman, me mostra que pode haver poesia no modo de escrever. No entanto, enquanto o Gaiman me pauta a forma de criar fantasia e o King a de criar histórias realistas ou de suspense, o Bradbury é meu maior exemplo no campo da ficção científica. Ele me mostra que esse gênero deve ir muito além dos tecnicismos e focar no que realmente importa: as pessoas. Um conto curto em que eu aplico isso é o A distância e a espera. Já o Douglas Adams foi quem me ensinou a colocar ironia, cinismo e sarcasmo de maneira inteligente em meus textos, e que esse tipo de humor é muito melhor do que a comédia escrachada, que não vai bem na literatura — e que rir de si mesmo é a melhor maneira de rir da humanidade. Além, é claro, de usar o nonsense para compôr o humor causado pelo estranhamento — e que fiz no conto Aquecimento global (Em fogo alto). O Haruki Murakami foi o penúltimo a ter adentrado esse rol de escritores, e é um dos meus preferidos da atualidade. Existem outros preferidos que não entraram na lista de influências, e por quê? Porque Murakami me ensinou algo que nenhum dos outros pôde: a ter calma para contar minhas histórias. A dar atenção a pequenos detalhes do cotidiano, a sentimentos, a impressões, a eventos banais e que acabam influenciando um personagem muito mais do que parece. E, também, além disso, a incluir eventos esdrúxulos em minhas histórias fazendo–os parecer perfeitamente banais e corriqueiros, hehe. Talvez o meu conto que mais reflita isso seja o Into blue. E, por último, o cineasta David Lynch, que merece um parágrafo próprio.

Existem modos e modos de se contar histórias. Existem jornadas do heróis, existem narrativas epistolares, existem outros tipos de storytelling… e existem as colchas de retalhos de Lynch. Assistir a um filme dele não é fácil, mas é recompensador. Bom, talvez não seja recompensador na primeira assistida, haha, mas se você persistir e revê–lo, talvez mais de uma vez, as coisas começam a fazer sentido… ou não! Mas a intenção de Lynch nunca foi a tradicional de passar uma mensagem clara; pelo contrário, ele espera que o expectador construa sua própria versão dos fatos, e entenda a história de sua própria maneira. Tudo bem que eu acho que ele passa um tanto da conta às vezes, hehe, mas o que ele me ensinou é que existem outras maneiras de contar as histórias, e, especialmente, maneiras que exijam atenção, reflexão e o raciocínio daquele que está consumindo sua história! Fiz isso em minha última obra publicada, o conto Sob a sua árvore, e estou fazendo no romance que estou escrevendo, totalmente diferente de qualquer outra coisa que eu já publiquei. Nessas duas obras, se o leitor não prestar atenção e raciocinar sobre o que está lendo, pode ter certeza de que chegará ao final com um gosto estranho na boca. E, arrisco dizer, que esse modo de contar histórias irá pautar boa parte da minha produção de agora em diante…

quarta-feira, 10 de janeiro de 2018

Retrospectiva Literária 2017


E, seguindo a tradição do blog, chegamos ao fim de mais um ano de leituras e escritas — e trago a vocês a Retrospectiva Literária do ano de 2017 :D

Em 2016 inaugurei maisoumenasmente a seção com as minhas obras lançadas — foi o ano em que eu deixei de ser somente um leitor e passei a ser um autor publicado. Agora oficializo: começarei sempre com as minhas obras lançadas no ano! Nesse, foram nada menos que cinco! E bem balanceadas em seus gêneros: duas de ficção realista — o romance Nefelibata ou O fotógrafo, e o conto Apreensão, que saiu pela revista Gueto e foi premiado na 27.ª edição do Prêmio Cataratas de Contos e Poesias —; uma de ficção científica — o conto Sob a sua árvore —; e duas de fantasia — os contos que saíram nas coletâneas dos sites Mitografias e Leitor Cabuloso, respectivamente E tudo vai ficar pior e Enquanto vagueio pelas cinzas do mundo.






No campo da leitura, eu também não poderia ter tido um ano mais feliz, porque eu simplesmente bati meu recorde de leitura anual de toda a minha vida! Foram 68 obras lidas — e, com toda a tranquilidade, afirmo que isso só foi possível por causa da aquisição do meu Kindle (primeiro, o básico; depois, o Paperwhite). Ele me possibilitou ler muito mais do que as possibilidades de carregar livros de papel permitiam, além de também me dar acesso a ótimas obras autopublicadas, inexistentes em formato físico. Assim sendo, vamos à lista das leituras de 2017:

  1. A Voz de Delirium: Ano 1, de André Monsev & Lucas Kircher;
  2. Ozob: Protocolo Molotov, de Leonel Caldela & Deive Pazos;
  3. Alerta de risco: Contos e perturbações,
  4. Deuses americanos (releitura), e
  5. Mitologia nórdica, de Neil Gaiman;
  6. Sinal e ruído, de Neil Gaiman & Dave McKean;
  7. Contos da taberna, e
  8. 2001: Uma odisseia no espaço, de Arthur C. Clarke;
  9. O vermelho e o negro, de Stendhal;
  10. O risonho cavalo do príncipe, e
  11. A estranha máquina extraviada, de José J. Veiga;
  12. O encontro marcado, de Fernando Sabino;
  13. Interface com o vampiro,
  14. Os dias da peste vol. 1, e
  15. De A a Z: Dicas para escritores, de Fábio Fernandes;
  16. Mundos paralelos, organizada por Felipe Sali;
  17. Zé Calabros na terra dos cornos, de Tiago Moreira;
  18. Memória da água, de Emmi Itäranta;
  19. Ficção de polpa vol. 1, organizada por Samir Machado de Machado;
  20. A hora e vez de Augusto Matraga, de João Guimarães Rosa;
  21. Um gato chamado Borges, de Vilto Reis;
  22. Areia nos dentes, de Antônio Xerxenesky;
  23. Mulheres fatais, organizada por Rô Mierling;
  24. Melhor seria nunca ter existido, de Daniel Pellizzari;
  25. A Torre Negra vol. IV: Mago e vidro, e
  26. Sobre a escrita, de Stephen King;
  27. Memorial do convento, de José Saramago;
  28. Extemporâneo, e
  29. Glamour, de Alexey Dodsworth;
  30. O império das formigas vol. 1: As formigas, de Bernard Werber;
  31. Teorema de Mabel, de Matheus Ferraz;
  32. Ouça a canção do vento / Pinball, 1973,
  33. Caçando carneiros, e
  34. Minha querida Sputnik, de Haruki Murakami;
  35. Louco: Fuga, de Rogério Coelho;
  36. The 42nd Street Band, de Renato Russo;
  37. O mago e o guerreiro, de Diogo Ramos;
  38. Wild cards vol. 1: O começo de tudo, editada e organizada por George R. R. Martin;
  39. Antologia Mitografias vol. 1: Mitos modernos, organizada por Leonardo Tremeschin, Andriolli Costa & Lucas Rafael Ferraz;
  40. Unicelular, de Tarsis Magellan;
  41. Orgulho e preconceito, de Jane Austen;
  42. Limbo, de Thiago d'Evecque;
  43. Picta mundi, de Gleice Couto;
  44. O jardim secreto, de Frances Hodgson Burnett;
  45. Na eternidade sempre é domingo, de Santiago Santos;
  46. A menina submersa, de Caitlín R. Kiernan;
  47. Sandokan & Bakunine, de Bruno Margo;
  48. A situação, de Jeff VanderMeer;
  49. Lobo de rua, de Jana P. Bianchi;
  50. As águas–vivas não sabem de si, de Aline Valek;
  51. Alétheia, de Soraya Coelho;
  52. O zen e a arte da escrita, de Ray Bradbury;
  53. Trabalho honesto, de Rodrigo van Kampen;
  54. O espadachim de carvão e as pontes de Puzur, de Affonso Solano;
  55. Origem, de Dan Brown;
  56. Realidades cabulosas: Ano 1, organizada por Lucas Rafael Ferraz & eu;
  57. Um berço de heras, de Anna Fagundes Martino;
  58. Welcome to Night Vale, de Joseph Fink & Jeffrey Cranor;
  59. As vantagens de ser invisível, de Stephen Chbosky;
  60. Os cem melhores contos brasileiros do século, organizada por Italo Moriconi;
  61. revista Trasgo #04,
  62. revista Trasgo #07,
  63. revista Trasgo #09,
  64. revista Trasgo #11,
  65. revista Trasgo #12,
  66. revista Trasgo #13,
  67. revista Trasgo #14, e
  68. revista Trasgo #15, organizadas e editadas por Rodrigo van Kampen.
Então, sem perda de tempo, vamos às premiações do ano :D


O MELHOR LIVRO INTERNACIONAL DE 2017


Nossa, é impressionante como li poucos livros internacionais nesse ano...! Assim sendo, tive que decidir por uma releitura para ganhar esse prêmio — porque Deuses americanos é mesmo um livro muito muito foda; acho que é, afinal, o melhor do Neil Gaiman. Essa nova edição, então, é um primor: a textura da capa, a fonte utilizada, a nova tradução... Não tem como não amar :)


O MELHOR LIVRO NACIONAL DE 2017:


Rapaz, com tantas leituras nacionais nesse ano, foi difícil pra caramba escolher o “melhor"... Obras excelentes como Zé Calabros na terra dos cornos, Extemporâneo, Glamour e A Voz de Delirium: Ano 1 me deram dor de cabeça para escolher, então acabei me decidindo pela obra que mais mexeu com minhas emoções: Unicelular — tanto no deliciamento pela imersão no ambiente criado pelo autor, Tarsis Magellan, quanto no nervoso que me deu o desenrolar desse thriller de ficção científica, quanto pelo encantamento que me causou uma obra autopublicada tão esmerada quanto essa.


Partimos, então, para os destaques por gênero, excluindo–se as obras já premiadas.


O DESTAQUE DE FICÇÃO CIENTÍFICA DE 2017:


É difícil ter lido Alexey Dodsworth e não colocá–lo numa lista de “melhores do ano". Não li um livro dele que não tenha sido, no mínimo, ótimo — seja por uma editora, seja por outra, seja autopublicado. Extemporâneo é outra de suas obras ótimas, e acredito que meio central em sua produção, porque parece amarrar muitas das coisas escritas por ele. Em resumo, é um ótimo livro para começar a ler sua obra.

Como menção honrosa, o ótimo — e climático, e melancólico — Memória da água, que apresenta um futuro distópico original e incômodo pra cacete, onde a China domina o mundo e a água está cada vez mais escassa, controlada pelo governo, como não poderia deixar de ser.


O DESTAQUE DE FICÇÃO FANTÁSTICA DE 2017:


2017 foi o ano da autopublicação, e os destaques dessa categoria refletem isso. Zé Calabros na terra dos cornos é uma obra originalíssima de fantasia que se passa em uma terra que é uma versão do Nordeste brasileiro, com cangaceiros, coronéis e tudo o que a região tem direito. Contudo, ela integra outros elementos de outras culturas, como magos, dragões e gigantes, mas faz isso com muita naturalidade e com muita qualidade literária. É uma obra que tem tudo para despontar se — quando — for descoberta por uma editora grande. Estou ansioso pela continuação.

A menção honrosa é para outra ótima obra de Alexey Dodsworth, Glamour, dessa vez mais voltada para a fantasia urbana do que para a FC. Também integrada ao “Dodsverso", traz de volta a melhor personagem de Extemporâneo, a Cassandra.


O DESTAQUE DE FICÇÃO REALISTA OU REALISMO MÁGICO DE 2017:


Curiosa essa escolha. Murakami é um dos meus autores preferidos atualmente, e num ano em que li duas das maiores obras dele — Caçando carneiros e Minha querida Sputnik —, escolher justamente suas duas novelas de estreia e, ainda por cima, como menção honrosa... É que As vantagens de ser invisível é tão redondinho, tão bem escrito, tão gostosinho que, como, digamos, conjunto da obra, que não teve como não escolhê–lo como destaque. Além disso, Ouça a canção do vento / Pinball, 1973 tem um apelo muito mais emocional para mim do que suas obras mais famosas.


E, agora, A SURPRESA DO ANO DE 2017:


Duas obras nacionais como surpresas do ano! A obra em destaque, Ozob vol. 1: Protocolo Molotov, me surpreendeu de verdade. Claro que o autor principal da obra, Leonel Caldela, é o meu preferido autor de fantasia nacional, mas por ser uma derivação do Nerdcast especial de RPG, imaginei que pudesse seguir o exemplo da série Ruff Ghanor e ser dispensável como ela, mas acabei percebendo, com muita felicidade, que não, que o livro do Ozob tem muita qualidade como literatura cyberpunk, desde que você saiba ligar o quesefodômetro e curtir as loucuras e referências da aventura criada pelo Deive Pazos, o Azaghal.

Como menção honrosa, a ótima obra de fantasia urbana com toques de ficção científica Trabalho honesto, do Rodrigo van Kampen, criador e responsável pela excelente revista Trasgo, e aqui mostrando que é também um ótimo escritor e criador de mundos.


E então a inevitável DECEPÇÃO DO ANO DE 2017:


Nunca imaginei que eu teria Gaiman como a decepção do ano e King como menção honrosa, mas o monstro da expectativa é mesmo uma merda, né? Eu esperava que Mitologia nórdica fosse um livro do Neil Gaiman, mas não é: poderia ter sido o livro de qualquer escritor reescrevendo, muito mais que recontando, as histórias já conhecidas dessa mitologia, e nada mais do que isso. Sem surpresas, sem novidades, sem o jeitinho Gaiman de contar. Foi o primeiro livro dele que abandonei na vida. Já o Mago e vidro, volume 4 de A Torre Negra, poderia ter sido um livro bem menos maçante se o flashback fosse menos que praticamente o livro inteiro. Sério, devem ser umas 400 páginas ou mais de flashback — ou seja: uma história da qual já sabemos o final. Se Roland tivesse contado, como fez, a história ao redor de uma fogueira, num momento crucial do livro, mas em diálogo, teria tido o mesmíssimo efeito.


Agora, O PIOR LIVRO DO ANO DE 2017:


Não foi dessa vez que os escritores top do Wattpad me convenceram, pelos motivos que eu expliquei muito bem nessa resenha. O outro, também uma coletânea de contos, também é fraquinho, e esse eu nem me motivei a ler até o final.


Agora, falando de coisa boa, O MELHOR LIVRO DE CONTOS DE 2017:


É inevitável escolher essa fantástica antologia organizada pelo Italo Moriconi com os cem melhores contos brasileiros do século XX; realmente é de se imaginar que o sumo da literatura mainstream está ali. Não estão muitos bons contos da ficção fantástica, é claro, mas não era esse o foco da seleção. Como menção honrosa, mais uma excelente antologia do Neil Gaiman. Smoke and mirrors esteve na premiação do ano passado, Alerta de risco está nesse, e aposto que no ano em que houver antologia nova estará também :)


Então, dentre esses, vou formular O TOP 10 DE 2017:


  1. Deuses americanos, de Neil Gaiman
  2. Unicelular, de Tarsis Magellan
  3. Os cem melhores contos brasileiros do século, organizado por Italo Moriconi
  4. Zé Calabros na terra dos cornos, de Tiago Moreira
  5. Extemporâneo, de Alexey Dodsworth
  6. Alerta de risco: Contos e perturbações, de Neil Gaiman
  7. Glamour, de Alexey Dodsworth
  8. As vantagens de ser invisível, de Stephen Chbosky
  9. Ouça a canção do vento / Pinball, 1973, de Haruki Murakami
  10. Ozob vol. 1: Protocolo Molotov, de Leonel Caldela & Deive Pazos


Mas como assim, Rahmati, Ozob é melhor do que Orgulho e preconceito, ou os livros do Murakami, ou que tantos outros lidos nesse ano?! A questão é: eu não disse que esses livros são ruins. Muito menos que não são bons. São ótimos. O negócio é que esses 10 aí são os livros que mais me divertiram, dado o que eu gosto de ler. Se perguntarem qual é melhor: Ozob ou Orgulho e preconceito, eu vou dizer que certamente o segundo é literariamente mais relevante, e provavelmente muito melhor, mas o livro capa dura que está na minha estante é o primeiro :)

Assim sendo, se você não concorda com minhas escolhas, azar o seu e feliz 2018 :D

sábado, 20 de fevereiro de 2016

Os meus Cinco Preferidos - de todos os tempos!


Fazer um top de qualquer coisa e qualquer quantidade sempre é difícil, não é? Esse não foi. Não mesmo. Dentre tudo o que eu gosto em literatura, esses 5 livros sempre estiverem um degrau acima. São os exemplos do que eu gosto, são o resumo do que eu espero em um livro, são as obras que eu gostaria de ter escrito, são os livros que eu levaria para qualquer lugar em que só me fosse permitido levar 5 livros.

Fazer um top deixa uma falsa impressão de que o que está fora dela não presta. Muito pelo contrário; existem muitos livros que poderiam substituir esses numa hipotética ilha deserta se esses não fossem possíveis de serem levados. No entanto, uma vez que eles podem ser escolhidos, eles o foram.

E são eles:


O SENHOR DOS ANÉIS


Para um escritor de fantasia, não há novidade aqui. O senhor dos anéis é a obra máxima do gênero — e pessoas mais ousadas poderiam dizer que é a obra máxima de qualquer gênero. Embora não tenha personagens femininas suficientes — a única que agradaria em termos de força seria a Eowyn —, é uma baita história sobre a amizade, sobre o senso de dever e sobre, acima de tudo, fazer o que é certo. É assim que eu vejo essa história.


O GUIA DO MOCHILEIRO DAS GALÁXIAS


Também não há novidade para um amante de ficção científica — O guia do mochileiro das galáxias é, por muitos, considerada a obra máxima desse gênero. Até mesmo as poucas pessoas que não gostam dele admitem sua importância — até para o nosso mundo real (um dos primeiros tradutores online foram inspirados nele, assim como a Wikipedia, para dar alguns exemplos). Sem falar do humor inteligente da obra, que mescla o insano e o exagerado a acidíssimas críticas ao nosso mundo moderno.


DEUSES AMERICANOS


Neil Gaiman é, atualmente, o meu escritor preferido. Não sei se é por causa da sua sutileza, se é por causa de sua prosa poética, se é por causa do jeito que ele escolhe as palavras, se é por causa dos seus temas... Talvez seja por tudo isso junto. Gaiman encontra a magia nas coisas do nosso dia-a-dia. Deuses americanos foi a primeira obra que li dele, e por pouco acho essa obra a minha preferida. O oceano no fim do caminho é um páreo duro, mas creio que esse seja mais completo. Como disse Bolaño, O oceano é seu exercício perfeito, sua batalha ganha, enquanto Deuses é a sua guerra completa, onde tudo o que Gaiman é escorre pelas páginas, em seus aspectos bons e ruins.


A ESTRADA


Curiosamente, A estrada está aqui por motivos contrários ao Deuses americanos — ele está aqui por sua concisão. Pela poesia de suas linhas. Pela sutileza com que Cormac McCarthy conduz seus personagens e trama em um mundo cruel, duro e estéril. É, sem dúvida, a distopia mais realista já escrita.


KAFKA À BEIRA-MAR


E essa é a minha escolha mais curiosa: Kafka à beira-mar, do japonês Haruki Murakami. Esse livro simplesmente mudou a minha forma de ver a literatura. Murakami me mostrou que, sim, esse tipo de história pode ser escrita. Nem tudo tem que fazer sentido. Nem todas as pontas têm que ser amarradas, nem tudo tem que ter explicação. Nada precisa ter explicação, se você não quiser. Você pode criar personagens incríveis e cheios de camadas, você pode criar um personagem transgênero e homossexual ao mesmo tempo — e que é confuso até a si mesmo!

Foi Murakami com seu Kafka à beira-mar quem me mostrou que a literatura não precisa seguir nenhum exemplo.

Que o papel foi feito para registrar o que existe dentro da cabeça do escritor.

sábado, 1 de agosto de 2015

Mas é realismo mágico ou fantasia?

(Originalmente publicado no Papo de Cafeteria, republicado no Monomaníacos, discutido no CabulosoCast #122 - A (polêmica) literatura fantástica nacional, e gerou minha participação no CabulosoCast #149 - Realismo mágico)

Cena do filme A estrada, baseado no livro de Cormac McCarthy.

Existe muita confusão sobre o tal do gênero conhecido como realismo mágico. Como se pode ser realista quando se fala de alguma coisa mágica? Seria esse um gênero mainstream disfarçado de fantasia para vender mais, ou um jeito que a fantasia deu de se enfiar no meio mainstream? No que ele difere da ficção fantástica tradicional?

É aceito que o realismo mágico tenha surgido na América Latina com escritores como Jorge Luis Borges, Gabriel García Márquez, Julio Cortázar e outros — mas isso se considerarmos estritamente o gênero de prosa produzida por esses senhores. Contudo, existem muitos outros escritores — inclusive fora da América Latina — que fazem obras que, nitidamente, bebem das mesmas fontes desses pioneiros; seriam, então, assim, excluídos do “gênero” por não estarem na mesma sombra geográfica? Mas, espere (você pode se perguntar); se não for assim, como sempre me foi dito, como eu vou identificar o que é realismo mágico e o que é ficção fantástica, ou fantasia? Bom, para começar a polêmica, já começo defendendo de que tudo é ficção fantástica. Daí podemos subdividir em fantasia, ficção científica, realismo mágico, terror, new weird… E então chegamos ao cerne: qual a diferença entre realismo mágico e fantasia, e como identificá-los?

Comecemos pelo mais fácil — a fantasia. O que é uma obra de fantasia? Parece óbvio dizer que O senhor dos anéis do Tolkien é fantasia, assim como As crônicas de gelo e fogo do George Martin. Temos dragões, magia e mortos-vivos em ambos. A Torre Negra do Stephen King também; temos portais dimensionais, ora! Em Deuses americanos do Neil Gaiman temos, bem, deuses!, assim como em O inimigo do mundo do Leonel Caldela. Até aqui tudo bem. Se não houvesse esses elementos, esses mundos se desfigurariam completamente. Não há Terra Média sem magia, sem magos e sem orcs; não há Arton sem elfos, deuses e kobolds. A América de Deuses americanos é moldada pelo “mundo atrás do palco”, e o mundo d’O pistoleiro é uma versão do nosso. Retirando-se o Um Anel, Gandalf ou Sauron, ainda sobram inúmeros elementos fantásticos em O senhor dos anéis, pois essa obra é feita disso. Do mesmo modo, o mundo d’A Torre Negra seguiu adiante, com ou sem Roland Deschain. E Arton sem a Tormenta continua sendo Arton. Agora… poderíamos dizer que o mesmo acontece em obras como A estrada do Cormac McCarthy, Kafka à beira-mar do Haruki Murakami, A metamorfose do Franz Kafka, Memórias póstumas de Brás Cubas do Machado de Assis, A menina que roubava livros do Markus Zusak…? (Perceberam que não mencionei nenhum dos autores latinos supracitados, não é?)

É nítido e evidente que os elementos fantásticos estão presentes nessas obras. A estrada fala sobre um mundo pós-apocalíptico; em Kafka à beira-mar temos um senhor que fala com gatos (e eles se entendem mutuamente, fique claro) e outras coisinhas mais; o protagonista de A metamorfose vira um inseto gigante; e em Memórias póstumas de Brás Cubas e A menina que roubava livros, quem narra as estórias são, respectivamente, um morto e a Morte. Contudo, eu também pergunto: Sem esses elementos fantásticos, as histórias perdem suas importâncias? Vamos lá, a resposta é fácil: não. A estrada não é sobre o mundo apocalíptico; é sobre o amor de um pai pelo filho na adversidade extrema. Em qualquer outro cenário semelhante aquilo funcionaria tão bem quanto. Perdidos no deserto de Gobbi ou no Atacama, em Marte ou no Ártico. Memórias póstumas… e A menina… têm somente narradores incomuns, o que torna suas estórias únicas, mas elas são perfeitamente possíveis em nosso mundo real. A metamorfose é sobre a melancolia, sobre o sofrimento de um ser humano que não vê sua utilidade no mundo, e Kafka à beira-mar tem em seus elementos fantásticos apenas adornos de um algo maior. E assim também é com A revolução dos bichos do George Orwell, Ensaio sobre a cegueira do José Saramago, Horizonte perdido do James Hilton, Incidente em Antares do Érico Veríssimo…

Então, essa definição é a final? Claro que não. Muitos estudiosos — ou chatos, como preferirem — não admitem que o realismo mágico seja mais do que aquela literatura de nicho feita na América Latina. Isso, contudo, a meu ver, seria semelhante a dizer que não há fantasia fora da Europa ou ficção científica fora da literatura escrita em inglês.

É quase como dizer que Star wars é fantasia e não ficção científica, mesmo tendo uma explicação para a Força e alienígenas serem aceitos na ficção científica de O fim da infância do Arthur C. Clarke e não em… Bom, mas acho que esse assunto terá que ficar para um próximo artigo.

Ilustração para o livro A Torre Negra vol. 1: O pistoleiro.