Postagem em destaque

Links para a obra do Rahmati

Nesse post você tem acesso a todas as minhas obras publicadas :) Os links para compra / leitura / download estão embaixo de cada imagem. ...

Mostrando postagens com marcador Stephen King. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Stephen King. Mostrar todas as postagens

sexta-feira, 4 de maio de 2018

Leituras de Abril


Primeiramente, fora Temer. Segundamente, peço desculpas aos leitores do bróg por estar postando apenas esses posts de leituras do mês, e tão menos os posts, digamos, temáticos, ou monotemáticos, sei lá — mas vocês entenderam a ideia. É que está faltando tempo mesmo. Paciência. Mas, justamente por isso, esses posts “condensadões" são úteis; falo sobre todos os livros que quero falar e não deixo o blog morrer.

Esse mês de abril foi cheio de emoções, e nem todas elas boas. Li uns livros muito bons, descobri uma doença degenerativa na minha coluna, passei um final de semana num pesqueiro, terminamos — finalmente! —, eu e o Luís Beber, de escrever nosso livro em parceria (para lançamento em breve)… Enfim, vocês perceberam que realmente foi um mês de altos e baixos. E espero que os altos se proliferem e os baixos fiquem contornáveis :)

Mas vamos às obras do mês!


ROMANCES:



Que eu sempre gostei do Stephen King não é segredo, mas, mais uma vez, ele conseguiu me surpreender com Joyland. Dizem que não se deve julgar um livro pela capa, mas confesso que o que mais me atraiu nessa foi a ruiva que eu vim a descobrir ser a personagem Erin Cook. Essa ilustração, além de ser linda, muitíssimo bem executada, reflete perfeitamente a alma do livro — não que ela represente uma cena, exatamente, do romance, mas todos os elementos — e o clima — da ilustração são fidedignos ao que se encontra na história. Então, e a história? Vou contar a vocês que nunca imaginei que Stephen King pudesse ser tão… murakamesco. Quê?! Murakami e King na mesma frase? Sim! Olha que fantástico! Devin Jones, o protagonista de Joyland, poderia muito bem ser um personagem escrito pelo japonês — é melancólico, é uma boa pessoa, adora caminhar para aproveitar seus momentos de introspecção, é altamente mediano (mas com eventuais arroubos de protagonismo)… mas, apesar disso tudo, é um personagem cativante. Os coadjuvantes, como em qualquer obra do King, são adoráveis; bem-construídos e realistas — tanto que, lá pela metade do livro, eu me pego pensando: “que merda… esse é um livro do Stephen King… logo, logo, alguém vai se foder grandão… alguém ou todo mundo… vai vendo…" — mas, incrivelmente, não! Não estou dando spoiler; estou só dizendo que esta não é uma história típica do Stephen King! Arrisco mais uma vez dizer que é uma história que Haruki Murakami escreveria se fosse obrigado a escrever um thriller. Então, acreditem no que eu digo: o mestre King sempre surpreende. Leiam sem receio.



Mais uma vez, outro que deixei passar o hype para ler o Guerra do velho, e posso dizer com toda a tranquilidade: QUE LIVRO FODA. A começar pela capa, que vende exatamente o que a história é. Passando pela escrita do John Scalzi, que é leve, fluida e sem grandes pretensões. Continuando pelos personagens, que são cativantes e bem construídos (só acho que o protagonista é sortudo até demais…). E culminando na história, que, basicamente — e o autor não esconde isso de ninguém — pegou a ideia apresentada em Tropas estelares e a ampliou para um universo interessante, variado e coeso, com adendos de incrível criatividade. Guerra do velho pega o que foi consolidado com as grandes space operas do passado e entrega uma história moderna e deliciosa. 'Bora pro próximo livro, o As Brigadas Fantasma :)



E, enfim, a trilogia Comando Sul do escritor Jeff VanderMeer termina, com o romance Aceitação… e eu tenho algumas considerações tanto do romance quanto da trilogia em geral — e, inclusive, do filme Aniquilação. Mas, Rahmati, do filme também? Sim, porque o filme é um resumão da trilogia toda. Mas, antes, ao que interessa: esse terceiro volume é tão bom quanto o primeiro, ou mesmo tão razoável quanto o segundo? A resposta é simples: não. E talvez o culpado disso seja o filme. Vejam bem, não estou dizendo que os livros são ruins. A história toda é uma das coisas mais estranhas que eu já li — aliás, essa seria uma boa definição das duas mídias, livros e filme: é uma grande história de estranhamento com momentos de terror. Só que, enquanto o primeiro volume te introduz num mundo original para caramba, o segundo monta as bases e o terceiro dá os toques finais — porque não dá explicações, coisa que o filme faz. O problema é que os livros, falando do Autoridade e do Aceitação, enrolam demais. Dava, com folga, para ter feito um único livro, lá com suas 450 páginas, mas que fosse mais direto ao ponto, assim como o filme fez. Então o filme é uma boa adaptação? É! Porque tudo o que tem no livro está lá de alguma forma (e aqui vão os spoilers de ambos): o bicho que grita, que foi transposto para o urso decomposto; o duplo do faroleiro, que virou o duplo do marido da bióloga; o rastejador, que se transformou no alien do final… Só não gostei do filme ter entregado a origem da Área X na primeira cena, mostrando o meteoro. Mas… e o personagem John Rodriguez, o Controle? Sério: o que ele fez no livro? Serviu para quê? Não fez falta nenhuma. Em resumo: eu explico a Área X para mim mesmo como uma espécie de câncer do planeta. No filme, é aquele câncer que mata rapidamente; no livro, é o que mata aos poucos.



Comentários nesse post :)


* * *


CONTO:


Mais um ótimo texto do Leonel Caldela, esse conto O cão é bem-escrito, denso, dramático e impactante. É uma história de fantasia que dialoga com outras obras do autor, como O código élfico e O caçador de apóstolos, mas não creio que se passe realmente no universo de alguma delas. É mais como uma “realidade alternativa", acho (coisa que gosto de fazer nas minhas obras também; todas têm elementos umas das outras). Para não variar, Leonel é brutal com seus personagens — e, aqui, isso se reflete principalmente no final, porque, apesar de eu imaginar que havia alguma coisa ali, eu jamais poderia esperar aquilo. Mais um ponto para o Caldela, e espero ansiosamente sua próxima obra que não for da série Ruff Ghanor.

sexta-feira, 16 de fevereiro de 2018

Meu Mapa de Influências comentado


Como uma ideia que surgiu no Facebook — e, logo, que todo mundo repetiu —, eu também não podia ficar de fora: criei meu próprio mapa de influências enquanto escritor.

No entanto, gostaria de comentar mais sobre cada um dos autores mencionados e como eles me influenciaram.


Quando — para quem é escritor — chegamos àquele famoso momento, “quero escrever assim”, é, via de regra, porque nos deparamos com obras que nos tocam profundamente. Podemos dividir, ainda, essas obras em dois grupos: a dos escritores que nos encantam, e a dos mundos que nos encantam. Ou dizemos “quero escrever assim” ou “quero criar um mundo assim”. É, precisamente, nesses dois grupos que estão as quatro pessoas que ocupam os maiores quadros nessa montagem: Neil Gaiman, Stephen King, Hironobu Sakaguchi e J. R. R. Tolkien.

Primeiramente, Neil Gaiman. A obra dele condensa ambos os encantamentos — me encanta enquanto escritor, por dizer tanto com tão pouco, por criar climas e trazer à tona tantos sentimentos com frases simples, fugindo do rebuscamento, precisas e diretas, e ainda assim poéticas; e me encanta enquanto criador de mundos, porque o que ele fez em Deuses americanos, Os filhos de Anansi e O oceano no fim do caminho — suas obras que se passam em seu mundo de deuses — inspiraram boa parte da minha produção. Um conto meu que é totalmente inspirado na obra de Gaiman é o Nil.

Stephen King me ensinou a construir personagens. Pode–se falar o que for de suas obras (o que, na maioria das vezes, eu não concordo), mas não se pode falar que ele não é genial na construção de seus personagens. Com ele, eu percebi que todos os personagens têm uma opinião formada em relação a absolutamente cada aspecto de suas vidas, e isso afeta sua maneira de ser. Que os aspectos da vida de cada um forma o que eles são. Na obra de Stephen King, é facílimo perceber que, se os personagens envolvidos em suas tramas fossem outros, essas mesmas tramas iriam por caminhos muitíssimo diferentes. São os personagens que criam as tramas, e não o oposto. Foi por causa dele que fiz o que fiz em O arquivo dos sonhos perdidos, e que é criticado por algumas pessoas: pus personagens “comuns” numa trama épica, e o modo como eles são — ou não são — altera totalmente o que poderia se esperar da história.

Hironobu Sakaguchi entra no outro campo — o dos construtores de mundos. Para quem não conhece, ele é o criador da série Final fantasy, e essa série é a maior responsável por eu misturar magia e tecnologia em minhas obras — especialmente o que ele fez em seus “episódios” VII e XII. Sakaguchi, ao criar esses mundos, mostrou como magia e tecnologia podiam coexistir e se completar, e isso abriu minha mente para novas possibilidades. Isso, combinado com o que J. R. R. Tolkien fez em O senhor dos anéis, e que dispensa totalmente apresentações e exaltações, me fez perceber que sim, eu podia criar um mundo que juntasse tudo o que eu gosto, desde que, para isso, ele tivesse coerência — o que, no meu modo de ver, foi onde esses dois mestres mais brilharam: dar coerência para mundos totalmente fantásticos. (Nesse aspecto, mas em menor monta, coloco também o Shigeru Miyamoto, e especialmente pelo que ele fez em The legend of Zelda. Boa parte da estrutura de O arquivo é inspirada em Zelda, que me marcou muito graças à maestria de Miyamoto em criar aventuras e sub–aventuras que acabam se ligando em uma trama maior. É uma influência muito mais quanto ao “clima” da aventura, baseada em sensações, do que em elementos de trama em si — mas que não podia ser negligenciada.)

Os outros, com as fotos menores, podem ser divididos entre os que tiveram influência no início da minha escrita — ou para que eu a iniciasse, por assim dizer —, e os que estão me influenciando por agora. Dos primeiros, que me motivaram a escrever e criar histórias, estão Jules Verne e Leonel Caldela. Minha adolescência e início da vida adulta foram lendo as obras de Verne, e, mais uma vez, aquele tom de aventura e descoberta de seus livros me encantavam enormemente, e isso se refletiu n'O arquivo. Já o Caldela foi diretamente responsável por esse livro de fato existir. Através de seu romance O inimigo do mundo eu percebi que, sim, um mundo fantástico poderia ser transformado em uma história “realista” e brutal, e, durante a escrita, eu fraquejei, como o fazem muitos autores iniciantes. No finado Orkut, então, eu perguntei a ele como ele conseguiu realmente levar a cabo aquela tarefa ingrata de escrever um romance longo, e, ao contrário da minha expectativa, ele respondeu — e ainda me deu um puta incentivo para continuar. Imagino que, se ele não o tivesse feito, talvez eu não fosse um escritor hoje em dia…

Os que faltaram são os que estão me influenciando atualmente. De forma parecida com o King, o Ray Bradbury também me influencia a voltar meus olhos durante a escrita para os personagens — e ele, também como Gaiman, me mostra que pode haver poesia no modo de escrever. No entanto, enquanto o Gaiman me pauta a forma de criar fantasia e o King a de criar histórias realistas ou de suspense, o Bradbury é meu maior exemplo no campo da ficção científica. Ele me mostra que esse gênero deve ir muito além dos tecnicismos e focar no que realmente importa: as pessoas. Um conto curto em que eu aplico isso é o A distância e a espera. Já o Douglas Adams foi quem me ensinou a colocar ironia, cinismo e sarcasmo de maneira inteligente em meus textos, e que esse tipo de humor é muito melhor do que a comédia escrachada, que não vai bem na literatura — e que rir de si mesmo é a melhor maneira de rir da humanidade. Além, é claro, de usar o nonsense para compôr o humor causado pelo estranhamento — e que fiz no conto Aquecimento global (Em fogo alto). O Haruki Murakami foi o penúltimo a ter adentrado esse rol de escritores, e é um dos meus preferidos da atualidade. Existem outros preferidos que não entraram na lista de influências, e por quê? Porque Murakami me ensinou algo que nenhum dos outros pôde: a ter calma para contar minhas histórias. A dar atenção a pequenos detalhes do cotidiano, a sentimentos, a impressões, a eventos banais e que acabam influenciando um personagem muito mais do que parece. E, também, além disso, a incluir eventos esdrúxulos em minhas histórias fazendo–os parecer perfeitamente banais e corriqueiros, hehe. Talvez o meu conto que mais reflita isso seja o Into blue. E, por último, o cineasta David Lynch, que merece um parágrafo próprio.

Existem modos e modos de se contar histórias. Existem jornadas do heróis, existem narrativas epistolares, existem outros tipos de storytelling… e existem as colchas de retalhos de Lynch. Assistir a um filme dele não é fácil, mas é recompensador. Bom, talvez não seja recompensador na primeira assistida, haha, mas se você persistir e revê–lo, talvez mais de uma vez, as coisas começam a fazer sentido… ou não! Mas a intenção de Lynch nunca foi a tradicional de passar uma mensagem clara; pelo contrário, ele espera que o expectador construa sua própria versão dos fatos, e entenda a história de sua própria maneira. Tudo bem que eu acho que ele passa um tanto da conta às vezes, hehe, mas o que ele me ensinou é que existem outras maneiras de contar as histórias, e, especialmente, maneiras que exijam atenção, reflexão e o raciocínio daquele que está consumindo sua história! Fiz isso em minha última obra publicada, o conto Sob a sua árvore, e estou fazendo no romance que estou escrevendo, totalmente diferente de qualquer outra coisa que eu já publiquei. Nessas duas obras, se o leitor não prestar atenção e raciocinar sobre o que está lendo, pode ter certeza de que chegará ao final com um gosto estranho na boca. E, arrisco dizer, que esse modo de contar histórias irá pautar boa parte da minha produção de agora em diante…

quinta-feira, 23 de novembro de 2017

Um trecho marcante de Stephen King #2


Mas naquele ano há mais alguma coisa: uma sensação de coisa errada a que ninguém saberia realmente dar voz. Pessoas que nunca tiveram um pesadelo na vida acordarão aos gritos durante a semana do fin de año; homens que se consideravam pacíficos acabarão não apenas se metendo em brigas de socos, mas instigando–as; garotos rebeldes, que em outros anos só sonhariam em fugir de casa, naquele ano realmente o farão, e a maioria não voltará após a primeira noite dormindo na rua. 
Há um senso — inarticulado mas muito presente — de que as coisas não correram bem naquela estação. É o encerramento do ano; é também o encerramento da paz. Pois é ali, no sonolento Baronato de Mejis, no Mundo Exterior, que o último grande conflito do Mundo Médio em breve começará; é dali que o sangue começará a correr. Em dois anos, não mais que isso, o mundo como até então existiu será liquidado. Começa ali. De seu campo de rosas, a Torre Negra grita com sua voz de animal. O tempo é uma face na água.



domingo, 16 de abril de 2017

Um trecho marcante de Stephen King


Funcionou. Nosso casamento durou mais que todos os líderes mundiais, com exceção de Fidel Castro, e enquanto continuarmos conversando, discutindo, fazendo amor e dançando ao som dos Ramones — gabba gabba hey —, é bem provável que continue funcionando. Temos religiões diferentes, mas, como feminista, Tabby nunca morreu de amores pelo catolicismo, no qual homens fazem as regras (inclusive a diretriz divina de sempre transar sem camisinha) e as mulheres lavam a cueca deles. E, embora eu acredite em Deus, não consigo ver a utilidade das religiões organizadas. Viemos de família humilde, ambos comemos carne, somos democratas e temos as típicas desconfianças ianques com relação à vida fora da Nova Inglaterra. Somos sexualmente compatíveis e monogâmicos por natureza. Porém, o que mais nos une são as palavras, a linguagem e o trabalho da nossa vida.

Stephen King – Sobre a escrita




P.S.: Parabéns, sr. King — seu casamento dura mais do que todos os líderes do mundo!

P.S.: Será que sou só eu que acha que o Robert Sean Leonard, da série House, daria um ótimo Stephen King no cinema…?

Stephen King
Robert Sean Leonard

sábado, 1 de agosto de 2015

Mas é realismo mágico ou fantasia?

(Originalmente publicado no Papo de Cafeteria, republicado no Monomaníacos, discutido no CabulosoCast #122 - A (polêmica) literatura fantástica nacional, e gerou minha participação no CabulosoCast #149 - Realismo mágico)

Cena do filme A estrada, baseado no livro de Cormac McCarthy.

Existe muita confusão sobre o tal do gênero conhecido como realismo mágico. Como se pode ser realista quando se fala de alguma coisa mágica? Seria esse um gênero mainstream disfarçado de fantasia para vender mais, ou um jeito que a fantasia deu de se enfiar no meio mainstream? No que ele difere da ficção fantástica tradicional?

É aceito que o realismo mágico tenha surgido na América Latina com escritores como Jorge Luis Borges, Gabriel García Márquez, Julio Cortázar e outros — mas isso se considerarmos estritamente o gênero de prosa produzida por esses senhores. Contudo, existem muitos outros escritores — inclusive fora da América Latina — que fazem obras que, nitidamente, bebem das mesmas fontes desses pioneiros; seriam, então, assim, excluídos do “gênero” por não estarem na mesma sombra geográfica? Mas, espere (você pode se perguntar); se não for assim, como sempre me foi dito, como eu vou identificar o que é realismo mágico e o que é ficção fantástica, ou fantasia? Bom, para começar a polêmica, já começo defendendo de que tudo é ficção fantástica. Daí podemos subdividir em fantasia, ficção científica, realismo mágico, terror, new weird… E então chegamos ao cerne: qual a diferença entre realismo mágico e fantasia, e como identificá-los?

Comecemos pelo mais fácil — a fantasia. O que é uma obra de fantasia? Parece óbvio dizer que O senhor dos anéis do Tolkien é fantasia, assim como As crônicas de gelo e fogo do George Martin. Temos dragões, magia e mortos-vivos em ambos. A Torre Negra do Stephen King também; temos portais dimensionais, ora! Em Deuses americanos do Neil Gaiman temos, bem, deuses!, assim como em O inimigo do mundo do Leonel Caldela. Até aqui tudo bem. Se não houvesse esses elementos, esses mundos se desfigurariam completamente. Não há Terra Média sem magia, sem magos e sem orcs; não há Arton sem elfos, deuses e kobolds. A América de Deuses americanos é moldada pelo “mundo atrás do palco”, e o mundo d’O pistoleiro é uma versão do nosso. Retirando-se o Um Anel, Gandalf ou Sauron, ainda sobram inúmeros elementos fantásticos em O senhor dos anéis, pois essa obra é feita disso. Do mesmo modo, o mundo d’A Torre Negra seguiu adiante, com ou sem Roland Deschain. E Arton sem a Tormenta continua sendo Arton. Agora… poderíamos dizer que o mesmo acontece em obras como A estrada do Cormac McCarthy, Kafka à beira-mar do Haruki Murakami, A metamorfose do Franz Kafka, Memórias póstumas de Brás Cubas do Machado de Assis, A menina que roubava livros do Markus Zusak…? (Perceberam que não mencionei nenhum dos autores latinos supracitados, não é?)

É nítido e evidente que os elementos fantásticos estão presentes nessas obras. A estrada fala sobre um mundo pós-apocalíptico; em Kafka à beira-mar temos um senhor que fala com gatos (e eles se entendem mutuamente, fique claro) e outras coisinhas mais; o protagonista de A metamorfose vira um inseto gigante; e em Memórias póstumas de Brás Cubas e A menina que roubava livros, quem narra as estórias são, respectivamente, um morto e a Morte. Contudo, eu também pergunto: Sem esses elementos fantásticos, as histórias perdem suas importâncias? Vamos lá, a resposta é fácil: não. A estrada não é sobre o mundo apocalíptico; é sobre o amor de um pai pelo filho na adversidade extrema. Em qualquer outro cenário semelhante aquilo funcionaria tão bem quanto. Perdidos no deserto de Gobbi ou no Atacama, em Marte ou no Ártico. Memórias póstumas… e A menina… têm somente narradores incomuns, o que torna suas estórias únicas, mas elas são perfeitamente possíveis em nosso mundo real. A metamorfose é sobre a melancolia, sobre o sofrimento de um ser humano que não vê sua utilidade no mundo, e Kafka à beira-mar tem em seus elementos fantásticos apenas adornos de um algo maior. E assim também é com A revolução dos bichos do George Orwell, Ensaio sobre a cegueira do José Saramago, Horizonte perdido do James Hilton, Incidente em Antares do Érico Veríssimo…

Então, essa definição é a final? Claro que não. Muitos estudiosos — ou chatos, como preferirem — não admitem que o realismo mágico seja mais do que aquela literatura de nicho feita na América Latina. Isso, contudo, a meu ver, seria semelhante a dizer que não há fantasia fora da Europa ou ficção científica fora da literatura escrita em inglês.

É quase como dizer que Star wars é fantasia e não ficção científica, mesmo tendo uma explicação para a Força e alienígenas serem aceitos na ficção científica de O fim da infância do Arthur C. Clarke e não em… Bom, mas acho que esse assunto terá que ficar para um próximo artigo.

Ilustração para o livro A Torre Negra vol. 1: O pistoleiro.

quinta-feira, 12 de março de 2015

Misery: Louca obsessão, de Stephen King


Como o mestre King consegue criar personagens tão bons, tão críveis, tão fantásticos quanto Annie e Paul de Misery: Louca obsessão? Como um autor consegue desenhar tão bem as peculiaridades, características, sutilezas, maldades e loucuras do ser humano? Os momentos doces, os momentos cruéis, os momentos gore... (Os momentos que são ao mesmo tempo doces e cruéis e gore...)

Essa obra esteve na minha lista de "quero ler" desde que descobri que ele fala sobre um escritor, sobre o processo de escrita — mesmo que, digamos, sob algumas circunstâncias bastante particulares... —, mas nunca imaginava que fosse uma estória tão bem escrita. Dizer isso de Stephen King é redundância (ainda que, confesso que não entendo, haja pessoas que não gostam dele), mas Misery, de fato, chega a ser acima do nível até mesmo de seus outros livros. Não li muita coisa dele — a saber: Os olhos do dragão, que não gostei; O pistoleiro A escolha dos três da série A Torre Negra, fantásticos, não tem nem o que falar mais do que já falei; e Christine, ótimo também —, mas já estou entrando naquela onda de "sei que qualquer coisa que eu ler dele vai ser boa". Pode não ser verdade, mas que o cara cria expectativas, ah, isso ele cria! E ele tem tanta coisa que sei que vai ser boa... O apanhador de sonhos... Carrie: A estranha... O iluminado... À espera de um milagre... Jesus cristinho, é coisa boa demais! :P

Assim sendo...: próximo livro do sr. King, aqui vou eu!

:D


segunda-feira, 2 de março de 2015

Aquisições literárias - janeiro/fevereiro '15


Como há muito tempo não falo sobre minhas novas aquisições de livros, fica inviável colocar tudo em dia. De qualquer forma, tem uma lista lá em baixo do que eu comprei e ainda não li. No entanto, queria falar mais sobre minhas aquisições, então vou me limitar — e tentar continuar a tradição futuramente — a falar bimestralmente sobre essas aquisições. Vamos lá.



Ganhei esse Duna de aniversário, da minha esposa. Coisas lindas, o livro e a esposa. Essa edição mantém a qualidade das recentes FCs da editora Aleph. E já estou quase acabando de lê-lo — que livro foda! Frank Herbert escreve demais! Espero que o final não decepcione. O A reconquista (o antigo Campo de batalha: Terra — mudado pra acompanhar o nome do filme com o John Trêsvoltas) de L. Ron Hubbard, editora Record, é uma edição antiga — e enorme — que eu peguei num sebo por vintão na troca de alguns livros que não curti muito (a saber: Anjos da desolação de Jack Kerouac e Necrópolis de Douglas MCT).





Agora, esses todos eu peguei num Dia de Livros do site da Saraiva. Acho que o mais caro deles saiu por R$ 19,90... O Misery: Louca obsessão já estava nos meus planos há muito tempo. Sou fã do Stephen King, de como ele fala bem sobre o ser humano, e esse me atraiu ainda mais por se tratar da história de um escritor. Os Orgulho e preconceito da Jane Austen e O morro dos ventos uivantes da Emily Brontë são lindas edições bilíngues e capa dura da editora Landmark. O segundo eu já havia lido, mas o primeiro não — e estou cumprindo minha meta de compras as mais bonitas edições de livros que já li e merecem estar na minha estante. O A página assombrada por fantasmas do Antônio Xerxenesky, editora Rocco, é um livro que eu quero ler há muito tempo, e acho essa capa fantástica mesmo, muito criativa. O Laranja mecânica do Anthony Burgess é um must read, não tem nem o que falar — em breve me redimo desse pecado literário. Finalmente achei o A bússola de ouro, do Philip Pullman, editora Objetiva, que não é edição econômica e não tem a capa do filme — e numa promoção ainda! Excelente. Claro que já ouvi falar dele, e muito, mas tenho muita expectativa. Lembro que gostei do filme quando o vi, e, se o livro for realmente muito melhor, como falam... Vamos ver. Além desses, ainda peguei O cavaleiro dos sete reinos do George R. R. Martin, da editora LeYa, que conta os eventos um século antes dos narrados em As crônicas de gelo e fogo — e em capa dura, assim como o lindo Star wars: A trilogia, da editora Darkside Books, que só faz belezuras com suas edições. Ah, tinha esquecido de um ainda: O bicho-da-seda da J. K. Row... digo, do Robert Galbraith, versão capa dura da editora Rocco.



Numa promoção da livraria Nobel, comprei por 50% do preço esses dois. Tive que comprar O jogo do anjo, do Carlos Ruiz Zafón, lançado pela Suma de Letras, porque simplesmente amei A sombra do vento (e já tinha O prisioneiro do céu, que achei num bazar beneficente por R$ 3). Se mantiver a mesma qualidade do primeiro, será nota 5 de 5 de novo, fácil, fácil. Agora, esse Heresia, da S. J. Parris, me chamou a atenção desde que foi lançado pela editora Arqueiro, e não pude deixar de aproveitar a promoção.




Num sebo novo que descobri aqui em Sorocaba, encontrei o Contato, do Carl Sagan, publicado pela editora Companhia das Letras, dificinho de encontrar hoje em dia... Tenho esse livro em alta expectativa por causa de tudo o que falam dele. Outro que eu já ouvi falar bem — ainda que não tenha ouvido falar tanto assim — foi o Momo e o senhor do tempo, numa bela edição da Martins Fontes. Do escritor Michael Ende eu já li A história sem fim e adorei, então, quem sabe? Vou ler sem expectativas, então só posso me surpreender, para o bem ou para o mal. Também encontrei lá A mão e a luva (finalmente uma edição do Machadão em capa dura, como é difícil de achar!), da editora Globo, e As máquinas do prazer, da editora Francisco Alves — obra que nunca tinha ouvido falar mas comprei porque Bradbury é o cara. E tudo isso por R$ 40.



Perdidos por aí em sebos da vida e custando uns R$ 5, estavam O oitavo passageiro (Alien), de Alan Dean Foster, daquela coleção Grandes sucessos da editora Abril; Encontro com Rama, do Arthur C. Clarke, na edição antiga da Nova Fronteira (e que vontade dá de comprar a versão da Aleph antes de ler essa, hehe); e Poeira de estrelas, do mestre Asimov, edição da Expressão e Cultura, que eu acho que não tem edição mais nova aqui no Brasil. Edit: O Alien custou R$ 2 :)



Quem reclama dos preços dos livros é porque não sabe comprar. A livraria Atlântica tem uma banquinha rotativa de R$ 10, e lá encontrei esse São Diabo, do Manfredo Kempff, publicado pela editora Alfaguara (adoro esse design das capas deles) e me interessei e comprei. Do mesmo modo, a Livros e Cia. também tem uma estante de promoções, e lá também me interessei por esse Cobras e piercings, da autora japonesa Hitomi Kanehara, um livro fininho da editora Geração Editorial, e já estou lendo e gostando.



E pra finalizar a epopeia janeiro/fevereiro, mais 3 livros por R$ 10 cada, atualizando minha coleção de ficção fantástica nacional. Temos o realismo mágico de Incidente em Antares, do Érico Veríssimo, capa dura da editora Globo; temos a realidade alternativa de Outros Brasis, do Gerson Lodi-Ribeiro na edição da editora Unicórnio Azul; e temos a distopia Admirável Brasil novo do Ruy Tapioca, na edição — que tem uma belíssima fotografia de capa — da editora Rocco. Bastante expectativa para ler os três.

domingo, 7 de dezembro de 2014

A Torre Negra vol. 2: A escolha dos três, de Stephen King


Conquistei mais uma etapa de minha jornada em direção à Torre Negra! E com a ajuda de Roland, Eddie e Susannah. Que personagens...!

O Sr. King cria personagens como ninguém, não é? É impressionante a verossimilhança mesmo de seus coadjuvantes, e também como seus principais conseguem nos cativar, nos impactar e nos emocionar.

Além de (acho) nem precisar dizer o quanto a trama dessa obra foge de qualquer clichê esperado ou semelhança a alguma história previamente contada. Em A escolha dos três, mundos se fundem da maneira mais inesperada possível, e algumas respostas a perguntas do volume 1 são dadas... Mas podem ter certeza de que muitas mais indagações surgem no horizonte.

E algumas dessas indagações, estou certo, podem ser ainda mais terríveis que meros Chum? Chac? Chic?...



«««««/5

terça-feira, 11 de novembro de 2014

A Torre Negra vol. 1: O pistoleiro, de Stephen King


O volume 1 d'A Torre Negra me surpreendeu, de verdade. Talvez influenciado pela introdução do próprio Stephen King, eu tenha imaginado que, sim, a série fosse excelente, isso seria inegável, mas que o primeiro volume não fosse assim lá essas coisas... E como eu me enganei.

Após, de fato, a leitura de Christine, eu pude mesmo perceber, de acordo com o que ele fala na introdução, que sua escrita ainda não havia atingido o "nível Stephen King" a que estamos acostumados — e, curiosamente, percebe-se a melhoria desse estilo no decorrer do próprio livro, como também percebemos em obras trabalhadas por muito tempo de autores iniciantes. Os adjetivos e advérbios, abundantes de início, aos poucos vão sumindo, e a obra se torna mais precisa, mais concisa, mais direta. Não sei se por causa desse estranhamento no estilo eu tenha reforçado a impressão inicial de que O pistoleiro valesse apenas como uma introdução mesmo à Torre, mas, realmente, no final do livro, ele mostra a que veio e que, sim, ele se sustenta como um ótimo livro por si só. O diálogo final (não posso dizer entre quem) é pouca coisa menos que arrebatador, encantador, épico. Por ele se percebe que terão realmente valor todos os 33 anos gastos por King em escrever a série, e que valeria a pena, inclusive, esperar mais 33 anos para terminar de lê-la. Ainda bem que não precisamos, hehe.

N'O pistoleiro, podemos ver a Torre se erguendo, não rumo aos céus, mas rumo ao Universo, assim como podemos perceber que a jornada de Roland será, provavelmente, uma das coisas mais recompensadoras que poderemos encontrar na literatura deste nosso pequeno mundo de grão de areia.


««««/5